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Comida do futuro? Como a tecnologia pode levar insetos para sua alimentação

Insetos podem substituir carnes e fazer parte da sua mesa no futuro - Getty Images/iStockphoto
Insetos podem substituir carnes e fazer parte da sua mesa no futuro Imagem: Getty Images/iStockphoto

Gabriel Francisco Ribeiro

De Tilt, em São Paulo

28/11/2019 04h00

Sem tempo, irmão

  • Insetos são vistos como uma das "comidas do futuro" para combater a fome
  • Tilt entrevistou entomologista Arnold van Huis, um dos principais defensores da dieta
  • Nojo e receio das pessoas freiam indústria de insetos como alimentos
  • Novas tecnologias e um marketing maior são usados para convencer adoção da dieta
  • Alimentos podem substituir carnes, sendo nutritivos e mais sustentáveis

Imagine um inseto na sua comida. Ficou com nojinho? Talvez não deveria. A simples ideia de comer insetos pode fazer muitas pessoas virarem a cara, mas a alimentação desses bichos ganha cada vez mais adeptos. Se você não gosta, a solução para isso pode ser aproveitar tecnologias para que você, no fim, não perceba que está comendo inseto —algo até semelhante com o que fazem com o "hambúrguer do futuro".

Um dos maiores defensores da causa é o entomologista Arnold van Huis, professor da holandesa Universidade de Wageningen, com livros publicados a respeito e várias palestras sobre o assunto. Em entrevista ao Tilt, ele defende ver essa alimentação como o "futuro" da humanidade.

Huis está no Brasil para participar do Wired Festival, que acontece nesta sexta-feira (29) no Rio de Janeiro. Ele já escreveu dois livros a respeito da alimentação de insetos —sendo um exclusivamente de receitas. Perguntado diretamente se todos nós vamos comer insetos em algum dia no futuro, ele não titubeia.

"Absolutamente sim. As pessoas não conhecem o inseto como comida, então precisam ser familiarizadas com isso e está acontecendo gradualmente. Vejo isso na Europa. Eu entrevistei o Kofi Annan (ex-secretário-geral da ONU) para nosso livro de receitas e ele disse: 'é uma questão de educar o público'", afirma o professor.

Comida do futuro?

A alimentação de insetos é apontada inclusive pela FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura) como uma das medidas para evitar a fome em massa da população. Além disso, Huis cita que os insetos são o futuro especialmente por questões ambientais —demandam menos água e causam menos impacto em sua criação. Mas como tornar esse futuro uma realidade?

Uma das soluções é o uso de tecnologias para "disfarçar" o inseto. A intenção é que sejam aplicadas técnicas de processamento e seleção que façam com que os animais não pareçam mais... insetos. Para especialistas da área, o que mais causa repúdio na alimentação desses bichos é a sensação de que insetos não deveriam ser comidos e estariam ligados mais à sujeira.

Arnold Van Huis, na foto comendo refeição com insetos na preparação - Michael Kooren/Reuters
Arnold Van Huis, na foto comendo refeição com insetos na preparação
Imagem: Michael Kooren/Reuters

"Quando as proteínas e as gorduras são isoladas, eles não se assemelham mais a insetos e é isso que muitas pessoas querem. Você pode também influenciar o sabor e o gosto dando aos insetos uma dieta especial. A tecnologia de incorporar insetos em hambúrgueres, schnitzels, almôndegas, pão e macarrão também torna mais atrativo para as pessoas", aponta Huis.

Existem hambúrgueres já feitos com 17% de insetos em sua composição —não confunda com a lenda do "hambúrguer de minhoca" do McDonald's, ok? O tipo de tempero utilizado nos insetos também é outro fator influenciador, segundo o professor. Há. ainda, inúmeras tecnologias já usadas para separar diferentes partes dos bichinhos.

"Primeiro tem que separar o substrato da larva do inseto e isso pode ser feito por peneiração. A tecnologia mais simples é secar e moer e colocá-los em itens alimentares. Mas dá para extrair proteínas, gorduras e quitina. Toda a gordura pode ser tirada por pressão e existem várias tecnologias para isolar proteínas e quitina", explica.

Em seu mais recente relatório sobre alimentação de insetos, Huis cita que esse tipo de dieta nunca atraiu tanta atenção como agora e já está presente em barras de energia e outros alimentos como hambúrgueres —a ideia é que eles possam substituir a carne e que sejam colocados, em alguma porcentagem, em produtos familiares ao grande público.

Além disso, o número de estudos publicados sobre insetos na alimentação cresceu exponencialmente principalmente após 2016 e novas startups sobre o assunto surgiram, o que aumenta a inovação, de acordo com o professor.

Acabando com o preconceito

Grande parte da resistência contra insetos, para o professor, é simplesmente preconceito. Ele chama isso de neofobia - medo de comer algo novo. Isso, para ele, é paradoxal, já que insetos foram parte da alimentação dos primeiros humanos há milhões de anos, de acordo com estudos recentes. É tudo, então, uma questão de "marketing" —alguns restaurantes finos, como o D.O.M., contam com pratos bem-sucedidos com insetos.

"É muita psicologia: dar um nome interessante a eles, dar informações sobre sustentabilidade ao público, fazer as pessoas experimentarem, usar modelos como cozinheiros, políticos ou estrelas do cinema. É um efeito psicológico o motivo das pessoas considerarem nojento. Após experimentarem, a segunda vez não é mais um problema", aponta.

O próprio Huis conta já ter comido mais de 20 insetos diferentes entre as duas mil espécies conhecidas que podem ser comidas. E tem suas preferências.

"Todos têm um sabor diferente. Eu gosto muito de grilos e gafanhotos, cupins também são agradáveis. Mas tudo depende da maneira como eles são preparados. Provei a mesma espécie de gafanhoto em diferentes preparações e às vezes não fica saborosa. É igual frango: pode preparar de diferente maneiras", conta.

Entre os benefícios de insetos, estão, segundo Huis, a menor emissão de gases estufa na produção, menor amônia e a necessidade menor de água e terra do que outras alimentações. O valor nutricional e benefícios da saúde são outros fatores apontados pelo professor —efeito antioxidante e, em algumas espécies, probiótico.

É claro que insetos não serão uma solução única e vão compor a sua mesa de jantar juntamente a outros alimentos - Huis cita a carne cultivada, microproteínas, macroalgas, microalgas e análogos à carne como tofu e outros. Tudo poderia substituir a carne bovina, que virou vilã recentemente pela emissão de gases do efeito estufa na produção.

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