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Clique Ciência: o que se sabe sobre Marte até agora?

Imagem divulgada pela Nasa registra uma cratera fruto de impacto "recente" (em uma escala geológica) na região de Sirenum Fossae em Marte - University of Arizona/JPL/Nasa/EPA/EFE
Imagem divulgada pela Nasa registra uma cratera fruto de impacto "recente" (em uma escala geológica) na região de Sirenum Fossae em Marte Imagem: University of Arizona/JPL/Nasa/EPA/EFE

Tatiana Pronin

Do UOL, em São Paulo

14/07/2015 06h00

Em dezembro do ano passado, o robô de exploração Curiosity, enviado pela Nasa (agência espacial norte-americana) à Marte, detectou emissões de metano no Planeta Vermelho. O gás pode ser usado para alimentar formas muito simples de vida. Na última segunda, cientistas divulgaram um estudo em que afirmam terem encontrado, no local onde a sonda Curiosity aterrissou em Marte, rochas ricas em sílica similares às da crosta continental mais antiga da Terra

Será que estamos próximos de cravar que há vida em Marte?

Cientistas ainda tentam definir o que de fato significa dizer que há vida em um planeta. Seria preciso existir oxigênio? hidrogênio? água? A verdade é que ninguém sabe ao certo.

"Não sabemos com exatidão quais são as condições mínimas necessárias para a existência de vida fora da Terra porque só conhecemos a vida terrestre. Talvez seja possível existir vida com características que sequer imaginemos", observa o professor Enos Picazzio, professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP (Universidade de São Paulo).

"A maioria dos seres vivos necessitam de oxigênio para sobreviver, mas há bactérias terrestres que morrem na presença desse gás. Existem organismos que vivem embaixo da terra ou em lugares dominados pela amônia, por exemplo. Ou seja, o oxigênio pode não ser um ingrediente fundamental para a vida alienígena", acrescenta o astrônomo.

É por isso que, por segurança, cientistas do mundo inteiro têm concentrado suas buscas em planetas que guardam alguma semelhança com a Terra.

A descoberta de certos elementos também podem tornar mais viável uma eventual estada humana em Marte, ainda que breve. Americanos, russos, chineses e outros povos já manifestaram a intenção de levar gente ao Planeta Vermelho - esse é o tema da nova corrida espacial.

Segundo um dos autores da pesquisa sobre vestígios de metano encontrados pelo Curiosity, publicada na revista Science, também foram identificadas partículas orgânicas, que contêm carbono e hidrogênio, em uma rocha perfurada pelo robô. Essas moléculas são consideradas a base da vida, como a conhecemos, embora também possam existir em ambiente inabitados.

Água

E os inúmeros vestígios de depósitos de água, divulgados nos últimos anos pelas agências espaciais, não seria a prova máxima de que Marte tem, ou pelo menos já teve, alguma forma de vida? "A água é o solvente orgânico, por isso é importante, ou mesmo fundamental, para a maioria das formas de vida", diz Picazzio.

Marte teve muita água e ainda retém parte dela no subsolo, como já comprovaram as diversas sondas enviadas para estudar o planeta. Mas o astrônomo explica que, por si só, o líquido não é capaz de criar um ambiente propício para a vida. "A água é um elemento abundante no Universo e no Sistema Solar", comenta.

Para o astrônomo, se porventura tiver existido alguma forma de vida em Marte, é provável que reste alguma forma primitiva ali, algo que sobreviva a baixas temperaturas e não dependa de luz.

Ou seja: a vida no Planeta Vermelho não deve ter sido tão diversificada e evoluída como a da Terra. "Marte tem órbita mais excêntrica (as distâncias ao Sol variam mais que no caso terrestre, e isso provoca queda mais acentuada na temperatura). Além disso, a inclinação do eixo de rotação não é estável como no caso da Terra - ele oscila em quase 89 graus, o que provoca variações climáticas severas)", justifica.

Obstáculos

Ainda que exista água ou qualquer outra coisa útil para a sobrevivência de astronautas em Marte, ainda é preciso vencer o maior obstáculo de todos para conquistar o planeta: a distância. "Sondas não tripuladas levam cerca de oito meses para chegar lá. Uma viagem de ida e volta pode durar pouco mais de dois anos", estima o professor. E mais: é preciso proteger os astronautas da radiação solar e cósmica durante todo o trajeto.

Ainda que os cientistas consigam resolver a questão do combustível e desenvolvam escudos efetivos para proteção dos tripulantes, existe um outro desafio: aguentar longos períodos de isolamento. Uma viagem de ida e volta à Lua demora cerca de uma semana, e as temporadas na Estação Espacial Internacional, embora mais longas, ocorrem bem mais perto de casa.

"No caso de Marte, é muito diferente, por isso pensa-se, neste momento, em uma viagem sem retorno", diz Picazzio. Muita gente já se ofereceu para a missão. Resta saber quem vai continuar disposto quando, dentro de algumas décadas, for mesmo possível entrar em uma nave e partir para o Planeta Vermelho.
 

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