PUBLICIDADE
Topo

Thiago Gonçalves

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Molécula em sistema planetário jovem pode dar nova pista da origem da vida

Ilustração mostrando o material e os corpos em formação em disco protoplanetário ao redor de estrela jovem - Nasa/ Fuse/ Lynette Cook
Ilustração mostrando o material e os corpos em formação em disco protoplanetário ao redor de estrela jovem Imagem: Nasa/ Fuse/ Lynette Cook
Thiago Signorini Gonçalves

Thiago Signorini Gonçalves é doutor em astrofísica pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia, professor do Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e coordenador de comunicação da Sociedade Astronômica Brasileira. Utilizando os maiores telescópios da Terra e do espaço, estuda a formação e evolução de galáxias, desde o Big Bang até os dias atuais. Apaixonado por ciência, tenta levar os encantos do Universo ao público como divulgador científico.

13/05/2021 04h00

Ah, a origem da vida. Aquela pergunta eterna, e que une os apaixonados por biologia e astronomia. Cientistas estão sempre buscando novas pistas para nos ajudar a entender como a vida na Terra pode ter começado, e uma equipe de cientistas europeus pode ter dado um passo importante recentemente.

Alice Booth (Universidade de Leiden) e seus colaboradores anunciaram a descoberta da molécula de metanol, uma das moléculas orgânicas mais simples, no disco protoplanetário ao redor da estrela HD100546. O estudo tem implicações importantes para a compreensão do comportamento dessas moléculas na formação de sistemas planetários.

Sabemos que estrelas se formam a partir de grandes nuvens de gás, com temperaturas baixíssimas (cerca de 250 graus Celsius negativos). Porções desse gás se contraem devido à atração gravitacional, gerando a estrela no centro e um disco de gás e poeira ao seu redor.

HD 100546 é uma estrela a cerca de 320 anos-luz de distância da Terra, na constelação da Mosca. O sistema nasceu há apenas 10 milhões de anos e por isso ainda apresenta a estrutura de disco característica de sistemas planetários jovens.

O disco, com o material que dará origem a planetas, asteroides e cometas, pode ser algumas dezenas de graus mais quente que a nuvem, originalmente. Ainda muito mais frio que um dia de inverno na Sibéria, menos de -200°C, mas quente para ambientes astronômicos.

Moléculas orgânicas, por outro lado, são aquelas formadas de átomos de carbono, com algumas estruturas específicas. O metanol, de fórmula CH3OH, é uma das mais simples que conhecemos, com apenas um átomo de carbono. Por isso, pode ser um dos blocos fundamentais para construir moléculas mais complexas, como o DNA humano que contém vários bilhões de átomos de carbono.

No entanto, sabemos que essa molécula não pode ser formada em ambientes tão "quentes", como o disco observado pelos pesquisadores. Dessa forma, ela deve ter se originado ainda na nuvem de gás, antes de seu colapso, e sobreviveu ao processo de formação da estrela e do disco.

Com a descoberta, os pesquisadores têm esperanças de encontrar outras moléculas orgânicas no mesmo sistema, como o acetaldeído (C2H4O) e o éter dimetil (C2H6O). Com isso, poderiam comparar os resultados com a abundância de moléculas orgânicas em cometas, por exemplo, com o potencial de traçar de forma precisa a origem das moléculas orgânicas — e quem sabe da vida — no próprio planeta Terra.

Errata: o texto foi atualizado
No terceiro parágrafo, onde estava escrito "menos que 250 graus Celsius" em uma versão anterior do texto, o correto é 250 graus Celsius negativos. O erro já foi corrigido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL