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Clubes de eSports no Brasil têm mais de 50 casos de covid-19; atleta morreu

Anderson "444" Santos foi uma das vítimas da covid-19 - Divulgação/DisneylandMajorMDL
Anderson "444" Santos foi uma das vítimas da covid-19 Imagem: Divulgação/DisneylandMajorMDL

Gabriel Oliveira

Colaboração para o START

11/05/2021 04h00

Pelos menos 24 jogadores e membros de comissões técnicas e 29 trabalhadores administrativos de clubes de eSports do Brasil contraíram covid-19 desde o início da pandemia, conforme levantamento do START. Um deles, Anderson "444" Santos, morreu aos 25 anos, em Manaus, em meio à crise sanitária que assolou a capital do Amazonas, em fevereiro de 2021.

O START consultou 30 das principais organizações brasileiras e estrangeiras com representantes nacionais e recebeu resposta de 23 delas.

Os clubes B4 eSports, Black Dragons Esports, Corinthians, Imperial Esports, Havan Liberty, LOUD, MiBR, RED Canids Kalunga, Rensga Esports, SG eSports, Sharks Esports, Team One, Vivo Keyd, Vorax e W7M Gaming informaram que tiveram diagnósticos positivos para o novo coronavírus entre os contratados, com destaque para a Vorax, com 14 infecções. A INTZ também teve atletas infectados, mas não respondeu com detalhes.

Esta é a quarta parte da série "Um ano de pandemia nos eSports". Confira a primeira, sobre o impacto em LoL e Valorant; a segunda, sobre Free Fire e Rainbow Six e a terceira sobre os campeonatos de CS:GO.

Surtos

VORAX CBLOL - Divulgação/VORAX - Divulgação/VORAX
Imagem: Divulgação/VORAX

Dos 14 casos de covid-19 na Vorax, seis foram entre membros da equipe de League of Legends (LoL), três da de Valorant e cinco do setor administrativo.

Em dezembro de 2020, as infecções no time de Valorant custaram a participação na etapa presencial do First Strike, o primeiro torneio nacional da modalidade no país.

Mais recentemente, devido ao surto entre os membros da equipe do LoL, duas partidas do clube na 1ª Etapa do Campeonato Brasileiro (CBLoL) de 2021 precisaram ser adiadas.

A coproprietária da Vorax Marina Leite entende ser "impossível determinar as circunstâncias" das infecções, mas assegura que o clube tem tomado todas as medidas recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

"A organização contratou uma consultoria para o assunto, ainda no ano de 2020, e continuamos praticando todas as medidas recomendadas. Felizmente, todos os nossos atletas, staff, comissão e administrativo estão sendo extremamente responsáveis para evitar a infecção pelo vírus", pontua a executiva, em declaração ao START.

Apesar de as partidas de eSports serem em ambiente virtual, pro players e treinadores convivem em gaming houses (casa onde moram e treinam) ou gaming offices (escritório onde apenas realizam os treinamentos).

Sintomas

Alocs LoL  - Divulgação/RiotGamesBrasil - Divulgação/RiotGamesBrasil
Imagem: Divulgação/RiotGamesBrasil

Um dos técnicos de LoL da Vorax, Leonardo "Alocs" Belo foi um dos infectados no surto na equipe. Ele sentiu dores, cansaço e tontura.

"Eu passava o dia todo sem conseguir me levantar da cama direito. É uma dor de cabeça muito forte e problemática, a toda hora. Os olhos e o corpo doem", relembra Alocs, 31 anos. A tontura foi o que mais o incomodou: "É uma coisa que não desejo nem para o meu pior inimigo".

Ele chegou a ir duas vezes ao hospital, mas não precisou ser internado. Foram 14 dias de sintomas. Já as tonturas persistiram por um mês.

O treinador, que é diabético e, portanto, do grupo de risco, admite que sentiu medo durante a doença.

