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Thiago Gonçalves

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Fase de crescimento: como o Hubble conseguiu flagrar um planeta em formação

A ilustração mostra o material sendo levado por campos magnéticos até o planeta em crescimento. Ao chegar lá, ele cria manchas quentes que brilham intensamente no ultravioleta - Nasa/ ESA/ STScI/ Joseph Olmsted (STScI)
A ilustração mostra o material sendo levado por campos magnéticos até o planeta em crescimento. Ao chegar lá, ele cria manchas quentes que brilham intensamente no ultravioleta Imagem: Nasa/ ESA/ STScI/ Joseph Olmsted (STScI)
Thiago Signorini Gonçalves

Thiago Signorini Gonçalves é doutor em astrofísica pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia, professor do Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e coordenador de comunicação da Sociedade Astronômica Brasileira. Utilizando os maiores telescópios da Terra e do espaço, estuda a formação e evolução de galáxias, desde o Big Bang até os dias atuais. Apaixonado por ciência, tenta levar os encantos do Universo ao público como divulgador científico.

06/05/2021 04h00

Como um planeta se forma? Essa é uma das perguntas mais importantes da astronomia atual, mas a dificuldade de observar o processo enquanto acontece é um enorme desafio a ser superado. Afinal, os planetas do sistema solar já estão prontos.

Para tentar compreender melhor como isso acontece, uma equipe de astrônomos norte-americanos e chineses deu um importante passo, anunciando nesta semana a observação de um planeta em formação com o telescópio espacial Hubble.

Embora já conheçamos mais de 4.000 exoplanetas, ou seja, planetas ao redor de outras estrelas que não o Sol, obter imagens diretas destes objetos ainda é muito difícil. A luz da estrela ofusca a imagem, e é como tentar procurar uma mosca voando ao redor de um holofote.

Dessa forma, pesquisadores precisam usar truques para remover a luz da estrela, e isso é feito com um processamento de imagem avançado. Para se ter uma ideia, temos apenas 15 imagens diretas de exoplanetas, e essa é a primeira vez que se observa um planeta com radiação ultravioleta. Todas as outras detecções são indiretas, medindo-se apenas o efeito do planeta sobre a sua estrela hospedeira.

Um novo sistema planetário

PDS 70 é um sistema astronomicamente jovem. O planeta PDS 70 b tem apenas 5 milhões de anos, e acreditamos que ele ainda não está totalmente formado. É um objeto ideal para se fotografar, já que sua distância da estrela, cerca de 20 vezes maior que a distância da Terra ao Sol, permite separá-los um pouco melhor.

Com as novas observações, a equipe liderada por Yifan Zhou, da Universidade do Texas, consegue medir não apenas as propriedades do planeta, mas também a velocidade com que está crescendo. Para isso, comparam o brilho de PDS 70 b no ultravioleta com modelos teóricos que calculam a emissão de energia para planetas que estão acumulando material.

Segundo o modelo, os planetas se formam em um disco de gás e poeira. Enquanto a maior parte do material é usada para forma a própria estrela, os planetas também usam o material para se formar. Campos magnéticos guiam o material ao planeta, gerando "manchas" quentes que brilham intensamente no ultravioleta.

Os cientistas mostraram que o planeta PDS 70 b está acumulando cerca de um centésimo da massa de Júpiter a cada milhão de anos. Como ele tem atualmente 5 milhões de anos e já possui cinco vezes a massa de Júpiter, isso significa que o planeta está crescendo muito mais lentamente agora, já tendo passado sua "adolescência". "Nossas medidas mostram que o planeta está na fase final de formação", afirmam os autores.

No final do artigo científico, os autores enfatizam o papel do telescópio Hubble, que mesmo 31 anos após seu lançamento continua sendo singular. Com sua visão precisa no ultravioleta, o Hubble é o único observatório capaz de realizar esse tipo de medidas, já que outros telescópios não têm essa capacidade. O James Webb, por exemplo, a ser lançado em outubro, será capaz apenas de detectar a radiação infravermelha.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL