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Como nova tecnologia analisa e identifica até danos de raios em avião

Após tempestade, aviões ficam com avarias; nova tecnologia consegue identificar danos - Getty Images/iStockphoto
Após tempestade, aviões ficam com avarias; nova tecnologia consegue identificar danos Imagem: Getty Images/iStockphoto

Gabriel Francisco Ribeiro

De Tilt. em São Paulo

20/12/2019 04h00

Sem tempo, irmão

  • Drones agora fazem análise e identificam danos exteriores em aviões
  • Tecnologia é usada por empresas como EasyJet, KLM, AirFrance e, agora, Latam
  • Eles contam com sensores, lasers e câmeras para revisar as aeronaves
  • Equipamentos ainda conseguem comparar imagens para notar avarias
  • Segundo empresa, drones foram até 70% mais eficientes do que revisão de humanos

Muitas vezes os drones são acusados de ser inimigos dos aviões. Afinal, há vários casos de aeroportos tendo a atividade interrompida por causa dessas aeronaves não tripuladas. Mas um uso recente tem transformado esse vilão em herói. Os drones agora vêm sendo usados para ajudar na manutenção dos aviões, podendo até analisar e identificar falhas causadas por raios.

O novo processo tem se popularizado nos últimos anos, sendo usado por companhias como EasyJet, KLM, AirFrance e Lufthansa. No Brasil, a Latam começou a testar a tecnologia há quatro meses e diz ter percebido um enorme ganho de produtividade na manutenção da sua frota.

Esses tipos de drones contam com sistemas, sensores e softwares próprios, além de tecnologias autônomas que fazem a checagem externa dos aviões.

Legal, mas ainda há problemas: o modelo de revisão dos aviões com essa tecnologia ainda não está referendado por fabricantes e autoridades da aviação. Por isso, só pode ser usado em testes, com supervisão secundária humana.

Tudo sem humanos

Diferentes empresas já oferecem este serviço para companhias aéreas. A lowcost europeia EasyJet foi uma das pioneiras a adotar o sistema da desenvolvedora britânica de drones Blue Bear. No início, era para analisar aviões com suspeita de terem sido atingidos por raios. Existem ainda aéreas parceiras da DJI e da francesa Donecle —esta última oferece a tecnologia usada atualmente pela Latam.

Todos os sistemas funcionam de maneira parecida, apesar de cada companhia ter uma tecnologia específica para seus drones. A Latam, por exemplo, usa a tecnologia na manutenção preventiva que os aviões passam a cada dois anos no hangar de São Carlos (SP). Os drones conseguem, sozinhos, fazer análises que antes demandavam mecânicos com guindastes, escadas, docas e afins.

Na foto, avião da Latam passam por revisão feita com drone - Divulgação - Divulgação
Na foto, avião da Latam passa por revisão feita com drone (ao centro, abaixo da porta)
Imagem: Divulgação

Nós falamos para o drone que modelo de avião é e ele levanta voo automaticamente. Ele conta com um modelo 3D do avião no computador com a configuração e sabe por onde tem que passar. Ele divide o avião em quatro setores e inicia o processo, todo autônomo. Ele decola e então faz o mapeamento total do avião
Alexandre Peronti, diretor de manutenção da Latam

São diversas as tecnologias presentes nos drones. Eles contam com sensores e lasers que os guiam e mantêm os equipamentos a um metro da aeronave, por segurança. O truque não é um GPS, mas sim uma comunicação entre drones, computadores e aviões.

Os modelos apresentados desde a parceria da EasyJet são compostos por rotores e desenhados apenas para uso em espaços internos como hangares, algo que as fabricantes dos drones inclusive já querem mudar para permitir revisões ao ar livre.

Identificando até danos de raios

Mas como ter certeza que os drones farão uma fiscalização decente da aeronave, garantindo que os danos sejam reconhecidos? Bom, em primeiro lugar o equipamento vai tirando uma foto por segundo da aeronave. Mas ele vai além: conta em seu software com modelos de como seria o avião em perfeito estado e consegue comparar imagens para fazer alertas sobre possíveis danos.

"Ele fotografa a fuselagem da aeronave, manda as imagens para o computador e depois processa toda essa informação com inteligência artificial. Ele sabe o que é um defeito. Ele consegue identificar qualquer tipo de dano. No Brasil, por exemplo, temos a questão de colisão com pássaros. Ele vê e entende a deformação da aeronave, que pode ser um pequeno amassadinho", aponta Peronti.

E como é isso de achar as "feridas" causadas por raios? "Quando o avião é atingido por um raio, deixa marcas como se fossem pontos pretos. O software é treinado a achar isso para procurar por variações no brilho da aeronave. Serve para raios, amassados, problemas na pintura", explica o diretor de manutenção da Latam.

Entre os danos que os drones conseguem identificar, estão:

  • Danos por colisão de pássaros
  • Danos ocasionados por chuva de granizo
  • Danos ocasionados por quedas de raio na aeronave
  • Problemas na pintura de aeronaves

No total, o processo feito pela Latam gera um banco com 1.500 fotos. Esse, por sinal, é um ponto que a empresa destaca no sistema, já que é possível criar um banco de dados sobre todas as aeronaves que pode ser acessado a qualquer momento, com a aeronave no hangar ou não. Além disso, as fotos são imagens de alta resolução, o que pode revelar detalhes não percebíveis a olho nu pela manutenção humana.

Muito mais rápido

Em comum, todas as companhias dizem que a revisão dos aviões feita por drones ofereceu maior eficácia do que com humanos. No caso da EasyJet, os mecânicos levavam seis horas para fazer a inspeção manual após uma suspeita de avião atingido por raios. Com os drones, o tempo caiu para duas horas.

No caso da Latam, as inspeções gerais humanas dos aviões no hangar de São Carlos (SP) levavam no total dez horas. Já a inspeção feita com auxílio de drones ocorre em três horas.

Isso é ótimo também para os passageiros, pois faz com que as aeronaves possam ser liberadas com mais rapidez para voltar aos aeroportos —nessas inspeções programadas, os aviões são tirados de circulação para ficarem alguns dias tendo uma revisão geral preventiva.

A queda no tempo de revisão dos drones e o próprio uso dos equipamentos não significa, a princípio, que trabalhadores perderão seus empregos. No caso da Latam, os mecânicos que antes faziam a manutenção manual foram treinados para operar os drones.

Estes mecânicos fazem uma segunda análise em todas as 1.500 fotos para confirmar os danos diagnosticados pelas aeronaves não tripuladas, além de procurar por outros que podem ter passado batido pela nova tecnologia.

Ainda precisa regulamentar

Por enquanto, os drones ainda não estão fazendo o trabalho 100% sozinhos. A Latam está testando a nova tecnologia há quatro meses, mas todas as aeronaves revisadas pelos drones também passam pela revisão antiga feita por humanos. Isso ocorre porque os equipamentos ainda não estão formalmente aprovados por fabricantes como a Airbus e pela Autoridade Europeia de Aviação.

"Nessa fase de testes, cumprimos a inspeção no modelo tradicional e usamos o drone para comparar os resultados. A autoridade aeronáutica e a Airbus precisam de dados para comprovar que o método é igual ou superior. Demonstramos que o método é superior e a partir daí vão emitir e divulgar nos manuais da aeronave formalmente", aponta o diretor da Latam.

A previsão da empresa é de que no primeiro trimestre de 2020 as autoridades já poderão oficializar a nova técnica.

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