Tempo perdido

Ex-funcionário do Google fala sobre como evitar que as redes sociais tomem conta do nosso tempo

Letícia Naísa De Tilt, em São Paulo

Quando falamos sobre redes sociais, sabemos que existe um problema. Estamos viciados em rolar nossos feeds e consumir conteúdo. Nossa atenção está sempre voltada para o pequeno aparelho luminoso em nossas mãos. Escapar é possível? E mais importante: escolher ficar "preso" é tão ruim assim?

Por 10 anos, James Williams, pesquisador de ética tecnológica avançada da Universidade de Oxford, trabalhou na empresa pioneira em reter a nossa atenção na frente das telas: o Google. Ele aprendeu como funciona a máquina por trás da big tech e ficou tão impressionado que passou a estudar como as gigantes da tecnologia podem moldar o nosso futuro.

Williams se tornou especialista em bem-estar humano e publicou o livro "Liberdade e Resistência na Economia da Atenção: Como Evitar que as Tecnologias Digitais nos Distraiam dos Nossos Verdadeiros Propósitos", publicado no Brasil em 2021.

Em entrevista exclusiva a Tilt, o pesquisador fala sobre sua trajetória, suas descobertas e dá dicas de como fazer um uso melhor do tempo livre.

Tilt: Qual foi o ponto de virada para você perceber que havia algo de errado com o funcionamento das Big Techs?

James Williams: Acho que foi quando os celulares começaram a substituir os laptops e os desktops. Eles começaram a tomar conta de hábitos que tinham um espaço definido de uso. Penetraram em todos os aspectos da vida. E a internet começou a se fundir com os celulares. Então, a onipresença de dispositivos e de acesso a qualquer coisa no mundo foi o meu ponto de virada. Comecei a ver diferenças de comportamento em mim, no meu próprio uso da tecnologia e nas pessoas ao meu redor. Comecei a perceber que o problema estava tomando a sociedade como um todo.

Eu estava do outro lado do muro, dentro da indústria. Dentro dessa infraestrutura gigantesca de medidas e análises, vendo um novo tipo de poder capaz de produzir um tipo de design persuasivo em escala. E as ferramentas não estavam sendo usadas para trabalhar contra esses novos hábitos, muitas vezes problemáticos, que todo o mundo estava desenvolvendo. Elas eram usadas para torná-los ainda piores, por meio de vídeos com reprodução automática, por exemplo. Ou com clickbaits [caça-cliques para gerar tráfego online] e todas essas variedades de persuasão digital.

Lá em 2007, 2008, eu ficava olhando aqueles painéis com números de cliques, de impressões na casa dos milhões, e ficava pensando que não são apenas cliques ou impressões. É a vida de pessoas. Aquelas decisões, aqueles comportamentos, não estariam acontecendo se não existisse esse sistema de persuasão. Percebi que se tratava de uma sociedade cuja dinâmica a indústria de tecnologia estava moldando.

Tilt: Quando você estava no Google em 2005, você imaginou que chegaríamos a um contexto de dominação dessas grandes empresas?

JW: As narrativas sobre a internet passaram por várias fases. Naquela época, a narrativa predominante era de que a internet permitia uma máxima expansão das coisas, de acesso, de conectividade. Era um desejo geral. Havia uma ideia [...] sobre a natureza da internet acabar com o poder antigo. A dinâmica da rede levaria a mundo mais livre, mais justo. Para onde quer que você levasse internet, a qualquer país, aquele lugar seria mais livre, teria mais acesso à informação e conhecimento. Acho que havia uma vertigem nisso tudo, porque tudo estava acontecendo muito rápido.

O acesso à informação na palma da mão teve efeitos ótimos, claro. Mas, como digo no livro, o que não levamos em consideração é o que [o economista] Herbert Simons fala sobre a escassez de atenção. A atenção como algo finito.

Desde 2016, a internet é vista como um problema. E é bom que estejamos cientes do problema. Com o livro, tento traçar uma terceira via entre esse tipo de pingue-pongue que existe entre a utopia e a distopia relacionadas à internet. Parte da natureza da internet é ser complexa. Há alguns anos, esse papo sobre o poder e a ética [das redes] se limitava a subculturas, a acadêmicos. Eu não fui o primeiro a levantar esse assunto. Mesmo antes da internet, há uma longa tradição de estudos sobre o poder no contexto da tecnologia.

Acho que eu vi o potencial para tudo o que está acontecendo hoje. As coisas indo na direção errada. Mas acho que havia certa esperança de que essas novas formas de persuasão poderiam estar do lado das pessoas. Ser usadas a favor delas, não contra.

Acho que uma das coisas mais fascinantes foi essa narrativa de que anúncios nas ferramentas de busca iriam remodelar a publicidade. Elas se tornaram um guia patrocinado para suas intenções e objetivos. Então, ao invés de explorar sua atenção, elas estavam guiando suas intenções. Mas acho que foi ali que esse tipo de "branding" se tornou uma criação de desejo, ao invés da realização de um desejo.

