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Como uma cópia chinesa do ICQ deu origem a um império maior que o Facebook

Sede da Tencent, gigante chinesa que é maior que o Facebook  - Getty Images
Sede da Tencent, gigante chinesa que é maior que o Facebook Imagem: Getty Images

Felipe Zmoginski

Colaboração para o UOL Tecnologia

05/08/2018 04h00

Imagine se o Facebook decidisse competir com a Amazon no comércio eletrônico e com o Google nas buscas online. Em um segundo passo, também se tornasse uma das principais produtoras de games do mundo, com direito a um estúdio de cinema. E, por fim, criasse um serviço de pagamentos móveis e também uma firma de investimentos com tentáculos em áreas como robótica, mídia e comércio eletrônico.

A descrição grandiosa acima está longe de ser a realidade do Facebook, mas é exatamente a definição da Tencent, a maior rede social da China e um oligopólio digital com valor de mercado de US$ 560 bilhões, o que a coloca à frente, por exemplo, do próprio Facebook.

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Curioso é que a semente disso tudo foi um programinha de bate-papo bem conhecido dos brasileiros: o ICQ. Em 1998, Ma Huateng (também conhecido como Ponny Ma), fundador e até hoje executivo-chefe da Tencent, deixou um modesto emprego na empresa de telefonia China Motion, onde ganhava o equivalente a US$ 176 por mês, para lançar seu próprio programa de chat.

Ele mal disfarçou a origem do software, nomeando-o de OICQ. A icônica flor verde e vermelha do ICQ deu lugar a um pinguim estilizado - ainda hoje símbolo maior da Tencent, exposto até no topo do prédio de 45 andares que abriga a firma em Shenzhen.

Evidentemente, Huateng acabou processado e foi forçado a mudar o nome de seu comunicador. Mas isso não impediu o agigantamento da empresa. Fundos públicos chineses, que tinham interesse em "fomentar empresas nacionais de tecnologia", sustentaram a companhia - por três anos, foram prejuízos seguidos.

Mais do que financiamento, o governo de Pequim impediu a competição de companhias estrangeiras no país, criando uma reserva de mercado para que Tencent e mais uma centena de outros nomes florescessem no início dos anos 2000.

Centro da vida chinesa

O boom econômico chinês no início da década passada favoreceu o crescimento de empresas digitais do país. Entre 2001, ano em que a Tencent registrou seu primeiro lucro anual, e o atual 2018, o número de usuários de smartphone no país saltou de um patamar próximo a zero para 700 milhões.

Apoiada na base de usuários do fenômeno QQ (novo nome do QICQ), a Tencent lançou em 2004 sua abertura de capital. Em poucos anos, o programa deu origem ao WeChat (chamado pelos chineses de "Weixin"), que hoje permeia a vida chinesa em seus mais variados níveis.

Com o WeChat, os chineses podem:

  • substituir o "RG chinês"
  • chamar táxis
  • pedir entrega de comida
  • fazer compras online
  • agendar horários em salões de beleza
  • procurar namorado (a)
  • divorciar-se
  • encontrar emprego
  • agendar exames médicos
  • enviar cartões postais físicos
  • monitorar entregas dos correios
  • pagar contas de água e luz
  • fazer transferências monetárias
  • agendar pedidos de vistos
  • checar dados da carteira de motorista
  • reservar mesa de restaurante
  • fazer check in em hotéis
  • mandar roupas para a lavanderia

Parte dessas tarefas pode ser feita com a voz por meio da assistente virtual WeSecretary. A tecnologia é similar à da Siri, do Google Assistente e da Alexa. Mas tem um diferencial: tudo, incluindo a ferramenta de pagamentos, está embutido na mesma plataforma. Isso tem potencial maior de gerar receita em relação aos concorrentes ocidentais - para agendar um corte de cabelo, por exemplo, a taxa é de 10%.

Ponny Man - Anthony Wallace/AFP  - Anthony Wallace/AFP
Ponny Ma deixou um emprego onde ganhava US$ 176 para fundar a Tencent
Imagem: Anthony Wallace/AFP

Inspiração do Facebook

Em estudo publicado pela consultoria Golden Sachs, analistas do banco atribuem parte do sucesso da Tencent à visão de negócios "invertida" de Ponny Ma. Em vez de colocar suas fichas em produtos que pudessem gerar receita imediatamente, o chefão preferiu colocar esforços na construção de uma "plataforma de lançamento de produtos" - no caso, o WeChat.

A partir do aplicativo, Ma passou a fomentar toda a sorte de novos serviços digitais, como games, pagamentos móveis e serviço de publicidade digital. Só que, ao contrário do Facebook, o WeChat nunca é inundado por anúncios. Cada usuário pode visualizar uma única publicidade por dia em sua linha do tempo. Não à toa, o Facebook obtém 97% de seu faturamento com anúncios, percentual que cai para 17% na Tencent.

A estratégia da companhia é lucrar com a oferta de outros serviços, como buscas, comércio eletrônico, inteligência artificial e, claro, games, muitos games.

Para executivos da empresa, o modelo de "plataforma de distribuição" é a principal "inspiração" do Facebook em sua estratégia mobile. Em julho de 2014, a empresa americana passou a impedir seus usuários de conversar pelo app da rede social, forçando-os a instalarem o Messenger.

