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Thiago Gonçalves

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Mundos habitáveis e mais: o que a astronomia planeja para a próxima década

Ilustração representando as áreas prioritárias apontadas pelo Levantamento Decenal - NASEM
Ilustração representando as áreas prioritárias apontadas pelo Levantamento Decenal Imagem: NASEM
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Thiago Signorini Gonçalves

Thiago Signorini Gonçalves é doutor em astrofísica pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia, professor do Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e coordenador de comunicação da Sociedade Astronômica Brasileira. Utilizando os maiores telescópios da Terra e do espaço, estuda a formação e evolução de galáxias, desde o Big Bang até os dias atuais. Apaixonado por ciência, tenta levar os encantos do Universo ao público como divulgador científico.

11/11/2021 04h00

A Academia Nacional de Ciências, Engenharia e Medicina norte-americana anunciou na última quinta-feira, dia 4, o Levantamento Decenal para Astronomia e Astrofísica. É um plano ambicioso, feito a cada 10 anos, a partir de uma chamada aberta de propostas com participação de toda a comunidade de pesquisadores em astronomia no país.

O objetivo principal é traçar os caminhos da pesquisa astronômica para a próxima década, unindo os interesses dos cientistas, os avanços tecnológicos alcançados e o planejamento financeiro das agências públicas.

O relatório apontou três tópicos de pesquisa prioritários para a próxima década. O primeiro é o "Caminho para Mundos Habitáveis", investigando a formação de estrelas e planetas que as orbitam. Essa não é surpresa para ninguém, tendo em vista o impacto e visibilidade das descobertas de exoplanetas nos últimos anos.

Em seguida, "Os Catalisadores de Crescimento Galáctico", investigando as origens de galáxias e grandes estruturas no universo desde o Big Bang. Com o telescópio espacial James Webb e outras estruturas, sem dúvida esperamos entender melhor nos próximos anos como as primeiras estrelas e as primeiras galáxias se formaram, há mais de 13 bilhões de anos.

Por fim, o relatório menciona as "Novas Janelas para o Universo Dinâmico". Essa parte destaca os avanços recentes nas descobertas sobre o que chamamos de eventos transientes, ou seja, sinais astrofísicos que variam em um curto espaço de tempo, como supernovas e explosões de raios gama. O foco principal aqui é sem dúvida a descoberta de ondas gravitacionais, prêmio Nobel de 2019, que nos permitem estudar o universo de novas maneiras.

Unindo os tópicos, o comitê listou alguns investimentos prioritários para levar a pesquisa adiante.

Um dos principais projetos deveria ser um programa continuado de grandes observatórios espaciais, começando com um grande telescópio espacial para observações de luz visível, ultravioleta e infravermelho. Algo semelhante ao que o telescópio espacial Hubble já faz, mas com um instrumento maior e mais potente — lembrando que o James Webb é capaz de observar exclusivamente a radiação infravermelha.

Outro programa fundamental seria a participação federal nos dois projetos de telescópios gigantes sendo desenvolvidos atualmente: o Telescópio de Magalhães Gigante (no Chile, que também conta com participação do Estado de São Paulo) e o Telescópio de Trinta Metros, a ser instalado provavelmente no Havaí.

Pensando a longo prazo

O que mais me impressionou no processo foi a visão a longo prazo, com participação ativa de toda a comunidade.

Primeiro, porque nada disso seria possível sem as propostas redigidas pelos próprios cientistas; foram mais de 500 documentos de todas as diferentes áreas de astronomia, e o relatório é uma compilação dessa pluralidade de ideias.

Além disso, os agentes públicos participam ativamente do processo. A Nasa e a Fundação Nacional da Ciência, as principais agências de financiamento, determinam valores plausíveis de verbas para a década, limitando o que é factível e o que seria inviável.

Dessa forma, o relatório não é apenas uma lista de desejos, mas sim um plano bem orquestrado de uma agenda científica. Não apenas nos próximos dez anos, mas pensando até em 2040 e além.

No Brasil não temos processos semelhantes, e o planejamento científico depende desse ou daquele governo.

Se quisermos realizar descobertas de impacto, precisamos abandonar esse modelo imediatista, e trabalhar para que a ciência seja plano de Estado, e não proposta de governo.

Porque ciência não se faz em 4 anos, e sim em 40.