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Thiago Gonçalves

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Mistério: por que buraco negro no centro de nossa galáxia é tão irregular?

Imagem combina observações do buraco negro no centro da Via Láctea em raios-X obtidos com o telescópio espacial Swift - Nasa/ Swift/ N. Degenaar
Imagem combina observações do buraco negro no centro da Via Láctea em raios-X obtidos com o telescópio espacial Swift Imagem: Nasa/ Swift/ N. Degenaar
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Thiago Signorini Gonçalves

Thiago Signorini Gonçalves é doutor em astrofísica pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia, professor do Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e coordenador de comunicação da Sociedade Astronômica Brasileira. Utilizando os maiores telescópios da Terra e do espaço, estuda a formação e evolução de galáxias, desde o Big Bang até os dias atuais. Apaixonado por ciência, tenta levar os encantos do Universo ao público como divulgador científico.

13/01/2022 04h00

Como podemos explicar os surtos de emissão de raios-X observados no buraco negro no centro de nossa galáxia? Uma equipe de cientistas, liderada por Alexis Andrés, tentou buscar explicações, mas verificou que a resposta é mais complexa que o esperado.

Sabemos que no centro de nossa galáxia, a Via Láctea, existe um buraco negro supermassivo — denominado de forma geral de Sagitário A* — com mais de 4 milhões de vezes a massa do Sol. Essa descoberta foi até premiada com o prêmio Nobel de Física em 2020.

No entanto, observamos também que o buraco negro ocasionalmente emite grandes quantidades de raios-X. Essas emissões estão associadas com a enorme energia encontrada pelo material ao redor de Sagitário A*, mas sua origem física exata ainda é desconhecida.

Os cientistas tentaram então analisar os dados observacionais do telescópio espacial Swift, que é capaz de detectar os raios-X, obtidos ao longo de 15 anos. Nathalie Degenaar, da Universidade de Amsterdã (orientadora de Andrés durante seus estudos de verão na Holanda) mantém o projeto com o telescópio há muito tempo, garantindo sua permanência com o objetivo de criar um banco de dados de longo prazo.

Com tantos dados, a equipe imaginava encontrar alguma periodicidade nos surtos. No entanto, mesmo utilizando técnicas estatísticas avançadas, os cientistas não puderam determinar qualquer regularidade nas emissões. Os surtos foram mais fortes entre 2006 e 2008, e novamente após 2012, com um período mais ameno entre 2008 e 2012.

A prevista periodicidade poderia favorecer um ou outro modelo de produção de raios-X, como o buraco negro engolindo material que passasse nas proximidades, ou a interação do buraco negro com nuvens de gás magnetizado. No entanto, a irregularidade observada não permite descartar nenhum modelo, ainda. O mistério permanece.

Dados catalogados e a democratização da ciência

Um detalhe interessante do projeto é que Andrés é salvadorenho, um país com pouca tradição científica. Ele teve a oportunidade de trabalhar em Amsterdã por um verão, e agora cursa o mestrado na Universidade Nacional Autônoma do México.

Os dados utilizados por ele estão disponíveis publicamente, o que favorece a democratização do estudo do universo. Afinal, países como Estados Unidos, França e Alemanha podem investir em novos instrumentos que são responsáveis por grande parte dos avanços científicos na astronomia.

Por outro lado, a construção de grandes bases de dados permite novas descobertas por pesquisadores de países com menor capacidade de investimento — como El Salvador e, em uma escala diferente, o Brasil.

Andrés diz que quer se tornar um cientista profissional e voltar ao seu país para fazer crescer o campo. Tomara que os planos deem certo!