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Nada de WhatsApp: sem internet, como as primeiras fake news se espalharam?

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Imagem: Freepik
Tiago Jokura

Tiago Jokura é jornalista e, portanto, curioso profissional. Passou os últimos 15 anos respondendo as dúvidas mais complexas e inusitadas dos leitores na mídia impressa ? na tentativa infinita de explicar como o mundo funciona com clareza e bom humor. Agora, continua essa saga aqui no UOL. Mande sua pergunta cabeluda que ele faz questão de pentear.

01/06/2020 04h00

Pergunta de Tomé Custódio, de Laranja da Terra, ES - quer enviar uma pergunta também? Clique aqui

No princípio era boca a boca mesmo - nada de zap zap -, caro cidadão laranjense. Até onde esta coluna escavou, a primeira fake news de que se tem registro veio muito antes até da invenção do papel e da imprensa. É coisa do tempo do papiro, no Egito Antigo mesmo.

Segundo consta, ainda no século 13 antes de Cristo, Ramsés II, ou Ramsés, o Grande, ou ainda Ozymandias, terceiro faraó de sua dinastia, bravateou para seu povo que tinha arrebentado com os hititas na Batalha de Kadesh, onde atualmente fica a Síria. O jeito que Ramsés II achou de espalhar essas fake news primordiais foi pintar nas paredes de seus templos cenas triunfais dele próprio estraçalhando os inimigos às margens do rio Orontes.

Para o povo, essas ilustrações eram como o cinema ou o "Jornal Nacional" da época. Então, se o rei pintou sua supremacia sobre os hititas e estava ali intacto e triunfante para relatar com cores vivas o massacre, os egípcios tratavam de espalhar a boa nova para quem não tinha "assistido" ao relato. Acontece que, nessa batalha, Ramsés não mitou contra os hititas, mas saiu do conflito com um acordo de não-agressão mútua. Ou seja, já naquela época, diplomacia não dava tanto ibope e nem ficava tão bem no mural para o povo aplaudir.

Em mais de 3 mil anos de lá para cá, as notícias falsas se sofisticaram, estampando e vendendo publicações sensacionalistas e dando origem a um tipo de jornalismo que, assim como Ramsés II, pintava a realidade com outras cores, digamos assim: aqui no Brasil, apelar para exageros absurdos ou sanguinolentos no noticiário foi apelidado de "imprensa marrom"; nos países de língua inglesa, o termo consagrado passou a ser yellow journalism (jornalismo amarelo).

Mais recentemente, as fake news deixaram de ser apenas iscas a fim de atrair audiência e leitores para virar arma de estratégia eleitoral e política. Ironicamente, um dos principais responsáveis por popularizar a expressão fake news é o presidente dos EUA, Donald Trump. Só que Trump abusa da expressão para classificar qualquer notícia desfavorável ao seu governo —ainda que o noticiado seja comprovadamente real e verificado por várias fontes.

Recentemente, Trump intimidou algumas redes sociais que têm bloqueado conteúdos falsos de —veja só— políticos como ele próprio e o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, entre outros governantes e candidatos populistas mundo afora.

E mais irônico ainda: dizer que Trump foi quem batizou o fenômeno na esfera política também é fake news.

Sua concorrente derrotada nas eleições de 2016, Hillary Clinton, se referiu às fake news em um discurso em 8 de dezembro de 2016, exatamente um mês depois da eleição, e antes do atual mandatário dos EUA pronunciá-lo publicamente pela primeira vez. E de boca em boca, ou de Zap em Zap, a expressão pegou.

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