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Sem dinheiro e com dados limitados, mapa de casos no Brasil é pouco útil

Mensagem no site "Juntos contra o Covid" pede mais financiamento para o projeto - Reprodução
Mensagem no site "Juntos contra o Covid" pede mais financiamento para o projeto Imagem: Reprodução

Felipe de Souza e Hygino Vasconcellos

Colaboração para Tilt, em Campinas e Porto Alegre

30/05/2020 04h00

A plataforma "Juntos contra o Covid" ganhou alguma popularidade nesta semana. Sua proposta de mapear o coronavírus no Brasil de maneira detalhada a partir dos dados fornecidos pelos próprios usuários. Mas, com limitações como pouca verba e amostragem pequena, é difícil saber o quanto esse material poderia servir para embasar medidas práticas de combate ao covid-19.

Além disso, também nesta semana o grande número de acessos derrubou o site por um período, o que gerou dúvidas sobre a viabilidade de manter o endereço no ar.

Desde a quinta-feira (28), a plataforma interrompeu a coleta de dados pelos questionários. Agora o site traz a seguinte mensagem:

Por motivos financeiros, pausamos a coleta de dados da plataforma. Iremos disponibilizar o mapa com as informações coletadas até o dia 28/05/2020 00:11:53. Infelizmente, atingimos nosso limite de servidores doados. Para ajudar na retomada da coleta de dados, considere doar qualquer quantia via PicPay para nosso projeto sem fins lucrativos

Ajuda para continuar

O site ficou fora do ar por duas horas na tarde de quarta-feira (27). Segundo Hajar, o "alto fluxo" de usuários após a repercussão na imprensa gerou a queda do site pelos administradores.

"Nas últimas 24 horas o site teve mais de 30 milhões de requisições. De 30 mil pessoas passou para 160 mil (que responderam ao questionário)", diz. Uma requisição ocorre quando o usuário aproxima o mapa, em busca de informações mais detalhadas, ou repete a operação em outro ponto ao dar o zoom.

A situação gerou um segundo problema: o esgotamento dos recursos financeiros para o site rodar. Lançado em março, a plataforma obteve US$ 3 mil em créditos da Amazon Web Service (AWS), que hospeda e dá suporte a sites. Parte do recurso já havia sido gasto nos outros meses e, em 24 horas, os US$ 1 mil restantes foram torrados.

Agora, os administradores da plataforma buscam financiamento para a continuidade do projeto. Além do PicPay, interessados podem fazer doações pela plataforma de financiamento Vakinha.

Como funciona(va)?

Até ocorrer o problema, o projeto fazia um mapeamento por níveis de risco à covid-19 (baixo, médio e alto) a partir do preenchimento de um questionário pelos próprios internautas.

  • No primeiro cenário estão pessoas sem histórico de contato com o vírus;
  • No intermediário estão aqueles com sintomas de infecção respiratória, mas que não viajaram para onde há transmissão comunitária e não tem certeza se entraram em contato com pessoas com suspeita do coronavírus;
  • Por último, pessoas que apresentam sintomas da infecção pelo coronavírus ou que já testaram positivo.

Ao entrar no site, o usuário se depara com duas afirmações: "Estou me sentindo bem" ou "Não estou me sentindo bem". Em qualquer das opções selecionadas, o internauta passa a responder um questionário com informações básicas:

  • Idade
  • Sexo
  • Email
  • Comorbidades
  • Se recebeu a vacina da gripe
  • Se realizou o teste para covid-19
  • Os sintomas que está sentindo naquele momento

Após sete dias, o usuário receberia um email para atualizar as informações. Pouco mais de 169 mil amostras foram coletadas.

A intenção do site seria analisar os microdados, como são chamadas essas informações pormenorizadas, e fazer relações. Por exemplo: qual a faixa etária com a maior prevalência do coronavírus? Quais doenças são mais comuns em pacientes positivados para coronavírus?

"Dá para verificar como cidades de tamanhos similares foram impactadas pelo coronavírus", disse Faissal Nemer Hajar, idealizador do projeto e estudante de medicina da UFPR (Universidade Federal do Paraná), em Curitiba, a Tilt pouco depois do problema com os servidores.

Mas, por enquanto, não há previsão de quando esses microdados serão disponibilizados.

Amostra por ocasião

Para o estatístico e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), João Henrique Ferreira Flores, a plataforma é interessante como uma fonte de informação, mas não pode ser usada como base de dados para, por exemplo, auxiliar na tomada de decisão para a reabertura do comércio nas cidades.

Por ser uma "amostra por ocasião", ou seja, que envolve a participação das pessoas, o professor alerta para os casos de subnotificação e ainda para respostas que não correspondam à realidade.

Me parece que as pessoas que estejam com doença vão tentar mascarar a doença, ou colocar sintomas mais brandos, ou não informar que estão com a doença
João Henrique Ferreira Flores, professor da UFGRS

Flores não vê riscos à privacidade para o usuário com a marcação no mapa, já que não será usado o nome do participante e a localização é aproximada. Para o professor, o ponto positivo do levantamento está justamente nos microdados, que ainda não foram divulgados.

"Daria para fazer uma análise por região ou do entorno dos casos positivados. Dá para fazer muitas análises de dados", diz.

Já o professor de economia na ESAMC, de Sorocaba (SP), Roque Pinto de Camargo Neto, afirma que a ideia é boa, que pode "dar um norte" sobre a situação da doença no país, mas que os dados disponibilizados não devem pautar políticas públicas de combate ao coronavirus.

"Os sintomas não garantem que os casos sejam positivos. Ainda mais que nesta época do ano os casos de Sars (Síndrome Respiratória Aguda Grave) e de outras gripes aumentam, o que dificulta saber apenas com sintomas. Se utilizassem esse sistema para monitorar os testados, daí seria excelente", afirma.