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Com botão para emergências, app promete agir contra violência LGBTI no país

App Dandarah na Play Store - Reprodução
App Dandarah na Play Store Imagem: Reprodução

Matheus Pichonelli

Colaboração para Tilt

15/01/2020 04h00

Sem tempo, irmão

  • Travesti Dandara dos Santos inspira app que deve trazer segurança a gays e trans
  • Versão beta já está no Android, e deve chegar em breve também para iOS
  • App contará com serviços de geolocalização de locais seguros para a população LGBTI
  • "Botão de pânico" vai notificar cinco pessoas cadastradas em caso de situação de risco

A travesti Dandara dos Santos, assassinada em 2017 em Fortaleza (CE), dará nome a um aplicativo que ajudará a coletar dados sobre segurança de pessoas gays e trans. O caso de Dandara ganhou repercussão após um vídeo do crime ser jogado nas redes sociais e a tornou símbolo da violência contra pessoas LGBTI no Brasil.

Idealizado pelo Projeto Resistência Arco-Íris, da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca, da Fiocruz, em parceria com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) e a Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos, o app Dandarah será lançado no próximo sábado (18), em um evento no Rio de Janeiro.

O Dandarah servirá como um ecossistema digital para facilitar que pessoas lésbicas, gays, bissexuais, travestis, mulheres transexuais, homens trans e intersexos se informem, denunciem, registrem e enfrentem a violência. Uma versão beta já está disponível para Android, e deve chegar em breve também para celulares da Apple.

O app contará com serviços de geolocalização de locais seguros para a população LGBTI. Esses dados serão produzidos pelos próprios usuários, que contarão também com um "botão de pânico" para notificar cinco pessoas cadastradas em caso de situação de risco —tudo de forma gratuita.

Idealizadora do projeto, a especialista em saúde digital Angélica Baptista, uma das pesquisadoras do projeto Resistência Arco-Íris, conta que a ideia é gerar uma "big data" [grande nuvem de dados] que possa ser analisada por especialistas dos movimentos sociais. Segundo ela, os dados sobre essa violência ainda são difusos e escassos no Brasil, o que impede a elaboração de políticas públicas específicas para pessoas LGBTI.

Pelo aplicativo, o usuário poderá cadastrar cinco pessoas de seu círculo de amizades, que receberão os alertas de pânico do amigo por email ou mensagem instantânea.

Ao ser acionado, o botão direciona o usuário também para os números de emergência da polícia e dos bombeiros.

"A pessoa que estiver no trabalho à noite e sofrer alguma agressão verbal, ou mesmo violência física, vai poder acionar esse dispositivo. Do outro lado, cinco pessoas receberão mensagens curtas, com a geolocalização da vítima e uma pequena mensagem, do tipo 'estou em perigo'", explica a pesquisadora.

Esta possibilidade será um primeiro passo para relatar casos extremos no país onde mais se mata pessoas trans no mundo. Os dados ficarão guardados nos servidores da Fiocruz.

Travesti cearense Dandara dos Santos, morta em 2017 - Arquivo pessoal/BBC
Travesti cearense Dandara dos Santos, morta em 2017
Imagem: Arquivo pessoal/BBC

Trata-se, segundo ela, de um ponto de partida também para a educação permanente relacionada à comunidade LGBT, com discussões e disseminação sobre direitos. "As políticas públicas relacionadas à saúde precisam ser baseadas em evidências, para que tenham força de convencimento combatendo justamente a invisibilidade dessas pessoas", argumenta Baptista.

O app ainda está em fase de revisão, após diversas experiências em lugares específicos, e estudos de ferramentas similares em países como a Rússia e a Polônia. "A gente selecionou mais de 30 apps com esse intuito. A ideia é que possa ser usado em todo o país", diz a idealizadora.

Uma das questões surgidas durante as discussões foi a exclusão digital em um país de dimensões continentais como o Brasil. Uma das sugestões recebidas é que o app pudesse ser usado mesmo que o usuário não tivesse crédito no celular ou acesso a rede wi-fi.

Os testes foram aplicados para cerca de 130 pessoas em Aracaju, Uberlândia, Brasília, Belém, Niterói, Salvador, Francisco Morato e Rio de janeiro. "Cada um colocou as suas contribuições, inclusive sobre design e layout. Como era um app de alcance nacional, a gente queria garantir que todas as regiões pudessem se familiarizar com ele", afirma Keila Sympson, presidente da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA).

Um dos diferenciais da ferramenta, segundo ela, é justamente poder acessar e compreender informações que não são disponibilizadas em outros grupos de apoio em plataformas como o Facebook e WhatsApp —principalmente neste último, onde as mensagens são criptografadas.

"Com esses dados, poderemos nortear as políticas de combate à violência que hoje ainda é mascarada, entender de onde e como está vindo. Com essa dinâmica, essas violências podem ser mais bem quantificadas e qualificadas em suas formas verbal, física e letal", diz a ativista.

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