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Thiago Gonçalves

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Cientistas veem o maior grupo de galáxias de quando o universo era "bebê"

A imagem mostra 5 das 23 galáxias descobertas no protoaglomerado de HDF 850.1. A distância entre as galáxias e o seu brilho fraco tornam o trabalho de identificação um grande desafio - Nasa/ ESA/ GOODS-N+3DHST+CANDELS Team/ Daniel López/ IAC
A imagem mostra 5 das 23 galáxias descobertas no protoaglomerado de HDF 850.1. A distância entre as galáxias e o seu brilho fraco tornam o trabalho de identificação um grande desafio Imagem: Nasa/ ESA/ GOODS-N+3DHST+CANDELS Team/ Daniel López/ IAC
Thiago Signorini Gonçalves

Thiago Signorini Gonçalves é doutor em astrofísica pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia, professor do Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e coordenador de comunicação da Sociedade Astronômica Brasileira. Utilizando os maiores telescópios da Terra e do espaço, estuda a formação e evolução de galáxias, desde o Big Bang até os dias atuais. Apaixonado por ciência, tenta levar os encantos do Universo ao público como divulgador científico.

04/03/2021 04h00

Uma equipe de astrônomos sediados na Espanha anunciou na semana passada a confirmação observacional do aglomerado de galáxias mais denso já observado no universo distante.

Aglomerados de galáxias podem ser compostos por até milhares de galáxias, e representam as maiores estruturas gravitacionalmente ligadas existentes no universo, com tamanhos que chegam a milhões de anos-luz.

Esses gigantes cósmicos se formaram em algum momento, e um importante ramo da astronomia moderna é justamente buscar pelas origens dos aglomerados. Para isso, procuramos regiões muito distantes com um grande número de galáxias em um espaço limitado no céu. Como a luz tem uma velocidade finita, o tempo de viagem ao longo dessas distâncias significa que estamos observando o passado, vendo o universo em sua infância.

No caso do aglomerado ao redor da galáxia HDF 850.1, sabemos que a luz levou mais de 12,5 bilhões de anos para chegar até nós. Dessa forma, os cientistas puderam ver um protoaglomerado — ou seja, um "aglomerado bebê" — quando o universo tinha pouco mais de 1 bilhão de anos de idade.

O problema é que nessa época os protoaglomerados ainda eram pequenos e espalhados. Contando no máximo com algumas dezenas de galáxias em regiões de dezenas de milhões de anos-luz de tamanho, não eram ainda as grandes metrópoles cósmicas que vemos no universo atual.

Ao longo do tempo, os modelos inferem que essas regiões vão atraindo mais e mais galáxias com a força da gravidade, para chegar aos milhares de objetos que vemos em aglomerados como o de Virgem e o de Coma.

O protoaglomerado já era conhecido anteriormente, mas a equipe liderada por Rosa Calvi confirmou a existência de dez novas galáxias, elevando o número de objetos pertencentes à estrutura para 23, o mais denso já visto até hoje.

HDF 850.1, em particular, é uma galáxia starburst, assim chamada por abrigar o nascimento de cerca de 850 estrelas por ano, em média.

No começo do universo, espera-se que essa montagem inicial de galáxias, em um ambiente tão movimentado, estimule mesmo a produção de estrelas ali. No entanto, as outras galáxias não são tão espetaculares assim.

Como a própria Calvi afirma, "nós surpreendentemente descobrimos que todas as quase duas dúzias de galáxias do aglomerado estudadas até agora apresentam formação estelar normal, e a galáxia central parece dominar a produção de estrelas nessa estrutura."

Com a nova descoberta, o protoaglomerado de HDF 850.1 se torna um dos melhores alvos para o estudo da formação de estruturas desse tipo no começo do universo. Podem ter certeza de que muitos telescópios no futuro próximo estarão apontados nessa direção.