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Como um app gerou o caos logo no início da corrida presidencial dos EUA

Eleitores democratas aguardando o resultado das primárias em Iowa, o primeiro Estado na corrida para eleger o candidato democrata à Presidência dos EUA. - Xinhua/Li Muzi
Eleitores democratas aguardando o resultado das primárias em Iowa, o primeiro Estado na corrida para eleger o candidato democrata à Presidência dos EUA. Imagem: Xinhua/Li Muzi

Janaina Garcia

Colaboração para Tilt

05/02/2020 11h12

Sem tempo, irmão

  • Convenção do Partido Democrata no Estado de Iowa aconteceu na segunda, mas resultado atrasou 24h.
  • Estado é o 1º a fazer prévias para escolher nome democrata preferido à sucessão na Casa Branca.
  • Iowa usou app para substituir votação tradicional, mas líderes enfrentaram sérios problemas técnicos.

Se a pressa é inimiga da perfeição, ela foi sinônimo de "fiasco" e "desastre" nos preparativos para a eleição presidencial da maior economia do mundo. As expressões foram usadas à exaustão pela imprensa dos Estados Unidos nesta terça-feira (4) para definir a caótica convenção do Partido Democrata no Estado de Iowa.

Primeiro a realizar prévias para a escolha do candidato para concorrer ao cargo de presidente dos EUA, o Estado resolveu usar um aplicativo que substituiria o cáucus, o sistema de votação tradicional. Não deu certo.

A ideia é que os líderes do partido usassem a plataforma para registrar e transmitir os resultados. Isso permitiria aos democratas que executam o processo informassem o resultado da votação em cada um dos 1.678 distritos de Iowa ao Estado para tabulação. Não foi bem assim que aconteceu. Com muitas dificuldades técnicas, o resultado da prévia, que devia sair ainda na segunda-feira (3), só chegou quase 24 horas depois e de forma parcial.

App feito "no susto"

O aplicativo foi desenvolvido por uma startup de tecnologia chamada Shadow. Segundo o jornal The New York Times, ela fez tudo às pressas em surreais dois meses — tempo exíguo ante a complexidade do processo eleitoral norte-americano.

Além disso, a ferramenta não foi sequer testada em âmbito estadual. Nem a divisão de segurança cibernética do Departamento de Segurança Interna dos Democratas, segundo seu próprio diretor, Christopher C. Krebs, conseguiu avaliar o aplicativo.

Sem essa análise, o que ocorreu é que a ferramenta da Shadow acabou sendo "testada" pela primeira vez justamente na segunda-feira, dia da prévia. Diversos delegados só conseguiram baixar o app horas antes do início da reunião. Alguns nem isso, já que ele nem aparecia nas lojas virtuais de Apple e Google. Para contornar o problema, linhas de telefone foram abertas, mas ficaram congestionadas na maior parte do tempo.

Segurança obscura

Tudo isso ocorreu porque a direção do partido temia ataques de hackers. Na semana passada, autoridades dos Democratas afirmaram que manteriam confidenciais as especificações do aplicativo para garantir que ele ficasse a salvo de invasores. "Estamos confiantes nos sistemas de segurança que implantamos", afirmou o presidente do Partido Democrata de Iowa, Troy Price, ao jornal Wall Street Journal.

O receio era que ocorressem interferência nas eleições. A pouca transparência, porém, foi questionada por especialistas em segurança cibernética. Para eles, a obscuridade não é necessariamente sinônimo de segurança.

Para resolver a contagem de votos, os democratas teve de improvisar:

Encontramos inconsistências no relatório de três conjuntos de resultados. Além de os sistemas de tecnologia serem usados para tabular os resultados, também estamos usando fotos dos resultados e uma trilha de papel para validar que todos os resultados correspondem e garantir confiança e precisão nos números que reportamos (...) Isso é simplesmente um problema de relatório. O aplicativo não caiu e isso não é um hack ou uma invasão
Mandy McClure, diretora de comunicações do Partido Democrata

O partido informou pelo Twitter na manhã de terça que o problema foi identificado, corrigido e não afetou a precisão geral dos dados. Os Democratas não entraram em pormenores sobre o porquê de o aplicativo ter relatado somente dados parciais, tampouco se tal problema teria sido detectado com exames anteriores.

Quem está por trás do app?

Diante de todo essa confusão, não é de se espantar se você estiver se perguntar quem está por trás da Shadow. A Shadow é composta por ex-membros da campanha presidencial de Hillary Clinton em 2016, mostrou Uma reportagem do jornal Los Angeles Times. A mesma startup, segundo dados do FEC (do inglês, a "Comissão Federal de Eleições"), recebeu US$ 42,5 mil da campanha de Pete Buttigieg em julho de 2019. O dinheiro foi para a título para "direitos e assinaturas de software". Buttigieg foi o candidato democrata a vencer as primárias em Iowa.

O senador Mark R. Warner, vice-presidente do Comitê Selecionado de Inteligência do Senado e co-presidente do Caucus de Segurança Cibernética da Casa, descartou que o "fiasco" do app da Shadow tenha sido "resultado de atividades cibernéticas maliciosas". Ele também pontuou que o caos foi usado por agentes de Rússia e China para espalhar desinformação.

App tem futuro incerto

Ainda que a startup tenha pedido de desculpas pela lambança, o aplicativo deve estar com os dias contados.

A previsão era que a plataforma também seria usada na prévia de Nevada, em 22 de fevereiro. Diante da ação conturbada em Iowa, William McCurdy II, presidente do Partido Democrata no Estado, afirmou que "o que aconteceu no caucus de Iowa na noite passada não acontecerá em Nevada em 22 de fevereiro".

Não empregaremos o mesmo aplicativo ou fornecedor usado em Iowa. Já desenvolvemos uma série de backups e sistemas de relatórios redundantes e atualmente estamos avaliando o melhor caminho a seguir.
William McCurdy II, presidente do Partido Democrata em Nevada

Futuro da votação eletrônica nos EUA

Se no Brasil a votação é por urna eletrônica, outras formas tecnológicas são adotadas em outros lugares do mundo. Países como Estônia, Colômbia e Dinamarca recorrem a métodos que vão de voto enviado pela internet a votação via apps com blockchain, a tecnologia por trás da moeda virtual bitcoin.

O desempenho pífio do app na prévia em Iowa acende um alerta não somente entre os democratas norte-americanos, mas também entre os entusiastas de processos eleitorais eletrônicos. Não há consenso entre especialistas de esses métodos trazem mais segurança ao processo eleitoral.

Há quem veja nas mudanças poder para minimizar as suspeitas de fraude, já que a apuração pode ser feita em temp. Há também quem entenda que votar online não acabe com problemas existentes, além de a transparência poder ser usada para coagir eleitores a apoiar um determinado candidato.

Como a sucessão presidencial norte-americana é a mais acompanhada em todo o mundo, as explicações e a solução para o que ocorreu em Iowa são tão importantes.

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