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Ambiciosa, missão Rosetta chega ao fim abrindo portas para o futuro

Do UOL, em São Paulo

30/09/2016 06h00Atualizada em 30/09/2016 17h18

A aterrissagem nesta sexta-feira (30) da sonda Rosetta no cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko põe fim a uma missão de mais de uma década da ESA (Agência Espacial Europeia), vista como sucesso científico e de público e que abre o caminho para futuros horizontes.

O pouso aconteceu às 8h19 (horário de Brasília) e foi transmitido ao vivo pelo canal de transmissão da ESA. As últimas imagens da Rosetta enviadas à Terra mostraram o solo do cometa dez segundos e cinco segundos antes do impacto.

O sinal com as imagens viajou 40 minutos-luz (850 milhões de km) pelo espaço até chegar ao centro de controle da ESA na Terra. Assim, quando a sonda tocou o chão, na Terra os relógios marcavam 7h39 (horário de Brasília)

Para aterrissar, a sonda reduziu sua velocidade orbital, "descendo em direção ao cometa em uma velocidade muito baixa", explicou Andrea Accomazzo, diretor de voo da missão.

A Rosetta iniciou sua manobra final às 17h50 de quinta (horário de Brasília), quando começou a cair de uma altitude de cerca de 19 km. O alvo era uma região do 67P de precipícios, chamada de Ma'at.

O interesse em estudar o local deve-se ao fato dele revelar traços da atividade e da formação do cometa, incrustados nas paredes dos poços.

Na descida, a Rosetta recolheu amostras de gás, poeira e de plasma, além de tirar fotos de alta resolução. Todos os resultados foram enviados à Terra antes do choque. Agora, não é mais possível se comunicar com a sonda.

Rosetta entrou nos livros de história. Celebramos o sucesso de uma missão que superou todos os nossos sonhos e expectativas

Johann-Dietrich Wörner, diretor geral da ESA

Já Álvaro Giménez, diretor de ciência da ESA, destacou que a missão abarcou carreiras inteiras de profissionais envolvidos. "Os dados que retornaram irão manter gerações de cientistas ocupados durante as próximas décadas", afirmou. 

A decisão de terminar a missão dessa forma ocorreu pelo fato de a Rosetta e o cometa 67P estarem ultrapassando a órbita de Júpiter, ficando cada vez mais longe do Sol, o que levaria à redução da energia a nível abaixo do necessário para a sonda funcionar. 


Uma viagem cheia de histórias para contar

A viagem espacial de 12 anos da sonda ofereceu dados que ampliaram o que se sabia sobre o aparecimento da vida na Terra. A missão histórica buscou compreender o surgimento do Sistema Solar, já que os cometas são vestígios da sua matéria primitiva.

Planejada ainda no início da década de 1990, a Rosetta conseguiu feitos inéditos. Ela foi lançada em março de 2004 com o objetivo de alcançar o 67P e soltar sobre ele o módulo robótico Philae. A sonda cumpriu sua meta em novembro de 2014, em uma manobra sem precedentes na história da exploração espacial. O robô, contudo, acabou em uma área de sombra, onde está inativo desde o ano passado por falta de energia

No início de setembro deste ano a ESA anunciou que finalmente encontrara o robô Philae no cometa. Correu mundo a tocante imagem do robozinho numa escura fissura do cometa, dois anos depois de concluir com relativo sucesso o primeiro pouso num cometa. 

Philae estava encarregado de uma série de experimentos científicos, tendo conseguido realizar 80% da tarefa antes que sua bateria acabasse. A sonda Rosetta orbitou o cometa para estudar seu núcleo e cercanias. Feito isso, e com Philae localizado um mês antes do fim da missão, Rosetta finalmente encerrou suas tarefas. O ato derradeiro foi o choque contra a superfície do cometa.

Rosetta capta explosão de cometa com detalhes

Band News

Fim de viagem com mochila cheia de dados

Batizado em homenagem à famosa pedra que permitiu decifrar os hieróglifos egípcios, o primeiro projeto desenvolvido para orbitar e aterrissar sobre um cometa, e focado no estudo desses astros, chega a seu ocaso natural com a mochila carregada de dados pendentes de estudo.

"Durante a missão, os cientistas ficam imersos em sua execução e planejamento. Agora, eles vão ficar ocupados durante anos", explicou em entrevista à agência Efe, o chefe de coordenação da ESA, Fabio Favata.

A informação que a sonda recolheu durante sua descida sobre o gás, o pó e o plasma a uma distância muito curta, e que enviou à Terra antes do impacto, são a cereja do bolo de um longo trabalho de pesquisa, cuja herança será extensa.

Cometa 67P - ESA/Rosetta/NAVCAM - ESA/Rosetta/NAVCAM
Imagens da superfície do cometa 67P feitas pela sonda Rosetta
Imagem: ESA/Rosetta/NAVCAM

"Com Rosetta foram feitas, pela primeira vez, operações com painéis solares longe do Sol. Houve desafios técnicos que foram controlados e que permitirão missões futuras", acrescentou o especialista italiano.

Favata prefere não qualificá-la de missão histórica, mas a reconhece como "uma das grandes" de sua agência, que tentou esclarecer com ela a formação e evolução do Sistema Solar e entender como ele era no momento em que a Terra se originou.

Futuras jornadas à vista

Com o fim de um dos projetos que mais visibilidade deu à ESA, a agência europeia não ficará órfã de projetos tão ou mais interessantes que Rosetta.

Segundo o representante da agência, 2018 será um ano bastante cheio. É o ano, entre outros exemplos, em que será lançada BepiColombo, uma missão conjunta a Mercúrio da ESA com a agência espacial japonesa JAXA.

É também o ano previsto para o lançamento da missão Solar Orbiter, concebida em parceria com a americana Nasa, que se aproximará do Sol mais que qualquer outra para analisar o magnetismo solar, sua atividade explosiva e os efeitos imediatos nas proximidades da estrela.

Além disso, será o ano em que, a bordo de um Ariane 5, será lançado junto com a Nasa e sua homóloga canadense o telescópio espacial James Webb, que pretende realizar observações infravermelhas do universo, detectar as primeiras galáxias e presenciar o nascimento de novas estrelas.

Mais adiante, aparece na agenda a sonda Juice, que aproveitará a tecnologia desenvolvida para Rosetta e, quando for lançada em 2022, será a primeira missão europeia com destino ao planeta Júpiter, para estudar a aparição de mundos habitáveis em torno de seus gigantes gasosos.

Em busca da vida fora da Terra

Depos da Rosetta, o estudo de astros como cometas não é mais o limite das pesquisas científicas. "Uma das questões científicas mais antigas é se a Terra é única ou se há outras formas de vida. Frequentemente, imaginamos que não estamos sozinhos, mas não há uma resposta científica, apenas filosófica", explicou o chefe do escritório de coordenação da ESA.

Agora, de acordo com Favata, "é bastante interessante viver em uma época na qual se pode começar a dar uma resposta científica e, além disso, com o privilégio de que podemos começar a vislumbrar essa questão".

Ilustração da sonda Rosetta feita pela ESA - ESA - ESA
Ilustração da Rosetta dormindo para sempre no cometa 67P feita pela ESA (Agência Espacial Europeia). Ao fundo, está o módulo Philae. A divulgação dos feitos da sonda recebeu atenção especial da agência, que criou diversos vídeos diáticos
Imagem: ESA