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Nem Ursal nem #elenão: esvaziada de ideias, eleição 2018 foi fraca de memes

Meme que usa bonecos da Barbie e do Ken satiriza críticas da elite no Brasil - Reprodução/Twitter
Meme que usa bonecos da Barbie e do Ken satiriza críticas da elite no Brasil Imagem: Reprodução/Twitter

Helton Simões Gomes

Do UOL, em São Paulo

06/11/2018 04h00

Eles estavam lá. Tirando sarro da fictícia União das Repúblicas Socialistas da América Latina (Ursal) ou associando os bonecos Barbie e Ken a críticas de problemas do Brasil. Os memes deram as caras na internet durante a eleição de 2018, mas não dominaram a discussão.

E isso não ocorreu justamente porque a discussão sobre as propostas entre os candidatos foi tão rala que os internautas ficaram sem matéria-prima para criar as gozações. Essa análise é feita por Viktor Chagas, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e curador do Museu de Memes.

Em entrevista ao UOL Tecnologia, ele conta que foi cumprida em partes a expectativa de que os meios digitais seriam essenciais durante o pleito e os memes brilhariam. As campanhas eleitorais usaram - e abusaram - de ferramentas como WhatsApp, mas não deram muito combustível para a criação de memes.

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Algumas delas até tentaram, como a de Cabo Daciolo e Henrique Meirelles. Outras usaram o formato de meme para espalhar propaganda política. Mas o que atrapalhou mesmo, diz Chagas, foi a falta de discussão sobre as propostas. A ausência dos debates após a facada em Jair Bolsonaro (PSL), líder das pesquisas e que se elegeu presidente, contribuiu para isso.

Houve muito conteúdo viral, uma rede de disseminação de fake news com grande apelo em plataformas opacas, como o WhatsApp, mas pouco espaço para a criatividade e a sátira política

Ainda que os memes tivessem tido um papel preponderante durante a campanha, isso não significaria que a troca de ideias tivesse sido nivelada por baixo. Para Chagas, ainda que simplifiquem ideias complexas, os memes podem ser o primeiro contato com a política de muitos cidadãos com acesso escasso de informação.

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O drible da tecnologia

"Se ajuda ou atrapalha [na discussão política], o problema não está nos memes, mas na capacidade de discernimento do público. Como se trata de público cujo acesso à informação em profundidade é razoavelmente baixo, precisamos reforçar o letramento político e social, e não limitar o acesso dessas pessoas a conteúdos como memes."

O problema, diz Chagas, é ficar só nos memes. Veja abaixo os principais trechos da conversa:

UOL: Que força possui o meme sobre outro tipo de conteúdo criado na internet?

Viktor Chagas: A característica mais essencial dos memes é sua condição de reapropriação iterada, isto é: são criados e ressignificados a partir de outro conteúdo com o qual mantêm relação e ao qual fazem referência. Isso faz serem reconhecidos como parte de um conjunto.

Dessa forma, eles produzem sentidos estratégicos ou conformam repertórios de ação coletiva. Muitas vezes não conseguimos compreender um meme isoladamente: um único emoji de vômito na página de um político, um só relato pessoal íntimo associado a uma hashtag como #meuamigosecreto, #primeiroassédio ou #elenão. Como os memes são um jogo intertextual, muitas vezes não alcançamos os significados superpostos pelos grupos em que circulam. Mas há sempre um sentido e, muitas vezes, não é tão raso e simplório como estamos acostumados a pensar.

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UOL - A linguagem rápida e de fácil assimilação dos memes  é ótima para tirar sarro. Mas quando o assunto é política, ajuda ou atrapalha?

Chagas: Depende da perspectiva com a qual encaramos esse fenômeno. Se falamos de pessoas que têm acesso à informação política por outros meios, que já tem certo grau de letramento político e discernimento sobre o processo democrático, os memes fatalmente soam como experiência superficial da política.

Se falamos de um público que começa agora a ganhar acesso ao debate público, o conteúdo político dos memes, mesmo que raso, é alguma informação.

Se ajuda ou atrapalha, o problema não está nos memes, mas na capacidade de discernimento do público. Como se trata de público cujo acesso à informação em profundidade é razoavelmente baixo, precisamos reforçar o letramento político e social, e não limitar o acesso dessas pessoas a conteúdos como memes.

UOL - Qual a forma de linguagem que mais representa a internet? Memes ou emojis?

Chagas: Eu não costumo dividir essas linguagens. Não há uma linguagem que prevaleça sobre as demais. Não posso dizer, por exemplo, que os memes são uma nova forma de literatura, ou que eles vieram para substituir as charges. Tudo isso é reducionista demais diante de um fenômeno tão amplo. Dito isso, emojis e emoticons, em certa medida, podem ser lidos como memes, já que cada cultura ou cada grupo social define os significados deles conforme suas próprias referências. Para ficarmos em um exemplo prático atual: o emoji vem sendo apropriado por apoiadores de Bolsonaro. Trata-se de uma conotação apologética e, em muitos sentidos, ofensiva.

UOL - Neste ano, a campanha eleitoral mirou plataformas digitais, lares dos memes. Candidatos como Cabo Daciolo e Henrique Meirelles apostaram, espontaneamente ou não, nessa cultura. Por tudo isso, esta foi a eleição do meme?

Chagas: Não. Eu não resumiria as Eleições 2018 como as eleições dos memes. Em primeiro lugar, os memes políticos começaram a ganhar evidência nas eleições brasileiras antes. Em 2014, já tivemos campanhas, como as de Eduardo Jorge, que investiram no humor usando memes. Nas eleições municipais de 2016, diversas candidaturas experimentaram com a linguagem dos memes em suas peças publicitárias.

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Em segundo lugar: durante o período eleitoral de 2018, a quantidade de mensagens políticas no Twitter, Instagram e YouTube cresceu exponencialmente. Mas estávamos diante de um cenário muito curioso: a eleição foi pouco discutida. O principal candidato deu pouca chance ao público de escrutiná-lo com o humor.

Houve muito conteúdo viral, uma rede de disseminação de fake news com grande apelo em plataformas opacas, como o WhatsApp, mas pouco espaço para a criatividade e a sátira política.

Ainda que tenham surgido piadas de minoritários, como Daciolo e Meirelles, o processo eleitoral foi marcado por extrema opacidade: os principais candidatos saíram pouco ou nada do script, houve excesso de desinformação contaminando o eleitorado e pouco espaço para que os memes exercessem de fato um papel relevante, como exerceram em 2014 e durante todo o processo de impeachment contra Dilma e o período inicial de mandato de Temer.

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Entenda

UOL - A política brasileira "sequestrou" os memes de seu habitat natural?

Chagas: Se você está dizendo que os memes saíram da internet e ganharam as ruas, é possível dizer que a política ajudou a popularizar os memes. No entanto, o inverso também é verdadeiro: os memes, em grande medida, ajudaram a popularizar a política. O aspecto mais evidente disso reside na percepção de que, hoje, o debate político se tornou pervasivo, está em todo lugar. Infelizmente, não do modo como gostaríamos. Ele é cercado por falácias e uma visão acrítica sobre o processo democrático. Também há um exagero no ceticismo e no populismo conservador que, muitas vezes, mitificam personalidades individuais e contribuem para uma mistificação das massas.

UOL - Está em debate a ideia de que as notícias falsas desestabilizam a democracia por propagarem desinformação. Dada a alta capacidade de se espalharem e a frequente falta de acurácia na informação difundida, os memes também podem abalar a democracia?

Chagas: Antes de mais nada, é importante reconhecermos as diferenças entre memes e virais. Memes são conteúdos que surgem de modo espontâneo, ao passo que os virais são "plantados" para serem difundidos amplamente. Ainda que memes e virais guardem semelhanças, dada a forma como se propagam, os virais não passam por uma reapropriação e ressignificação como os memes. Só são difundidos de forma idêntica para uma audiência em larga escala. Virais existem desde que a cultura de massas se estabeleceu.

Dito isso, a fórmula simplificada é: toda fake news é um viral, nem todo viral é uma fake news. Algumas fake news se apropriam do formato de um meme: imagens com legenda, hashtags, circulação rápida e individualizada pelas mídias sociais, montagens etc. Mas isso é só emulação da linguagem dos memes. Assim como a linguagem jornalística é muitas vezes emulada para dar o tom de uma fake News é verdadeira.

Há fake news disseminadas com base na incorporação de mecanismos presentes nos memes. O problema, contudo, não são os memes nem as fake News -- elas não são um fenômeno novo no ambiente político ou jornalístico. O problema, mais uma vez, está na capacidade de leitura do cidadão médio para discernir que é uma fake news.

O debate político, por muito tempo, esteve confinado a uma pequena elite, distante do sujeito que hoje se aproxima da discussão dessas pautas. Precisamos fazer com que este sujeito tenha acesso à informação política. Memes são um primeiro passo, mas é importante que esse sujeito receba também informação política em profundidade.

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