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Thiago Gonçalves

O que poderemos descobrir com um pedaço do asteroide Bennu no laboratório

Thiago Signorini Gonçalves

Thiago Signorini Gonçalves é doutor em astrofísica pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia, professor do Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e coordenador de comunicação da Sociedade Astronômica Brasileira. Utilizando os maiores telescópios da Terra e do espaço, estuda a formação e evolução de galáxias, desde o Big Bang até os dias atuais. Apaixonado por ciência, tenta levar os encantos do Universo ao público como divulgador científico.

23/10/2020 04h00

A águia pousou! Ou seria o passarinho interplanetário? Seja lá qual for o animal escolhido, a Nasa teve sucesso no contato da missão Osiris-Rex com o asteroide Bennu, recolhendo amostras do asteroide que serão trazidas para a Terra.

O satélite foi lançado em 2016, e só voltará à Terra em 2023, mas o retorno científico será enorme. Teremos em breve uma amostra física de um remanescente do sistema solar quando ainda era jovem, buscando entender melhor nossas origens planetárias.

Vale lembrar, não é a primeira vez que a humanidade consegue o feito. A Hayabusa 2, da Agência Espacial Japonesa, foi uma missão semelhante para recolher amostras do asteroide Ryugu, obtendo sucesso no ano passado. Espera-se que a nave volte à Terra até o final do ano.

Combinadas, as pesquisas serão de grande valia para entendermos a origem de planetas e pequenos corpos no sistema solar. Isso acontece porque o material que foi formado naquela época muitas vezes está sujeito a processos de transformação que o fazem perder suas propriedades originais. Todo material rochoso da Terra, por exemplo, está sujeito a intempéries e à atividade vulcânica.

Mesmo os meteoritos que conseguimos recolher por aqui são pequenos fragmentos de rochas maiores, e ao atravessar a nossa atmosfera são aquecidos e alterados também. Apenas seu interior pode, com sorte, ser preservado no processo.

É verdade que os asteroides estão sujeitos ao clima espacial, sendo bombardeados, por exemplo, por raios cósmicos que alteram sua superfície de alguma forma. Mas ambas as missões tinham maneiras diferentes de realizar "miniexplosões" (usando, por exemplo, gás nitrogênio, no caso da missão da Nasa), que levantariam rochas menores que alguns centímetros, recolhendo-as em um compartimento especial.

Ao longo da próxima década, então, alguns cientistas sortudos poderão (após o retorno das amostras) levar essas pedrinhas ao seu laboratório para estudos detalhados. Para um astrônomo como eu é até engraçado, já que de forma geral nunca temos contato direto com nosso objeto de estudo, sendo obrigados a observar tudo passivamente, à distância, com nossos telescópios.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.