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Após 49 anos, planta misteriosa da Amazônia é identificada por exame de DNA

"Mistério de Manú": planta descoberta em 1973 foi finalmente identificada graças a exame de DNA - Patricia Álvarez-Loayza/Cortesia
"Mistério de Manú": planta descoberta em 1973 foi finalmente identificada graças a exame de DNA Imagem: Patricia Álvarez-Loayza/Cortesia

Cláudio Gabriel

Colaboração para Tilt, do Rio de Janeiro

17/10/2021 16h22

Cientistas usaram um exame de DNA para finalmente revelar a identidade de uma misteriosa planta descoberta há quase 50 anos, pertinho daqui, na parte peruana da floresta Amazônica. Batizada de "Mistério de Manú" (em referência ao Parque Nacional de Manú, local em que foi encontrada), a planta tem parentesco direto com as Picramniaceae, um pequeno grupo de plantas com flores.

Essa história toda começa em 1973. Foi quando o cientista americano Robin Foster viu pela primeira vez essas plantas no Parque Nacional de Manú, quando era curador do Museu Field de História Natural de Chicago, nos EUA. A árvore, com 6 metros de altura, e possuindo pequenos frutos de cor laranja na forma de uma luminária, causou espanto logo de cara.

Ele, então, coletou as amostras de folhas e frutos e levou para o seu laboratório. Aí é que começou o grande mistério. Para todo e qualquer botânico que Foster perguntava, a dúvida era sempre a mesma: "o que é isso?". Ninguém sabia a que espécie aquela planta pertencia, e até por isso os cientistas não sabiam se era uma planta nova ou não.

Em entrevista ao site Phys.org, Foster disse que quando viu pela primeira vez a árvore, foi seu fruto —que parecia uma luminária chinesa alaranjada e suculenta quando madura com várias sementes— que mais chamou a sua atenção. "Normalmente eu consigo identificar a família das plantas logo de cara, mas com essa isso não aconteceu."

As análises e a descoberta

A "Mistério de Manú" ficou por anos em um herbário no Museu Field de História Natural de Chicago, arquivada com outras plantas secas. Uma amiga de Foster, que era botânica do mesmo local, Nancy Hensold, diz também em entrevista ao Phys.org que lembra do momento que Robin veio com a planta, logo quando ele começou a trabalhar no museu.

Segundo Hensold, algumas técnicas foram usadas para tentar descobrir que raio de espécie era aquela. A principal técnica usada foi a de tirar fotos do pólen e compará-las com arquivos de outros museus, universidades e laboratórios. Até tentaram ferver os ovários das flores. Mas nada disso deu resultados.

A história começou a mudar quando Hensold conseguiu uma bolsa de estudos, oferecida pelo Conselho de Mulheres do Museu Field, para estudar a planta.

Sua equipe teve a ideia de analisar o DNA da planta encontrada em 1973, mas como isso não funcionou, eles pediram a ajuda de Patricia Álvarez-Loayza, uma cientista que trabalha no Parque Nacional de Manú e passou anos monitorando a floresta lá, buscando novas espécimes da planta.

Quando Patricia finalmente encontrou mais uma espécime daquela planta misteriosa e a enviou para os pesquisadores em Chicago, o novo exame de DNA finalmente trouxe uma resposta. Seus parentes mais próximos eram da família Picramniaceae.

Os botânicos ficaram chocados, já que, visualmente, ela não se parecia em nada com outras plantas da mesma família. Hensold comenta que, após o choque inicial, "olhando mais de perto a estrutura das flores minúsculas, percebi que realmente tinha algumas semelhanças".

O grupo então buscou a ajuda do curador emérito do Jardim Botânico de Nova York, Wayt Thomas, que é especialista na família Picramniaceae. "Essas plantas não se pareciam com nada mais na família", contou o pesquisador ao Phys.org. "Então, decidi olhar com mais cuidado. Uma vez que observei com muito cuidado as flores minúsculas de 2-3 milímetros de comprimento, as coisas se encaixaram".

Após mais estudos confirmarem que a planta era realmente inédita, seu nome científico foi escolhido: Aenigmanu alvareziae. O primeiro nome significa "Mistério de Manú", e o segundo é uma homenagem a Patricia Álvarez-Loayza. Apesar da descoberta, é importante destacar que essa planta já é usada há muito tempo pelo povo indígena Machiguenga, da região do Peru.

Para o pesquisador que encontrou a planta originalmente, Robin Foster, essa descoberta pode ajudar na defesa da Floresta Amazônica.

"As plantas são pouco estudadas em geral. Principalmente as plantas das florestas tropicais. Mais ainda as plantas da Amazônia. Para entender as mudanças que estão ocorrendo nos trópicos, para proteger o que resta e para restaurar as áreas que foram destruídas, as plantas são a base de tudo o que lá vive e o mais importante para estudar. Uma única espécie rara pode não ser importante por si só para um ecossistema, mas, coletivamente, nos dizem o que está acontecendo lá", diz.