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Coletivos debatem eleições nas redes sociais com moradores da quebrada

Plataforma Vote Perifa nasceu da iniciativa de dois moradores da Vila Inglesa, zona sul de São Paulo - Sophia Caruso
Plataforma Vote Perifa nasceu da iniciativa de dois moradores da Vila Inglesa, zona sul de São Paulo Imagem: Sophia Caruso
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O Desenrola E Não Me Enrola é um coletivo de produção jornalística que atua a partir das periferias de São Paulo, investigando fatos invisíveis que geram grandes impactos sociais na vida dos moradores e moradoras dos territórios periféricos.

Tamires Rodrigues

04/11/2020 04h00

Iniciativas de movimentos sociais e de educação popular estão transformando as plataformas digitais em locais para discutir a cidade e exercer a participação política nas periferias de São Paulo.

A partir do entendimento de que a periferia precisa ocupar espaços políticos institucionais para construir um diálogo mais qualificado com os moradores da quebrada, as iniciativas Vote Perifa e o Café Filosófico da Periferia deram inicio a uma série de debates com candidatos a vereadores que não têm o perfil dos políticos tradicionais no Brasil com o propósito de disseminar uma maior conscientização sobre a importância do voto nos territórios periféricos.

A Vote Perifa é uma plataforma que surgiu como um movimento popular para compartilhar candidaturas da periferia de São Paulo. Já o Café Filosófico da Periferia atua como um grupo formado por educadores, artistas e coletivos culturais, que promove discussões sobre educação popular e produção de conhecimento nas periferias da zona sul da cidade.

Com a pandemia, essas iniciativas deixaram de realizar suas atividades em espaços físicos para ocupar as diversas plataformas digitais e as redes sociais, passando a organizar encontros através de grupos de Facebook e WhatsApp. "Esses grupos também são impulsionadores de outras discussões", diz Wellington Amorim, 25, morador da Vila Remo, zona sul de São Paulo, que atua como um dos organizadores do coletivo Café Filosófico da Periferia.

Amorim ressalta o quanto é necessário esses espaços de discussões no cenário político atual, onde a mídia televisiva não tem realizado debates eleitorais em São Paulo. "Em um momento de eleições como este —que a gente vê emissoras de televisão se negando a fazer discussões entre os candidatos, sobre política e sobre qual é o projeto de cidade que cada um está apresentando—, a gente entende o Café Filosófico como este espaço que precisa se colocar à disposição das pessoas da quebrada para refletir sobre o voto".

No último encontro, o grupo debateu sobre a construção de candidaturas coletivas nas periferias durante uma live que teve grande nível de interação dos moradores e seguidores, porém, o organizador ainda demonstra sua insatisfação.

"A gente tem tido uma grande dificuldade para fazer esses papos virtuais e tudo mais", diz Amorim, trazendo uma questão muito presente na vida de moradores das periferias que é a falta de internet ou de uma rede de qualidade. "A gente tem pedido a compreensão das pessoas, e também compartilhado nossos conteúdos em todas as redes para que as pessoas consigam acessar", diz.

"Nesse momento de pandemia a internet foi colocada como direito básico para a gente sobreviver, e a gente não tem acesso a esse direito", acrescenta.

Observando as necessidades do seu território, que não são colocadas nos planos políticos da maioria dos candidatos que estão presentes nas mídias tradicionais, Amorim sugere que umas das soluções para mudar esse cenário é inserir pessoas periféricas para ocupar os espaços políticos de poder. "As pessoas precisam ser vistas como corpos políticos, isso é fundamental. Se as pessoas tivessem mais acesso a esses espaços de discussão, através de tecnologia, sem dúvida elas também se envolveriam nessas questões colocadas", diz.

O Café Filosófico entende que uma das características das quebradas é o potencial de engajamento das comunidades através do afeto e das relações pessoais construídas nos bairros. O grupo utiliza isso como estratégia para acessar moradores das periferias. "Quando a gente usa essa rede para reflexão e para construção coletiva de uma política pública, é aí que está a potência, que a gente de fato consegue se relacionar com o que mais tem a ver com a sua vivência", afirma Amorim.

Candidatos da periferia

Considerado pelos seus criadores um movimento popular virtual e suprapartidário, o Vote Perifa foi criado por Rafael Shouz, 25, e Willian Dantas, 28, moradores da Vila Inglesa, periferia da zona sul de São Paulo, para fomentar uma plataforma que promove debates com candidaturas periféricas. A partir desta compreensão, eles articularam parcerias e campanhas nas redes sociais para entrevistar candidatos a vereador que são oriundos de territórios periféricos.

"O Vote Perifa nasceu em junho deste ano, quando percebemos que tinham muitas candidaturas da periferia e que isso precisava ser propagado. Daí veio a ideia de gerar visibilidade e engajar o voto da quebrada também", conta Dantas.

O coletivo enxergou essa urgência de criar novos meios de comunicação que vá além da televisão, rádio, jornal e canais populares nas redes sociais, observando o descaso que os políticos que ganham voto nas periferias têm com o território depois de eleito. "Só quem veio da periferia sabe quais são as demandas que a periferia precisa. Só quem sentiu na pele a falta de acesso a políticas públicas vai entender a importância", diz Shouz.

Pensando nisso, os criadores se tornaram produtores de conteúdos digitais, tendo como seu principal meio de divulgação uma conta no Instagram da @vote.perifa. "Estamos tentando alavancar e dar visibilidade para os candidatos de outras formas. Começamos a compartilhar os candidatos que fazem parte do movimento e optamos pelas lives também. Para que não houvesse qualquer parcialidade, convidamos coletivos da quebrada para fazerem as mediações. A ideia é que esses convidados apresentem, mas também questionem os candidatos enquanto sujeitos que são da periferia", afirma Dantas.

Shouz lembra que as maiores dificuldades de se produzir conteúdo para a periferia é a exclusão tecnológica. "Usar o campo digital para chegar na periferia é uma possibilidade, mas também um desafio. Quando você fala em periferia, você fala da falta de acessos e precisa entender que as demandas mudam de território para território".

"Nós precisamos democratizar o acesso digital antes de falarmos sobre a possibilidade de voto online, como estão querendo testar por aqui", acrescenta.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL