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Ricardo Cavallini

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Mais um escândalo do Facebook? Não é surpresa, mas é preciso dar um basta

Thomas Ulrich/ Pixabay
Imagem: Thomas Ulrich/ Pixabay
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Ricardo Cavallini

Autor de 6 livros que abordam tecnologia, negócios e comunicação. É professor da Singularity University, embaixador MIT Sloan Management Review Brasil e um dos apresentadores do Batalha Makers no Discovery Channel (Brasil e Latam). Criador do RUTE, o kit educacional eletrônico aberto, ecológico e mais acessível.

30/09/2021 04h00

Precisamos falar sobre o Facebook. Este mês o jornal norte-americano The Wall Street Journal publicou uma série de artigos em um especial chamado The Facebook Files (os arquivos do Facebook), mostrando que a plataforma sabia com profundidade de falhas e dos sérios problemas causados por sua plataforma.

Com acesso a documentos internos, incluindo relatórios de pesquisa, discussões online de funcionários e até apresentações feitas para a alta administração, o jornal mostrou a existência de um programa interno chamado de XCheck, voltado para contas de alta repercussão.

Na prática essa atenção especial significa permitir que essas contas burlem as regras da plataforma à vontade. Os documentos internos dizem exatamente isso em todas as palavras, "para alguns membros selecionados de nossa comunidade, não estamos aplicando nossas políticas e padrões. Ao contrário do resto da nossa comunidade, essas pessoas podem violar nossos padrões sem quaisquer consequências".

Políticos disseminando fake news ou fazendo apologia a crimes são o melhor exemplo disso. Mas o grupo também conta com algumas celebridades.

A reportagem citou como exemplo o fato de Neymar ter postado fotos nuas da mulher que o acusou de estupro. O fato de o astro ter dezenas de milhões de fãs, sendo muitos deles adolescentes e crianças é um agravante neste caso.

Apesar da empresa ter como regra a idade mínima de 13 anos, sabemos que isso também não é respeitado.

Para que fique bem claro para alguns, a questão não é a injustiça dos meros mortais não poderem fazer o mesmo, mas de permitir que algumas pessoas usem a rede —uma ferramenta extremamente poderosa— para causar mal para outras pessoas e para a sociedade.

Os documentos também mostraram que Mark Zuckerberg negou propostas de melhorias e sugestões feitas por seus funcionários. Deixar a plataforma menos agressiva poderia diminuir a interação com a plataforma.

Também mostrou que tiveram resposta inadequada ou inexistente a incitações de violência ou abuso contra mulheres e etnias, bem como tráfico de drogas, órgãos e pessoas, mesmo quando essas situações já haviam sido identificadas pela equipe.

Como exemplo, um cartel de drogas mexicano que usou o Facebook para recrutar, treinar e pagar pistoleiros para matar um homem. Apesar dos posts evidentes e chocantes, a empresa não proibiu o cartel de continuar postando no Facebook e no Instagram.

Os documentos também mostraram que o Facebook sabe com profundidade como o Instagram está sendo tóxico para as meninas adolescentes, gerando frustrações relacionadas a beleza, atratividade, dinheiro, amizades, solidão e depressão, causando ou agravando severamente a saúde mental e a autoestima das adolescentes.

Os estudos realizados pelos profissionais da empresa concluíram que alguns desses problemas eram específicos do Instagram, não das redes sociais como um todo.

Não é escândalo, mas consistência

Não existe nenhuma surpresa nisso. Nem nos males nem no fato de seus executivos terem consciência do problema. Também não surpreende o fato de não terem interesse em resolver. Você se surpreende?

E se eu disser que a empresa, com todo esse conhecimento, tinha planos para lançar uma versão do Instagram para crianças?

É apenas mais um escândalo (ou mais alguns), o correto nem seria chamar de escândalo, mas sim de consistência.

E justamente por essa consistência, e nos assuntos mais relevantes dos tempos atuais, como privacidade, depressão e o ataque à democracia, é que precisamos falar sobre isso.

É preciso dar um basta.

Multas bilionárias que parecem enormes aos olhos dos mortais, mas que não causam cócegas perto do faturamento brutal da empresa não estão resolvendo o problema.

A empresa precisa ser dividida, Zuckerberg e seus executivos responsabilizados e multas com valores que realmente causem impacto.

Não parece ser uma tarefa fácil. Apesar da administração Biden parece estar olhando isso com muito mais atenção, falta entendimento, ação e coragem do congresso.

Esta discussão vale também para os outros países, como o Brasil. Obviamente, não podemos ter muita expectativa, até porque, boa parte dos políticos fazem parte do grupo de poderosos que a rede permite burlar as regras.

Permitir que o Facebook continue sendo maléfico é benéfico para alguns, justamente parte do legislativo, executivo e do judiciário que poderia — e deveria — fazer algo a respeito.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL