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Jovens criam game para levar cultura musical negra às escolas da periferia

Arte do jogo Tabuleiro Ori, criado por jovens da periferia de São Paulo - Rodrigo da Selva
Arte do jogo Tabuleiro Ori, criado por jovens da periferia de São Paulo Imagem: Rodrigo da Selva
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O Desenrola E Não Me Enrola é um coletivo de produção jornalística que atua a partir das periferias de São Paulo, investigando fatos invisíveis que geram grandes impactos sociais na vida dos moradores e moradoras dos territórios periféricos.

Tamires Rodrigues

23/09/2020 04h00Atualizada em 23/09/2020 13h37

Criado em um curso de pensamento computacional, o jogo "Tabuleiro Ori" é uma iniciativa de jovens das periferias de São Paulo para transformar a música em instrumento educativo para mergulhar na história da população negra brasileira.

"Esse jogo é para legitimar um pretinho na escola falar assim: 'se você pensa minha história como parte da escravidão, você está muito enganado, nós somos seres milionários, tá ligado'. Eu acho que a grande resposta do Ori é essa", diz a produtora cultural Magda Souza, uma das seis jovens moradoras das periferias de São Paulo, que usaram o pensamento computacional para elaborar o jogo "Tabuleiro Ori".

Magda faz parte do grupo que participou do programa de formação Programaê, um curso que convida jovens das periferias a desenvolver um pensamento computacional, utilizado para estimular a introdução da lógica de programação, que é empregada na maioria dos dispositivos tecnológicos.

Ao longo do curso, os jovens transformaram suas vivências sociais na quebrada em um plano pedagógico focado na difusão do pensamento computacional nas escolas públicas das periferias de São Paulo. Para isso, eles construíram um plano de aulas a partir dos conhecimentos adquiridos no projeto.

Durante esse processo de formação, Ana, Myke, Glória Maria, Gustavo e Macrô, parceiros de Magda no curso, decidiram criar um jogo. O objetivo é contribuir com a ampliação do repertório de jovens das periferias a partir de um game que estimula o contato histórico com a música negra. Na prática, o grupo está usando técnicas de gamificação para transformar a cultura, história, música e o pensamento no jogo "Tabuleiro Ori", um instrumento pedagógico para descolonizar a cultura musical nas periferias.

A ideia de descolonizar a cultura musical através da gamificação surgiu pelo fato do grupo de jovens ter uma ligação natural com diversos estilos musicais, entre eles o hip-hop. "A maioria das pessoas que estão no grupo já trabalha com esse rolê. Foi muito mais fácil trabalhar a parte de pesquisa nessa questão", aponta Magda, que antes da pandemia produzia eventos de batalhas de rimas nas periferias da zona sul de São Paulo.

"O foco é sempre aprender o conteúdo e no meio do jogo ir aplicando o pensamento computacional. No jogo, você sempre vai caminhar para a chegada, e se tiver alguma dificuldade no caminho, vai aprender com a pergunta que você tirar no card", explica Ana Luiza, uma das cocriadoras do "Tabuleiro Ori", moradora do Jardim Sônia Ingá, que atua como cantora, compositora, poeta e articuladora.

Segundo Ana Luiza, o jogo vai provocar os alunos de escolas públicas a mergulhar na história afro-brasileira e indígena como uma forma de resgate, ressignificando o conhecimento e valorizando essa cultura através da música. "É sempre o foco valorizar a música dentro da cultura preta mesmo, de valorizar a nossa música".

Ana Luiza acredita que o maior propósito do jogo é mostrar para a juventude que ela pode ocupar o espaço que ela quiser conhecendo a sua história e do seu território. "A gente pode estar na área tecnológica, a gente pode estar na área que a gente quiser, usando principalmente a nossa linguagem", diz.

Se por um lado a vivência dos jovens na quebrada se tornou uma grande aliada no processo de elaboração do jogo, a introdução do pensamento computacional e suas complexidades tecnológicas foram um grande desafio. "A maior dificuldade foi aplicar o pensamento computacional no jogo", afirma Magda, moradora do Morro do Índio.

Ela afirma que a universalização da leitura do jogo foi uma das dificuldades enfrentadas. "O grande lance foi quando a gente entendeu que precisava aplicar para todo mundo, né, que o professor, seja da escola particular ou da comunidade ribeirinha, tinha que chegar na sala de aula e conseguir aplicar", diz.

Além do "Tabuleiro Ori", o curso Programaê também serviu como plataforma para os jovens criarem um plano pedagógico, composto por quatro aulas com duração de 50 minutos cada. O conteúdo didático é voltado para alunos das disciplinas de música e geografia, que estão cursando o 9° ano do Ensino Fundamental II em escolas públicas das periferias.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL