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André Noel

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Empresas precisam de mais programadores preguiçosos e aqui está o motivo

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Imagem: Freepik
André Noel

Andre Noel é programador, webcartunista, autor do Vida de Programador, professor universitário (UEM e Unicesumar), youtuber e sabe pregar botões em roupas.

17/07/2021 04h00

Eu sempre escolho uma pessoa preguiçosa para fazer uma tarefa difícil, porque ela irá encontrar uma forma fácil de resolver."

A frase acima é atribuída ao Bill Gates. Tudo indica que ele não disse isso, realmente, mas é uma ótima frase e resume muito bem uma característica muito desejável para programadores.

Programação é um processo criativo, não é apenas um processo repetitivo onde fazemos coisas que já foram feitas. Se fosse um processo repetitivo, apenas, já teríamos sido substituídos por robôs (por enquanto eles estão sentados no banco do copiloto, né GitHub?).

Programadores são essenciais não pelo código que digitam, mas pela visão que têm de como resolver um problema. Antes de qualquer coisa, programadores são "resolvedores de problemas", para isso utilizam suas ferramentas, que são as linguagens, compiladores, ambientes, etc.

Essencialmente, a solução de problemas está muito ligada à criatividade, ainda que ela não se pareça tanto com a criatividade artística, mas seria uma criatividade lógica ou matemática.

A ideia é buscar formas de resolver os problemas com o menor esforço (tanto do programador quanto o esforço computacional) e envolvendo componentes que sejam viáveis financeiramente (profissionais brasileiros entendem bem de limitações de orçamento para tecnologias a preços absurdos).

Dessa forma, a frase do início faz muito sentido: programadores preguiçosos vão buscar formas criativas de resolver os problemas com um esforço menor e isso vale para todas as áreas.

Há uma frase famosa de Abraham Lincoln, que era lenhador, que diz:

Se eu tivesse 6 horas para cortar uma árvore, passaria 4 delas afiando o meu machado"

Talvez você não esteja tão habituado ao dia a dia de um lenhador como eu, então pode parecer estranho ficar 4 horas afiando um machado, afinal, com 1 hora já deve ficar bem mais afiado do que o comum, não? Bom, o sr. Lincoln não deve ter pensado em 4 horas consecutivas. É muito comum começar bem um trabalho e saber as horas de parar para voltar a afiar as ferramentas. É a ideia de trabalhar de forma inteligente para não trabalhar pesado.

Além da preguiça, a criatividade envolve pensar e olhar os problemas de uma forma diferente, não necessariamente da forma que outros já viram. Não por coincidência, a Apple lançou em 1997 seu slogan "Pense Diferente", deixando claro que a alma da empresa estava em fazer algo bom, independente do que os outros estivessem fazendo.

No filme "O Homem sem Sombra", há uma citação interessante de que "um gênio é uma pessoa que vai de A até D, sem passar por B e C". Pensar diferente envolve criatividade e genialidade, muitas vezes.

Neste ponto você pensa: onde estão esses gênios preguiçosos? As nossas empresas têm investido em fomentar esse perfil, em deixar essa criatividade fluir, em deixar o "ócio criativo" gerar boas soluções?

Com a chegada da pandemia vimos muitas empresas seguirem na direção contrária, como já conversamos por aqui. Empresas que começaram a cobrar maior produtividade, reuniões e relatórios de funcionários que passaram a trabalhar em casa, lidando com trabalho, família e problemas da casa, tudo ao mesmo tempo.

Antes ainda da pandemia, muitas empresas cobravam produtividade de um processo criativo como cobrariam de uma produção em série: volume, linhas de código e sangue derramado sobre o teclado.

Sua empresa valoriza o pensamento? Valoriza a criatividade? Ou será que a sua empresa colocou uma área de playground que você só pode usar depois do expediente se fizer horas extras na madrugada?

Períodos de crise nos forçam a tomar decisões diferentes do que a gente estava acostumado. Ao mesmo tempo em que estamos trilhando um trecho desconhecido, precisamos aumentar a produtividade para compensar a crise e evitar erros.

Mas parte dessas decisões tem feito profissionais se demitirem e procurarem empresas com mais liberdade para criar. Profissionais que buscam uma qualidade de vida para continuar com as boas ideias e com a criatividade.

Algo que eu sempre incluí em palestras sobre a carreira do programador é que se você quiser matar um bom programador, sufoque a criatividade dele. Não permita que ele utilize as roupas que gosta, não o deixe trabalhar com um fone de ouvido, exija horários muito rígidos e reuniões excessivas.

Não dar espaço para a criatividade é algo que torna um bom programador em um repetidor de códigos, ou então algo que só faz a sua empresa perder um bom programador, que vai buscar espaço em uma próxima.

Ah, e algo importante, que podemos abordar depois, é que a diversidade multiplica a criatividade. Isso não sou eu dizendo, isso é algo que aprendemos em biologia quando estudamos a plantação de cana e também é algo que vemos na história do Steve Jobs, brigando para que seus funcionários não fossem "quadradinhos" como o padrão IBM.

Pense diferente.

Trabalhe inteligente.

Valorize a criatividade.

Tirinha #593 Vida de Programador - Estou pensando - André Noel / Vida de Programador - André Noel / Vida de Programador
Imagem: André Noel / Vida de Programador

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL