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Em transformação, "Google chinês" quer vencer o Google mais uma vez

Principal serviço de buscas da China, Baidu tem tecnologia registrada antes do Google - Getty Images
Principal serviço de buscas da China, Baidu tem tecnologia registrada antes do Google Imagem: Getty Images

Felipe Zmoginski

Colaboração para o UOL Tecnologia

12/08/2018 04h00

O "Google chinês" é a forma mais comum pela qual é tratado o Baidu, a quarta maior companhia de internet do mundo em audiência, de acordo com dados da consultoria Alexa. Só que a ideia de que se trata de uma simples cópia de um gigante ocidental é profundamente injusta. 

Primeiramente, a empresa desenvolveu sua tecnologia de buscas antes do Google. Além disso, a companhia passa por uma transformação gigante, de olho em inteligência artificial, que mostra força própria. A confiança é tanta que diante das notícias que o Google quer retornar à China, o fundador da companhia afirmou que vai encarar o rival ocidental e "vencer de novo".

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O começo

O início dessa história tem jeito de filminho da "Sessão da Tarde". Nascido em uma família pobre em Shaanxi, Li criou do quarto emprestado na universidade um império hoje avaliado em mais de US$ 70 bilhões. Só que ao contrário do que acontecem com os gênios da informática do país, Li não estudou na prestigiosa universidade de exatas Tsinghua. Ao contrário, ele frequentou a Pequim University, conhecida pela excelência em cursos de humanas, como letras, literatura e filosofia.

Isso o ajudou a desenvolver um bom inglês, o que lhe permitiu ir à Nova York continuar os estudos e trabalhar no departamento de TI de uma empresa que prestava serviços ao "Wall Street Journal". Nos EUA, Li Yanhong fez o que muitos chineses fazem ao relacionar-se com ocidentais: adotou um nome em inglês, Robin. Lá, ele criou seu primeiro produto bem-sucedido, o RankDex, um algoritmo que permitiria aos poucos leitores digitais do WSJ nos anos 1990 a pesquisar por notícias no website do jornal.

Apesar das ofertas de emprego em Nova York, Robin preferiu regressar a Pequim com a patente da Hyperlink Analysis, tecnologia inovadora que varria a internet e registrava quais sites apontam para outros sites (ou seja, que possuem “hyperlinks”). Os endereços mais citados tendem a ser os mais relevantes.

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Robin Li, fundador do Baidu: poesia para batizar a companhia
Imagem: AP - 5,ago.2005

Antes do Google

Um dos temas que mais incomoda os "baiduers", como são chamados os funcionários do Baidu, é de que sua empresa é uma cópia de tecnologias do Google. Na verdade, registros do Instituto Internacional de Propriedade Intelectual demonstram que a patente do Hyperlink Analysis é um ano mais velha que a do Page Rank, mítico algoritmo criado por Larry Page e que daria origem ao Google em 1998.

De volta à Pequim em 99, Robin e o ex-colega de classe Eric Xu, iniciaram a construção na web chinesa de um "crawler", nome técnico para um servidor que varre, lê e organizava sites de acordo com palavras-chave. Ali estava o embrião do Baidu, empresa que a dupla registraria no ano seguinte. 

Mais uma vez, a influência dos colegas de humanas aparecia de novo. Baidu é uma referência a um poema chinês do século 13 que fala sobre a busca incerta pelo amor. “Bai” significa centena e “du” vezes. Até hoje, as salas de reunião na sede da companhia em Pequim têm nomes de poemas chineses.

Nos anos 2000, o boom digital chinês lançou na web centenas de milhões de internautas que variavam entre serviços do Yahoo!, Baidu, Sohoo, Tencent e Google para fazer suas buscas. Em meio à feroz competição, a velocidade e a precisão dos resultados do Baidu o tornaram o líder local em buscas.

O rival americano Google reproduziu na China as mesmas dificuldades que encontrou no Japão e na Rússia: o Page Rank parece não ser tão efetivo para buscas em outros alfabetos que não o romano. Assim, o Baidu se sobrepôs aos rivais, concentrou 80% do mercado e credenciou-se para um IPO em Nova York. Em 2005, Robin tornou-se um magnata multibilionário com fortuna pessoal avaliada em mais de US$ 18 bilhões.

Google e o governo chinês 

No início de 2010, executivos do Google na China passaram a fazer acusações veladas contra autoridades do governo chinês e acabou movendo seus servidores para Hong Kong. A consequência imediata foi o bloqueio, por parte das autoridades de Pequim, de todos os serviços do Google no país. 

A retirada do Google beneficiou o Baidu em termos de faturamento e participação de mercado, mas o feriu do ponto de vista de relações públicas. Até hoje a empresa precisa lidar com a desconfiança de que foi ela quem pressionou o governo chinês para expulsar seu concorrente do país.

O “episódio Google” deixou na empresa também uma lição da qual nenhum empreendedor digital chinês se esquece: não enfrente o governo. Desde então, o Baidu é acusado de ter se tornado mais passivo que o necessário, removendo qualquer resultado que critique Pequim ou o Partido Comunista Chinês. 

baidu versus google - Getty Images - Getty Images
Baidu enviou recado ao Google: "venceremos de novo"
Imagem: Getty Images

Nos EUA, o Baidu foi processado por organizações de ativistas por “fomentar a censura e restringir a liberdade” de seus usuários. Em discurso ensaiado, qualquer executivo da empresa questionado sobre o tema tem a resposta na ponta da língua: nós apenas cumprimos as leis dos países onde atuamos.

O verdadeiro rival

Só que o arqui-inimigo do Baidu nunca foi o Google. O grande golpe nos negócios veio de um aparentemente inofensivo fabricante de software chamado Qihoo. Na China, o Qihoo 360 é o navegador líder de mercado, incrivelmente mais popular que Internet Explorer, Chrome ou Firefox. A partir de sua predominância no PC dos usuários, o Qihoo passou a forçar a troca do mecanismo de busca escolhido pelos usuários por seu próprio serviço. Em poucos meses, isso tirou mais de 10% do mercado do Baidu.

As tensões entre as empresas foram parar nos tribunais, e há relatos na imprensa chinesa de troca de empurrões e xingamentos entre os fundadores de Baidu e Qihoo - a relação tem ares de ódio pessoal.

Transformação

O avanço de empresas de áreas distintas às buscas, como Alibaba (comércio eletrônico) e Tencent (redes sociais), fez o Baidu perder audiência e receita.

Chama-se de “busca vertical” o novo comportamento do usuário chinês. Se ele quer comprar um produto, pesquisa diretamente no Alibaba. Se quer ler uma notícia, pesquisa em agregadores específicos, como o Toutiao. Se precisa de uma recomendação de restaurante, faz a pergunta no WeChat, da Tencent. A passagem pelo Baidu perdeu importância

Num primeiro momento, a resposta da companhia foi um atrapalhado plano de investimentos em serviços chamados de “online to offline”, ou "O2O". Por exemplo, venda de ingressos para cinema e de entrega de refeições. Deu errado.

A competição feroz e o uso de subsídios agressivos por concorrentes fez o Baidu acumular prejuízos na divisão O2O, o que levou a um processo de desinvestimento e venda de ativos neste setor. 

Entre as grandes companhias de internet da China, o Baidu foi certamente o que mais ousou em esforços de internacionalização, abrindo escritórios no Oriente Médio, Tailândia, Índia, Indonésia, Japão e Brasil. Em quase todos, fracassou, inclusive no Brasil, onde realizou aquisições importantes, como o do serviço Peixe Urbano, e construiu importante audiência com seu portfólio de apps. Nunca gerou a receita esperada pela matriz.

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Diferentes veículos com a tecnologia de direção automática do Baidu
Imagem: Li Xin/Xinhua

Inteligência artificial 

Após o fracasso em O2O, o Baidu parece ter acertado em sua segunda tentativa de criar uma nova área de negócios: a divisão de inteligência artificial - o que ajudou na redução de sua presença internacional, o que inclui o Brasil

O primeiro produto comercial bem-sucedido foi a solução de reconhecimento de voz e rosto, que permite a faculdades e prédios comerciais a autorizar ou negar o acesso de pessoas. Na sede da empresa, não se usa mais crachá.

Porém, o produto mais promissor da divisão de inteligência artificial é o “Projeto Apollo”, plataforma que permite transformar carros e ônibus em veículos autônomos. Em vez de fabricar seus próprios veículos, como faz a Tesla, o Baidu optou por criar apenas a solução de tecnologia: sensores, radares e computadores nos quais são programadas a rota podem ser instalados em praticamente qualquer veículo. 

A adesão de parceiros foi avassaladora. Ford, Hyundai e os maiores fabricantes chineses, BYD e Dong Feng Motors testam a solução do Baidu. Até ônibus o fazem: já há pequenas rotas, em Pequim, levando funcionários da empresa em micro-ônibus sem motoristas.

O otimismo é tanto que, nos bastidores da empresa, há quem diga que quando escrever sua biografia como “grande empresário de inteligência artificial”, Robin poderá dizer: tudo começo com uma empresa de buscas.