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Felipe Zmoginski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como criptomoeda protegeria China de bloqueio econômico, como o da Rússia?

Bandeira UnionPay controla mercado de cartões de crédito internacionais na China - Reprodução/ Xinhua
Bandeira UnionPay controla mercado de cartões de crédito internacionais na China Imagem: Reprodução/ Xinhua
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Felipe Zmoginski

Felipe Zmoginski foi editor de tecnologia na revista INFO Exame, da Editora Abril, e passou pelos portais Terra e America Online. Fundou a Associação Brasileira de Online to Offline, foi secretário-executivo da Associação Brasileira de Inteligência Artificial e head de marketing e comunicações do Baidu no Brasil, companhia líder em buscas na web na China e soluções de inteligência artificial em todo o mundo. Há seis anos escreve sobre China e organiza missões de negócios para a Ásia.

10/03/2022 04h00

Os países que compõem a União Europeia e os Estados Unidos não atenderam, até o momento, os dramáticos apelos do presidente da Ucrânia para enviar ajuda militar ao país. Com exceção de munição e armamentos, os pedidos para criar uma "zona de exclusão aérea" na nação do Leste Europeu ou mesmo para a cessão de caças à força aérea ucraniana foram todos recusados.

Em contrapartida, o grupo genericamente chamado de Ocidente lançou mão de sanções financeiras e comerciais inéditas até hoje. Uma das mais graves foi a remoção dos bancos russos do sistema de pagamentos internacionais Swift. Outra foi o cancelamento, por Visa e Mastercard, de todos os cartões internacionais emitidos com tais bandeiras na Rússia.

Na prática, estas medidas praticamente impedem as empresas —e os cidadãos do país— de trocar riquezas com o mundo. Baixar um e-book na Amazon ou obter financiamento internacional para a construção de uma ponte na Sibéria se torna, virtualmente, impossível.

Os desdobramentos destas medidas geraram episódios como o cancelamento de diversos contratos internacionais com empresas russas (por falta de pagamento), desvalorização da moeda local (o rublo) e uma corrida aos bancos, para sacar dinheiro de papel.

A China, como se sabe, não tem um pé atrás, mas os pés, as mãos, o tronco e tudo o mais que puder como sentimento de desconfiança do "Ocidente".

Não à toa, seu mercado de cartões de crédito internacionais é majoritariamente controlado pela bandeira Union Pay, que é operada por um consórcio de bancos estatais chineses.

No mundo, o Union Pay tem acordo para operar em mais de 180 países e, por isso, a bandeira tornou-se a "alternativa viável" para bancos e cidadãos russos se manterem ativos no mercado internacional e poderem, por exemplo, comprar um simples e-book na Amazon.

O fato de a Union Pay existir e servir de alternativa aos russos gerou enorme antipatia pela China, que fiel à sua tradição diplomática, não apoia, mas não condena, a invasão à Ucrânia.

Mais do que ter uma opinião sobre o conflito na Europa, a China tem uma posição muito clara: não confia mais que o estritamente necessário em um sistema financeiro controlado por europeus e americanos. E isto se expressa não só pela existência da Union Pay, mas pelos esforços chineses em desenvolver uma moeda soberana (portanto, com lastro assegurado pela autoridade monetária local) que possa circular de forma similar ao bitcoin, ethereum e outras criptomoedas, ou seja, por fora do sistema Swift.

O sistema de compensação internacional Swift foi o que permitiu, por exemplo, em 2019, comprovar que a Huawei recebeu pagamentos do governo do Irã.

Como, à época, a Huawei fazia uso de tecnologias americanas, proibidas de serem vendidas ao "embargado" Irã, criou-se uma "prova" com valor legal para que a Justiça americana pedisse a prisão, no Canadá, da filha do fundador da Huawei, então uma das diretoras da empresa.

Dados do sistema Swift são usados, de forma recorrente, como arma da política externa americana, para pressionar desafetos, ameaçados de terem suas transações internacionais "vazadas" na mídia. Como grande parte dos "desafetos" são políticos sob suspeita de corrupção em seus países, tal recurso acaba sendo muito efetivo, em favor dos interesses do Departamento de Estado americano.

Com o uso de um renminbi (RMB), nome oficial da moeda chinesa, no formato cripto, ele pode ser transacionado entre entes que o aceitem, como bancos centrais de países que fazem muito comércio com a China (no caso, praticamente o mundo todo) e circular de forma independente do Swift ou qualquer outro sistema centralizado por uma autoridade ocidental.

Este método permitiria, por exemplo, que os russos, se tivessem um dinheiro cripto soberano, os enviassem a quem quisesse comprar seus produtos, como forma de pagamento, independente de quaisquer sanções.

É claro que, para uma moeda soberana ser aceita amplamente ela precisa ter "conversibilidade", ou seja, quem a recebe deve ter uma relativa segurança de que poderá trocá-la por dólares ou por sua moeda local. Como a China ainda é um país com a "conta capital fechada", no linguajar dos economistas, a "conversibilidade" do RMB ainda é bastante modesta.

Mas as limitações para a aceitação e conversão ampla do RMB são um claro processo em curso.

Nas Olimpíadas de Inverno de Pequim, em fevereiro deste ano, a China testou distribuir RMB soberano para as delegações de atletas estrangeiros, que pagavam seus gastos na cidade e na Vila Olímpica usando seus smartphones e mobile payment.

O avanço da tecnologia cripto, neste cenário, também protege as populações de países bloqueados, já que seu dinheiro sempre pode circular, via marketplaces de moedas na internet ou simplesmente na troca de pessoa-para-pessoa na internet, independente do desejo de quaisquer autoridades.

Em toda esta história, no entanto, há um detalhe assustador: é uma característica das criptomoedas permitir seu "trackeamento". Ou seja, a autoridade monetária pode, ao analisar o registro no código de uma criptomoeda soberana controlada por ele, saber exatamente por onde aquela moeda passou e, em última análise, controlar até os mínimos gastos de um cidadão.

No caso da China, há a promessa de que a privacidade dos usuários que movimentam valores compatíveis com suas rendas será respeitada. Mas é claro que ninguém acredita nesta promessa.