A paisagem mudou bastante. Acho que o impulsionamento de vídeos, essa prevalência nas redes sociais, foi um grande ponto de virada. O potencial de transformar a publicidade estava ali o tempo todo, e havia muito dinheiro a ser feito.

Tilt: No livro, você escreve que considera Facebook e Google como empresas de publicidade e não de tecnologia, como todo mundo pressupõe. Por quê?

JW: Existe uma convenção social e cultural interessante nisso. Uma empresa que produz petróleo, nós chamamos de empresa de petróleo [petrolífera]. Mas o termo "empresa de tecnologia" não deixa muito claro o que elas produzem ou vendem. Às vezes, o que é vendido é a tecnologia. Mas ele normalmente é usado para descrever uma empresa que é experiente o suficiente para integrar tecnologia em seu DNA, seja na digitalização de seus processos de produção ou na agilidade de sua linha de produção. Então, acredito que está muito mais relacionado à cultura, estilo e abordagem da empresa.

É claro que algumas vendem hardwares e softwares. São tecnologias sendo vendidas. Mas a maior parte da receita das Big Techs vem da publicidade. É isso que está sendo vendido. De certa forma, é a capacidade de captar e redirecionar a atenção dos usuários. Elas estão vendendo — ou melhor, alugando — espaço nessa engrenagem que elas criaram. Diferentes pessoas podem alugar um pouco de espaço nessa máquina de atenção. Então, de certa forma, é tecnologia, mas é só acidentalmente tecnologia. O que está sendo vendido é outra coisa.

Tilt: Lendo seu livro e acompanhando esse debate, lembrei de outra obra: "Era do Capitalismo de Vigilância", da Shoshana Zuboff. O que você acha desse termo "capitalismo de vigilância"? Sua pesquisa dialoga com a de Zuboff?

JW: Tenho muito respeito pelo trabalho dela. O livro dela veio cerca de um ano depois do meu [no mercado norte-americano]. Acho que nós cobrimos o mesmo território quando contamos essa história. Falamos dos problemas políticos e econômicos disso tudo.

Mas tendo a não preferir o termo "capitalismo de vigilância" porque acredito que ele sugere que o problema principal seja a vigilância relacionada à violação da privacidade. O fato de estarem coletando nossas informações. Isso é um problema, mas não acho que seja "o" problema. Isso é paralelo ao problema principal, que é como as plataformas usam nossa atenção e afetam nossa tomada de decisão. Elas tornam a nossa vida um produto a ser vendido e comprado.

Outra forma de colocar isso é que as violações de privacidade são, em grande parte, incidentes. Existem etapas no caminho para infringir a nossa autonomia, o que, pra mim, é um tipo de dano muito mais profundo.

Há outras frases usadas para descrever tudo isso. Georg Franck é outro acadêmico que usa o termo "capitalismo mental", que eu acho muito bom.

Tilt: No livro, você classifica nossos tempos como "Era da Atenção" e não "Era da Informação", como muitos estudiosos. O que isso significa? Por que a atenção hoje é tão valiosa para as empresas no nosso sistema?

JW: Sobre isso, eu volto à observação do Herbert Simon, que cito no livro, de que a abundância de informações cria uma escassez de atenção. A forma como nós moldamos a tecnologia digital criou pequenos pacotes de informação que estão sendo transferidos e comercializados. Isso é verdade, mas acho que, num sentido mais amplo, muito do que está sendo explorado é a captação da nossa atenção.

E o mais assustador é que não é só um momento de atenção. O que tento mostrar no livro é o sentido mais profundo do que conta como atenção. É sobre planos de longo prazo, os rumos que as nossas vidas tomam e até a nossa capacidade de dar atenção.

O que me assusta é que a nossa atenção está por um fio. De todas as coisas com que a gente se preocupa, acho que essa deveria ser mais a mais importante. Porque, para fazer qualquer coisa, você tem que prestar atenção.

Tilt: Outro tema que você aborda bastante é a liberdade de expressão. Qual a conexão entre liberdade de expressão e liberdade de atenção, como você coloca na obra?

JW: A liberdade, propriamente dita, não é apenas de falar. É a habilidade de planejar como viver nossas vidas. A liberdade de atenção é um pré-requisito para a liberdade de expressão de duas formas. Se você fizer um discurso, você tem que prestar atenção no que você vai falar. Se você é um ouvinte, você tem que dar atenção àquele discurso. A liberdade de expressão só tem valor quando alguém te escuta. A atenção é mais primária do que o discurso em si. A liberdade de atenção é necessária para que a liberdade de expressão tenha algum valor.

Tilt: Como nós ficamos tão distraídos a ponto de deixar isso tudo acontecer? Como não vimos?

JW: Tudo aconteceu muito rápido, quase na velocidade da luz. O iPhone foi lançado em 2007 e hoje todo mundo tem câmeras [nos celulares]. Todos têm o mundo na ponta dos dedos para remodelar a vida humana. Há uma frase que diz que o preço da liberdade é a eterna vigilância, mas penso que o preço da liberdade é a eterna atenção.