Atualmente, o serviço de Mark Zuckerberg já se assemelha ao WeChat: permite a instalação de miniapps de terceiros, disponibiliza jogos e oferece até serviços financeiros em alguns países, como a França e Estados Unidos.

Jogos mortais

A onipresença da Tencent em serviços digitais chineses ganhou tentáculos especialmente longos no segmento de jogos eletrônicos. A gigante abocanhou nomes brilhantes como Riot Games (desenvolvedora de League of Legends) e Supercell (criadora de Clash of Clans) - além de ser investidora da Epic Games (dona de Fortnite) e da Activision Blizzard (criadora dos jogos Overwatch e Destiny).

A divisão de games responde por quase 15% dos US$ 11,7 bilhões que a Tencent faturou no primeiro trimestre deste ano, com lucro líquido de US$ 3,8 bilhões. A força em jogos é tamanha que a companhia decidiu criar um estúdio e uma produtora de cinema ao estilo da Pixar, a Tencent Pictures.

O sucesso da divisão de games foi também o responsável pela principal crise vivida pela companhia, quando jovens chineses começaram a morrer após maratonas de 48 horas jogando, sem pausas para dormir ou comer. Isso teria levado muitos garotos a sofrer picos de pressão e paradas cardíacas.

Os episódios tornaram-se um desafio de relações públicas e jogaram a opinião pública e o governo chinês contra a companhia. A saída para a crise foi limitar o uso contínuo de jogos, especialmente para menores de 18 anos, limitando o acesso a suas contas a algumas horas por dia

Além disso, passaram a financiar dezenas de "clínicas de reabilitação", que oferecem esportes ao ar livre, alimentação saudável e um curioso "treinamento de habilidades sociais", no qual os "dependentes digitais" são incentivados a se expor publicamente em aulas de teatro ou conversas com desconhecidos.

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Imagem de "Warcraft", filme produzido pela Tencent Pictures
Imagem: Reprodução

Erros do passado projetam novo futuro

Há uma piada corrente entre os chineses de que as empresas de seu país têm uma grande sorte e um grande azar. A sorte é que elas desfrutam do maior mercado doméstico do mundo. O azar é de que dispõem do maior mercado doméstico do mundo. A brincadeira ajuda a explicar a fortaleza e a fragilidade dos gigantes chineses.

As oportunidades internas são tão grandes que (quase) todo o esforço de crescimento é voltado para o mercado interno, sem a necessidade econômica de preparar-se para competir fora da China. A própria natureza protecionista do mercado digital chinês, onde não operam gigantes como Google e Facebook, mantém as corporações locais em uma relativa zona de conforto.

Em 2013, a Tencent iniciou um esforço para sair de suas fronteiras e quebrar o estigma de que as companhias chinesas de internet não conseguem ser relevantes fora de seu país. Com um plano ambicioso, contratou Neymar e Messi para divulgarem o WeChat. O barulho foi intenso e a base de usuários do WeChat saltou de quase zero para mais de 200 milhões de usuários fora da China.

Só que poucas destas instalações tornaram-se recorrentes. Relatórios internos apontaram que muitas pessoas instalaram o app por curiosidade, mas rapidamente o abandonaram, mesmo quando gostavam de seus recursos. A explicação é simples: ninguém fica em um aplicativo social se seus amigos não estão lá.

A força do WhatsApp e do Facebook Messenger nos países ocidentais fez o multimilionário plano de marketing da Tencent fracassar. No Brasil, o escritório da companhia foi rapidamente fechado para reduzir prejuízos. Mais uma vez, uma companhia chinesa de tecnologia fracassava ao tentar tornar-se relevante fora da proteção da muralha chinesa.

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WeChat já permeia a vida dos chineses sob os mais diferentes aspectos
Imagem: Anthony Wallace/AFP

Inteligência artificial e meios de pagamento

Quase nenhum executivo, com exceção das raras aparições de Ponny Ma, dá entrevista e a companhia mantém seus planos futuros sob forte sigilo. Apesar disso, é quase consensual entre os analistas da Tencent na bolsa de Hong Kong que a empresa aposta seu futuro no desenvolvimento de soluções de inteligência artificial, especialmente em comércio eletrônico

O avanço de serviços de linguagem natural poderá permitir que a WeSecretary seja usada para controlar o orçamento doméstico, as luzes de casa ou para encomendar ao supermercado as compras do mês.

E os gastos feitos na plataforma já forçam o serviço de pagamento da Tencent para fora da China. Os "novos mercados" a aceitar o WePay são aqueles em que há maior fluxo de turistas chineses, o que inclui restaurantes no Japão, hotéis na Tailândia e lojas de grife em Paris.

Embora ninguém na companhia admita, o sucesso atingido pelo pagamento móvel na China pode ser a nova "ponta-de-lança" da companhia para desbravar novos mercados, o que inclui os EUA, Europa, América Latina e África. A rede social parece ter encontrado justamente no seu braço "fintech" o caminho que precisava para a segunda incursão além da área de influência chinesa na Ásia.

Para a empresa que nasceu sob a má fama de copiar um programa, não deixa de ser irônico que as inovações da Tencent influenciem estratégias de gigantes como o Facebook, ou ensinem um caminho para Google e Amazon gerarem receita com inteligência artificial.