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Oxímetro: devemos comprar aparelho que pode ajudar a detectar covid grave?

Oxímetro de dedo é vendido em farmácia e mede oxigênio no sangue - Getty Images/iStockphoto
Oxímetro de dedo é vendido em farmácia e mede oxigênio no sangue Imagem: Getty Images/iStockphoto

Gabriel Francisco Ribeiro

De Tilt, em São Paulo

29/04/2020 04h00

Sem tempo, irmão

  • Oxímetro pode indicar casos graves de covid-19 com antecipação
  • Aparelho portátil vendido em farmácias mede nível de oxigênio no sangue
  • Oxímetro usa luz para interagir com células do sangue e detectar a saturação
  • Nem todos médicos recomendam a compra do dispositivo

O oxímetro, um aparelho que custa pouco mais de R$ 100 em farmácias, pode ser um aliado importante para detectar casos graves da covid-19. Ele mede a oxigenação do sangue e tem uso simples, mas médicos têm opiniões diferentes sobre a necessidade de todos terem um em casa.

Portátil, o oxímetro existe há anos. Ele é aquele aparelho que médicos colocam na ponta do dedo do paciente em triagens, exames de rotina ou internações. Mede a saturação (nível de oxigênio) do sangue, que tem a ver com a capacidade respiratória do paciente.

Em coluna no The New York Times, o médico norte-americano Richard Levitan defende que as pessoas com sintomas de covid-19 sejam medidas com frequência pelo oxímetro para antecipar casos graves.

Exemplos reais disso existem. Em seu Facebook, Carolina Corrêa Bastos, dona do Bar do Jiquitaia, em São Paulo, conta que levou seu marido ao hospital após usar o oxímetro e detectar saturação e temperatura anormais. Ele ficou internado, mas se recuperou da doença.

"Como covid é uma doença respiratória, ela afeta o oxigênio no sangue, e por isso as pessoas têm falta de ar. Paciente entra no hospital, com falta de ar e tossindo. Vemos a saturação no oxímetro. Se o valor está abaixo do normal, nos preocupa", diz Luiz Falcão, professor da faculdade de medicina da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Devemos todos comprar?

Na internet, é possível achar o oxímetro por cerca de R$ 120. Devemos todos —ou ao menos as pessoas diagnosticadas com coronavírus— comprá-lo? A resposta, para alguns médicos ouvidos por Tilt, é não. Afinal, não basta ter o instrumento, mas saber interpretar seus resultados.

"Nesse contexto de pandemia é difícil recomendar que todo mundo tenha um em casa. As pessoas não vão saber exatamente o que fazer com o equipamento", afirma Monica Corso Pereira, professora de pneumologia da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp (Universidade de Campinas).

Para Falcão, o dispositivo é um equipamento médico que deve ser operado por quem entende o que faz. "Enfisema destrói o pulmão, e nem todo fumante tem oxímetro em casa. Tem que saber interpretar o resultado", aponta.

Já Edimilson Migowski, coordenador de Relações Externas da Reitoria e professor de medicina da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), discorda dos colegas. Para ele, o oxímetro pode ser tão útil quanto medir temperatura ou pressão em casa.

"Acho bom as pessoas terem em casa. São parâmetros que ajudam na tomada de decisão. Sou médico, posso ligar para a pessoa e ter isso como base. Temos que nos adaptar à medicina do momento, mantendo a distância. E o oxímetro é uma ajuda a mais", opina.

Simples e não-invasivo

O oxímetro não apresenta tanto segredo: normalmente basta a pessoa encaixar no dedo como se fosse um dedal, apertar um botão e esperar os resultados aparecerem no visor. Hoje em dia, alguns smartwatches contam com medidores parecidos, ainda não aprovados totalmente por médicos.

O visor costuma mostrar medidas como saturação do sangue e batimentos cardíacos. Para a covid-19 e o sistema respiratório do paciente, o dado que importa é o da saturação do sangue, que vem com uma porcentagem que varia entre 0% e 100%.

O equipamento usa uma tecnologia de raios infravermelhos. Quando envolve o dedo, um lado emite luz e o outro absorve essa luz. A hemoglobina combinada com oxigênio (oxi-hemoglobina) tem uma cor, e a não combinada tem outra cor. Usando um mecanismo de absorção de raio de luz, o oxímetro detecta a quantidade de oxi-hemoglobina e a hemoglobina sem oxigênio.

Um cálculo do aparelho determina quanto foi absorvido de um dos comprimentos e traz o resultado da saturação do sangue em porcentagem. Mas existem alguns aspectos que podem interferir nos resultados:

  • Um esmalte mais forte, na cor vermelha
  • Peles com pigmentação mais escura
  • Muita luminosidade no ambiente
  • É indicado, que a mão esteja quente e relaxada, além dos dedos estarem sem feridas

Os números de saturação considerados "normais" pelos médicos são de 95% ou mais. Abaixo disso, é necessário investigar o que pode ter causado a anormalidade, tanto por meio de outros exames quanto levando em conta o histórico do paciente.

"Normal é 95% ou mais, mas não dá para dar essa recomendação sem saber se a pessoa que está com o oxímetro tem doença pulmonar crônica, se a leitura foi feita de forma adequada. Não é um equipamento para ser usado por leigos sem nenhuma supervisão", conta Corso.

Como o coronavírus afeta o oxigênio no sangue

Um dos sintomas mais graves do coronavírus, levando a internações e mortes, é a insuficiência respiratória. Nele, o oxímetro pode detectar uma alteração com antecedência, antes do caso se tornar muito grave. Isso tem a ver com a nossa capacidade de captar oxigênio do ambiente.

"Imagina que você tem uma espinha e está inflamada. Você passa a mão e dói, percebe que não é uma pele normal. Quando tem uma doença no pulmão, ele inflama, há líquido e menos troca de oxigênio com o sangue", compara Falcão. O mesmo ocorre com outras doenças respiratórias, como a pneumonia.

A insuficiência respiratória afeta um grupo muito pequeno de pacientes com coronavírus. Em sua imensa maioria são assintomáticos ou com sintomas tão leves que nem percebem ter a doença, segundo estudos.

Os casos mais graves, apesar de serem uma minoria pequena, são os que têm lotado hospitais com a necessidade de cuidados especiais como ventilação pulmonar. Diminuir o número de internações é uma das principais maneiras de controlar o coronavírus. Saber a gravidade com antecedência ajuda na recuperação do paciente.

"Quanto mais rápido o diagnóstico, mais rápido o tratamento. Quanto mais precoce você detecta, maior a chance de sucesso", sintetiza Falcão.