Acho que muitos conceitos que se desenvolveram desde o Iluminismo estão se perdendo rapidamente. Fico chocado com a ascensão do neoliberalismo no espectro político, se você olhar a forma como as pessoas e entidades estão dispostas a censurar informação sobre o lado oposto. Há cada vez menos pretensão de apelar para esses princípios estabelecidos. Há um neoliberalismo crescente que é muito perturbador.

Uma das minhas preocupações é que os princípios e valores das nossas sociedades e dos nossos sistemas de governo foram baseados na criação dos vieses da mídia impressa e, agora, a mídia impressa acabou. Há vários feixes de luz em nossos bolsos que determinam outros valores e princípios que nós aceitamos. Me parece que o que devemos fazer com urgência é procurar onde, em todo esse cenário digital, estão as coisas que fazem algo parecido com o que a mídia impressa costumava fazer. Ou seja, encorajando a reflexão e sustentando a nossa atenção.

Tilt: Estamos vendo debates sobre regulamentação das redes sociais no mundo todo, inclusive no Brasil. Qual a sua opinião sobre esse tema? É necessário regular as redes sociais? O que o Estado e as leis deveriam fazer para ajudar a sermos mais reflexivos e críticos sobre elas?

JW: Acho que depende da regulamentação. Não é possível não ter regulamentação sobre essas coisas. Mas é importante ter claro o que são essas plataformas, o que está sendo regulamentado e por que queremos essas regras. Por isso, voltando ao que elas são, repito: empresas de publicidade. Acho que rede social não é um termo útil.

Temos que começar com qual é o propósito da regulamentação. O que nós queremos que elas façam por nós? Dado que o debate público tem mudado e que as dinâmicas da sociedade também [por causa das plataformas], desde o jornalismo até a academia, o que nós queremos?

Temos que elevar os padrões para o tipo de mídia que existe, como elevamos para a literatura e a arte. Nós não temos o mesmo padrão para a tecnologia que temos para a arte e a literatura: queremos que não seja uma porcaria, que não piore as nossas vidas.

Tem tanta gente trabalhando nessas plataformas, mas não pensamos em como elas podem nos ajudar a elevar a nossa atenção para coisas que realmente importam para nós. Me parece que está faltando desenharmos um certo tipo de critério para as nossas tecnologias hoje. Isso conversa com o debate sobre regulamentação, é uma coisa além de cultural.

O grande problema é que perdemos muito tempo com coisas pequenas nesse debate, nos perguntando se certa pessoa deve ser banida ou não, se uma postagem deve ser derrubada ou não. Quando nós sabemos que a publicidade é o grande propósito dessas empresas. A plataforma em si está ali para afetar as pessoas, não está ali para informar ou comunicar, mas para agir sobre nós.

Por exemplo: acho que precisa ficar claro para o público [...] "o que a plataforma está ganhando com o meu uso dela?" Porque se começarmos por aí, podemos, de fato, conversar sobre o que elas realmente fazem e por quê. Se estamos falando de máquinas de persuasão, a primeira coisa a saber é o quanto ela é persuasiva. Aí poderemos falar sobre uma regulamentação mais eficiente.

Tilt: James, no documentário "O Dilema das Redes", na Netflix, um dos especialistas aconselha as pessoas a apagarem suas contas nas redes sociais. Você concorda? Ou você acha que existe uma forma mais saudável de conviver com essas ferramentas?

JW: Eu hesitaria em aconselhar todo mundo a fazer isso, mas não ficaria desapontado se todos fizéssemos. Mas o design das plataformas é muito poderoso.

Eu não tenho mais Facebook, mas uso o Twitter. Não acho que a ação individual não vale nada. Acho que as pessoas têm refletido sobre a importância das redes sociais em suas vidas; então, se considerarem válido apagar, provavelmente vai ser uma coisa boa.

Desde que eu comecei minha pesquisa, comecei a prestar atenção no meu uso. Tem algum benefício em abrir aquilo naquele momento? Não sei. Mas pesquisar os efeitos das plataformas na sociedade e nas pessoas me fez perder o interesse cada vez mais em tentar criar conteúdo e postagens. Mas é difícil, é uma escolha trágica não ter nenhuma alternativa. As redes sociais precisam ser isso: redes. Então seria bom existir algo sério, mas com um novo paradigma para ser usado.

Tilt: A pandemia piorou todo esse problema?

JW: Sim, de várias formas. Com os lockdowns, se nós não tivéssemos internet, não seria possível trabalhar à distância, receber entregas, todas essas coisas. E isso deu um boom para a economia da atenção, porque todo mundo teve que ficar em casa e passou a viver por meio de telas. As companhias cresceram muito com isso, os lucros bateram o teto.

Eu passei os últimos meses nos EUA e a raiva das pessoas está em todo lugar. Aumentou muito. A pandemia levou a Economia da Atenção ao extremo, é quase ridículo. Acho que o período de lockdown teve um efeito quase de hipnose. As pessoas ficaram sugestionáveis. Vai levar muito tempo pra isso se reverter.

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