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Sistema imunológico mais fraco é ruim? Não para algumas aves

As aves que costumam migrar da Europa para a África possuem sistema imunológico mais fraco que o das nativas (como a da foto) - Peter Steward/The New York Times
As aves que costumam migrar da Europa para a África possuem sistema imunológico mais fraco que o das nativas (como a da foto) Imagem: Peter Steward/The New York Times

Asher Elbein

01/07/2018 04h01

Duas vezes ao ano no sul da Suécia, os céus se enchem de aves migratórias. Bandos convergem para a ponta sul do país, tanto se afastando como se dirigindo ao inverno na África e às áreas de nidificação na Europa.

É uma jornada dura e extenuante, na melhor das hipóteses. Então, a ornitologista Emily O'Connor se questionou: como esses viajantes compulsivos lidam com infecções?

"Uma das grandes perguntas biológicas ligadas à migração é como essas aves enfrentam doenças em duas regiões geográficas completamente diferentes", diz O'Connor, pesquisadora da Universidade de Lund, na Suécia.

"Se eu fosse viajar da minha casa na Europa para África nas férias, precisaria de tudo quanto é tipo de vacina para me proteger de doenças. Já as aves migratórias se deslocam regularmente entre Europa e África sem ajuda de remédios."

As origens evolutivas da migração das aves são um antigo enigma para os ornitologistas, e o papel da doença ao influenciar o comportamento nunca ficou inteiramente claro. Um estudo recente de O'Connor e colegas examinou a genealogia e reação imune de aproximadamente 1.300 espécies de pássaros canoros dos dois continentes.

Custo metabólico de combater infecções pode deixar as aves migratórias (como a da foto) incapacitadas de completar exaustiva viagem - Radovan Vaclav/The New York Times
Custo metabólico de combater infecções pode deixar as aves migratórias (como a da foto) incapacitadas de completar exaustiva viagem
Imagem: Radovan Vaclav/The New York Times
O resultado surpreende: as aves migratórias têm um sistema imune mais fraco do que as espécies tropicais que não saem do lugar.

O'Connor começou examinando a história evolutiva e as relações entre pássaros canoros europeus e africanos, incluindo dados de sua abrangência atual e parentescos.

A maioria dos europeus, inclusive os que procriam lá, descende de ancestrais africanos, constataram os pesquisadores. Como áreas mais próximas à linha do Equador costumam ter uma maior incidência de doenças, tanto os moradores permanentes quanto os migrantes europeus influíram na disseminação de um ambiente profundamente infeccioso para um relativamente benigno.

No caso das aves europeias, isso corrobora com a ideia da "fuga do patógeno", sugerindo que espécies tendem a se afastar de ambientes com doenças mais frequentes. Porém, as espécies migratórias ainda passam muito tempo na África e, portanto, ao lado de patógenos africanos.

Segundo O'Connor, a implicação óbvia é que eles têm sistemas imunes particularmente resistentes.

Para confirmar, a equipe examinou genes de identificação de patógeno em 32 espécies migratórias e sedentárias. Tais genes controlam proteínas celulares que ajudam o sistema imune a reconhecer moléculas estranhas.

De acordo com a teoria, quanto maior a diversidade desses genes, maior a exposição a doenças infecciosas durante a evolução.

Para sua surpresa, a equipe constatou que espécies africanas que não migram apresentavam um sistema imune significativamente mais forte que o de primos europeus ou migratórios. Isso sugeriu algo diferente: a migração também pode fazer parte de uma inter-relação evolutiva para se afastar de enfermidades.

O'Connor disse que, de acordo com um estudo anterior, as aves são mais vulneráveis à infecção após a postura de ovos. Pássaros como o africano petinha-de-dorso-liso combatem isso com uma reação imunológica poderosa.

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Contudo, manter uma reação imune complexa tem custos significativos. Animais que contam com essa defesa costumam ser mais propensos a sofrer de distúrbios autoimunes, inflamação crônica e outras doenças relacionadas.

Pássaros europeus da família dos muscicapídeos, entre outros, que mudaram a área de nidificação para a Europa, não criam mais os filhotes em um ambiente cheio de enfermidades e, assim, não precisam arcar com os custos de uma reação imune poderosa, quer visitem a África ou não.

"Até onde sei, o nosso é o primeiro estudo a mostrar que a migração e mudanças no sistema imune estão ligadas a um amplo nível evolutivo", afirma O'Connor.

"Não digo que fugir de patógenos fosse necessariamente um dos fatores a impulsionar a evolução da migração, só que os dois processos estão relacionados."

Para Joel Slade, ecologista evolutivo da Universidade Estadual de Michigan, o estudo traz um argumento atraente, mas a relação exata entre migração e fuga de patógeno ainda precisa ser destrinchada.

Viajar entre continentes é extenuante, e aves que não conseguiram acumular reservas de energia costumam morrer no trajeto. O esforço dessas jornadas pode deixar os pássaros mais suscetíveis a doenças, enquanto o custo metabólico de combater infecções pode deixá-los incapacitados de completar a viagem ou de ter sucesso no acasalamento ao final.

Além disso, diz ele, as regiões temperadas também têm muitas enfermidades próprias.

"As doenças equatoriais podem viajar a zonas mais temperadas, e é uma preocupação que a mudança climática esteja alterando a abrangência dessas enfermidades", diz Slade. "Também é notável que a malária aviária pareça ser generalista, pela qual um tipo pode infectar diversas espécies, e essas espécies podem ser encontradas no que este estudo chama de zonas 'leves em patógenos'."

Embora o ornitologista Frank La Sorte, da Universidade Cornell, em Ithaca, no estado de Nova York, também considere a pesquisa convincente, ele recomenda cautela em aplicar as descobertas a outras regiões. A migração é um fenômeno local que evoluiu, desapareceu e voltou a evoluir em áreas diferentes, declara.

Por exemplo, pássaros canoros que migram entre as Américas do Norte e do Sul parecem fazer o contrário das espécies africanas, com ancestrais nortistas colonizando o sul equatorial. Isso quer dizer que a evolução de seu sistema imune pode ter sido bem diferente.

Mesmo assim, para La Sorte, o estudo apoia com veemência a ideia de que as doenças são uma importante pressão seletiva na definição das estratégias de migração das aves – ao menos entre as que voam nas rotas europeias e africanas.

Também é útil salientar que ainda persistem muitos mistérios remanescentes sobre como a migração das aves teve início. "Cada região pode ter uma combinação singular de fatores que promovem o desenvolvimento do comportamento migratório em populações de aves", afirma.

Para O'Connor, a pesquisa também ofereceu uma oportunidade de avaliar como viver em ambientes distintos pode modelar a evolução das respostas imunes.

Todos os vertebrados – inclusive humanos – compartilham sistemas imunes similares, destacou ela. Em um mundo onde doenças e espécies estão mudando sua área de abrangência por causa da mudança climática, entre outros fatores, é mais importante do que nunca compreender como os animais evoluíram para lidar com as doenças.

"Existe muitos fatores que devem desempenhar um papel na evolução da migração e, provavelmente, as respostas tradicionais de comida e competição são os principais. Todavia, acho que podemos ter subestimado o papel que evitar o patógeno pode ter desempenhado. Afinal, a doença é uma intensa força seletora."

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