PUBLICIDADE
Topo

Felipe Zmoginski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Ao dar 'férias' a funcionários russos, Huawei revela uma China globalizada

Conteúdo exclusivo para assinantes
Felipe Zmoginski

Felipe Zmoginski foi editor de tecnologia na revista INFO Exame, da Editora Abril, e passou pelos portais Terra e America Online. Fundou a Associação Brasileira de Online to Offline, foi secretário-executivo da Associação Brasileira de Inteligência Artificial e head de marketing e comunicações do Baidu no Brasil, companhia líder em buscas na web na China e soluções de inteligência artificial em todo o mundo. Há seis anos escreve sobre China e organiza missões de negócios para a Ásia.

20/04/2022 04h00Atualizada em 20/04/2022 10h50

Os funcionários da Huawei na Rússia, acostumados a jornadas extenuantes e reuniões madrugada adentro com seus chefes na China, vivem a incomum sensação de ter tempo livre. Em licença remunerada desde a semana passada, esses colaboradores podem ao menos apreciar a chegada da primavera no hemisfério norte.

O movimento da Huawei é sintomático da realidade da nova China, aberta e globalizada, e contradiz o consenso apresentado pelos analistas políticos internacionais de que o país asiático está de acordo ou apoia a invasão da Ucrânia.

Como todos sabemos, a agressão à Ucrânia, um país soberano e independente, é - corretamente - amplamente rejeitada pela comunidade internacional, que retalia a Rússia com todos os tipos possíveis de boicote.

Um argumento muitas vezes levantado em análises políticas é o de que a China poderia dar o golpe fatal em Putin, recusando-se a fazer comércio com a Rússia, mas prefere explorar a "oportunidade" para ganhar mercado no país euro-asiático. Uma prova disso seria, por exemplo, os serviços que a chinesa Union Pay presta a bancos russos em substituição a Visa e Mastercard. Nada mais equivocado.

Se não, vejamos. A economia russa é, na verdade, bastante modesta. A depender de como o PIB é calculado, a Rússia é menor (economicamente) que o Brasil - e ambos têm um produto interno dez vezes menor que o chinês. Grande, de verdade, é o mercado americano. E o da União Europeia. Em ambas localidades, nada é mais desabonador que aparecer em uma foto como aliado russo.

De olho nos mercados que verdadeiramente importam, a Huawei deu "férias" a seus funcionários russos e deixou, por acabar, seus projetos com Megafon, MTS e Veon, três das maiores teles russas, todas clientes das soluções 5G da Huawei.

É pertinente perguntar se, uma vez que a Rússia não é, assim, tão estratégica, por que diabos a China não condena explicitamente os crimes praticados por Putin na Ucrânia, preferindo uma pretensa "neutralidade" quando sabemos que, em uma situação desesperadora como a vivida na Ucrânia, ser neutro significa praticamente estar ao lado do opressor?

Há razões para isso - e são razoáveis. Sim, é verdade que Vladimir Putin é um criminoso de guerra, um autocrata que mandou seus jovens matarem (e morrerem) em uma guerra condenável. Apesar de tudo isso, ele teve um motivo para agir: bloquear o avanço da aliança militar da OTAN rumo às fronteiras russas.

Pense em ordem reversa: se o México fizesse um acordo militar com a China (ou a Rússia, tanto faz) que lhe permitisse receber e instalar equipamentos militares sofisticados, voltados para as grandes cidades americanas, como os Estados Unidos reagiriam? Por muito menos, os americanos invadiram Iraque e Afeganistão, igualmente nações soberanas.

À China, não interessa o conflito na Ucrânia. Como não interessava a pandemia de Covid. Aliás, para o maior exportador do mundo, que caminha a passos firmes rumo à posição de maior economia global, o que menos interessa são turbulências que afetem o crescimento de seus mercados consumidores.

Igualmente, não interessa fazer qualquer movimento que apoie a expansão militar americana que, de mais a mais, mantém bases no Japão, na Coreia e em Taiwan, todos vizinhos próximos de suas fronteiras. Logo, por qual razão a China deveria enfraquecer a resistência russa à Otan, se ela própria se vê às voltas com a ameaçadora presença americana no Pacífico?

Já no campo das sanções econômicas, por bem menos, a China sofre retaliações variadas. Impedida de importar semicondutores de fabricantes que mantêm parcerias tecnológicas com os Estados Unidos, impedida de competir em licitações de 5G em múltiplos países, por qual razão objetiva a China daria guarida às sanções à Rússia? Sanções essas que, ao sabor de pretextos americanos, poderão em algum momento voltar-se contra a própria China?

Fiel à sua tradição pragmática, a China não apoia e não deseja a guerra na Ucrânia, mas igualmente não está em posição de reforçar boicotes dos quais ela própria é vítima, sob diferentes formas. Apesar disso, como demonstra o icônico caso da Huawei, muitas companhias globais chinesas vão limitar ou suspender suas operações na Rússia, ao menos enquanto o conflito durar. Afinal, o mercado-alvo principal da Huawei está no Ocidente - e não na Rússia.