PUBLICIDADE
Topo

"É desagradável!": Mulheres podcasters lutam contra machismo e descrédito

Luiza Salles (1ª à dir.) e outras podcasters da Podsim - Arquivo pessoal
Luiza Salles (1ª à dir.) e outras podcasters da Podsim Imagem: Arquivo pessoal

Naiara Araújo

Colaboração para Tilt

04/01/2021 04h00

Sem tempo, irmão

  • Mulheres podcasters afirmam ser minoria em uma área dominada por homens
  • No Brasil, cada vez mais mulheres consomem podcast, segundo pesquisa da ABPod
  • Elas formaram coletivos para apoiar mulheres a ocupar espaço na podosfera
  • De coletivo, a Podsim se tornou uma produtora de podcasts só com mulheres

As mulheres já fazem parte há vários anos da podosfera brasileira produzindo conteúdo e contando histórias. Mas apesar de estarem nas mais variadas funções —como roteiristas, apresentadoras, técnicas de som, entrevistadoras e editoras de podcasts— reclamam que esse crescente mercado ainda dominado por homens torna-as vítimas de descrédito profissional, constrangimentos e assédio.

A representação feminina também se reflete no público. Uma pesquisa da ABPod (Associação Brasileira de Podcasts) mostrou que 27% desses ouvintes eram mulheres em 2019. Parece pouco, mas houve um crescimento de 9% em relação aos dados de 2018. Segundo o streaming Deezer; o consumo nacional de podcasts subiu 67% em 2019; e o Spotify já aponta o Brasil como o segundo maior produtor de podcasts do mundo.

Mas Ana Gabriela Nascimento, jornalista e apresentadora do podcast Ventre Nós, contou a Tilt que, mais de uma vez, foi tratada por técnicos e donos de estúdio como se não entendesse daquele universo, dos equipamentos ou mesmo do conteúdo que estava sendo gravado. "Não chega a ser um perrengue porque isso não influenciou no nosso produto final, mas é desagradável", explica.

Ira Croft, publicitária, podcaster, sócia e produtora do podcast Mundo Freak, conta que a mulher na podosfera sofre mais cobranças do que seus colegas do sexo masculino.

Aquilo que as mulheres produzem precisa ser infalível pois cada erro ou imperfeição é universalizado como uma característica feminina e não do indivíduo
Ira Croft, podcaster

Luiza Salles, uma das idealizadoras da produtora Podsim, diz que as mulheres ainda são minoria na produção desse tipo de mídia e que os podcasts mais conhecidos pelo público ainda são produzidos majoritariamente por homens. A presença masculina é mais acentuada em áreas técnicas.

"A falta de representatividade desestimula um pouco e inibe as mulheres de se colocarem tanto como apresentadoras quanto como engenheiras de som, produtoras musicais, editoras de áudio e outras funções desse mercado", explica.

Juntas somos mais fortes

Ira Croft, publicitária, podcaster, sócia e produtora no Mundo Freak - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Ira Croft, publicitária, podcaster, sócia e produtora no Mundo Freak
Imagem: Arquivo pessoal

Para dar visibilidade ao trabalho feminino na podosfera e estimular a entrada de mais mulheres nesse universo, essas profissionais de áudio têm fundado coletivos. Ira Croft, do Mundo Freak, criou em 2014 o Mulheres Podcasters, que surgiu de uma hashtag de mesmo nome com objetivo de fazer com que veteranas e novatas se conhecessem e trocassem ideia.

Hoje o coletivo reúne mais de 300 podcasters mulheres e quase 500 programas com mulheres na equipe. Para ela, os coletivos de mulheres criaram uma rede de apoio fundamental para o desenvolvimento profissional.

"Isso dá segurança a uma potencial produtora, para que ela perceba que não estará sozinha, e permite a troca de experiências com outras produtoras de diversas realidades. Além disso, fomenta o mercado de produção, por conhecermos mais facilmente e indicarmos mulheres que trabalham em todas as etapas de produção de conteúdo", explica.

A jornalista e podcaster Gabriela Mayer faz parte dessa rede. Ela produz e apresenta o Põe na Estante, podcast sobre literatura, e conta que essa troca de experiência dentro do coletivo tem feito muita diferença no seu dia a dia profissional.

"Hoje o grupo tem mulheres de todo o Brasil fazendo conteúdo de tudo quanto é tipo, então isso também me ajudou muito. Essa troca faz muita diferença. Nos ajudamos muito no grupo e essas iniciativas são superimportantes para dar visibilidade às mulheres produtoras de conteúdo", acredita.

Atualmente, a maioria dos podcasts que Gabriela escuta é feita por mulheres e também pensada para ouvintes deste gênero. "Eu me inspiro e aprendo muito com elas. É importante que tenham mulheres ocupando esses espaços", diz.

Na Podsim, só entra mulher podcaster

Fundada por Ana Gabriela Nascimento, Luiza Salles e outras colegas de profissão, a produtora Podsim oferece serviços de gravação, identidade sonora, edição, pesquisa, roteiro e distribuição de podcasts —e onde só entra mulher.

"São muitas etapas da criação de um podcast e cuidar de todas sozinha é um grande desafio. Por isso, nos organizamos em rede para ter suporte entre nossos pares, principalmente como rede de divulgação e oportunidades", explica Luiza.

Luiza conta que sente orgulho especialmente de dois projetos tocados pela Podsim: a produção do Podcast de Respeito, um projeto da Uber para conscientizar motoristas e usuários sobre temas como racismo, machismo e LGBTfobia; e a edição e distribuição do podcast do coletivo Não é Não!, que traz informações sobre corpo feminino, assédio e saúde mental para mulheres.

Fundada em março do ano passado, a Podsim tem sido apoiada pelo Instituto Oi Futuro, em um programa de apoio a negócios em fase inicial.

"A PodSim representa a força e o empoderamento proporcionados pela união feminina no mercado criativo. Além disso, elas têm uma preocupação de formar novas mulheres para atuarem numa mídia emergente [o podcast]", diz Carla Uller, gerente executiva de Educação, Inovação Social e Comunicação da entidade.

Os ventos são de mudança

Para Gabriela Mayer, essa tendência de crescimento do público feminino é fruto de uma maior participação das mulheres produzindo podcast, "não só na frente dos microfones, mas nos bastidores também, na edição e na produção."

Acho que isso muda bastante as narrativas que são colocadas ali [nos programas] e estimula mulheres a buscarem podcasts como uma alternativa para consumir histórias que as interessam
Gabriela Mayer, do podcast Põe na Estante

Ira Croft, do Mulheres Podcasters, se mostra feliz com o crescimento da mídia e que espera que isso se traduza em visibilidade e apoio financeiro aos profissionais que atuam na produção de podcasts.

"Que surjam novas oportunidades de trabalho para essas pessoas e que, claro, mulheres deixem de ser invisíveis neste processo de produção de conteúdo", deseja a publicitária.