"Qualquer infecção dificulta o controle da diabete. Este vírus dificultou mais do que eu estou acostumado com qualquer outra doença. Minha glicemia de vez em quando subia, ia lá para cima. Por eu ter sido bem instruído e por estar bem controlado, não tive nenhum problema. Mas a preocupação estava na cabeça", comenta.

Alocs tem acompanhado o número de infecções entre jovens crescer, em relação à primeira onda, em 2020. Por isso, alerta para que todos se cuidem ao máximo. "É uma doença que mata, machuca e prejudica pessoalmente e socialmente", afirma.

Morte

444 paiN Gaming - Divulgação/EPICENTER - Divulgação/EPICENTER
Imagem: Divulgação/EPICENTER

Desde o início da pandemia, diversos jogadores e membros de comissões técnicas relataram, nas redes sociais, terem perdido parentes para a covid-19. Mas a doença, que ainda não havia atingido em cheio uma personalidade dos eSports no Brasil, matou o primeiro atleta profissional em fevereiro.

Jogador de DotA 2 com participação em eventos internacionais, 444 morreu depois de passar 13 dias hospitalizado.

Sua mãe, Nelsa Batista Santos Mano, de 52 anos, relata que, dos sete moradores na casa da família, em Manaus, quatro apresentaram sintomas da covid-19.

Em meados de janeiro, 444 começou sentindo febre e dor nas pernas e depois perdeu o paladar e o olfato, assim como os parentes. Ele chegou a ir ao Serviço de Pronto Atendimento (SPA) do bairro de Galileia, mas não conseguiu ser atendido por um médico, devido à superlotação da unidade.

Logo no início dos sintomas, todos da família tomaram o vermífugo ivermectina e o antibiótico azitromicina. Os dois medicamentos são comprovadamente ineficazes para prevenção e tratamento da covid-19, segundo a OMS, os infectologistas e as associações médicas especializadas.

444 paiN Gaming - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Ele no corredor do hospital, no dia 22, esperando a vaga para internação no dia seguinte
Imagem: Arquivo Pessoal

Com falta de ar, 444 piorou e precisou ser levado em uma ambulância ao Hospital e Pronto Socorro Dr. Aristóteles Platão Bezerra de Araújo. A família teve de adquirir um cilindro de oxigênio para garantir o bem-estar do jogador durante a espera por um leito. Era 22 de janeiro, dias depois do ápice da crise de desabastecimento de oxigênio na capital amazonense.

Transferido para a enfermeira no dia seguinte, teve uma melhora, segundo a mãe. Mas, no dia 30, um médico disse que o rapaz deveria ser intubado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), por causa do comprometimento de um dos pulmões. Como 444 apresentava boas condições clínicas e oxigenação, a mãe negou o procedimento.

"Parece que naquele dia eu condenei meu filho à morte", lamenta Nelsa. Segundo ela, dali em diante, 444 passou a não ter o tratamento adequado. "Eles [funcionários do hospital] simplesmente nos largaram a mão. Começou a faltar medicação, não davam mais os remédios na hora certa. Eu tive que pedir medicamentos aqui fora, com a família, comprar bombinha e ir atrás do fisioterapeuta. Minha filha contratou um terapeuta particular para ir lá no hospital".

O jogador começou a apresentar ansiedade e, em meio a uma série de falhas na comunicação sobre o tratamento, passou a ter quedas na oxigenação, mesmo com a máscara de oxigênio.

444 paiN Gaming Hospital - Djalma Junior/Secretaria de Estado da Saúde do Amazonas - Djalma Junior/Secretaria de Estado da Saúde do Amazonas
UTI nova inaugurada no Hospital Platão Araújo após a morte de 444
Imagem: Djalma Junior/Secretaria de Estado da Saúde do Amazonas

Em 5 de fevereiro, 444 chegou à casa dos 80% de saturação - o normal é acima de 95%. O quadro dele piorou novamente, mas, naquele momento, a equipe médica informou que não haveria vaga na UTI. A transferência só ocorreu na madrugada do dia 6. O jovem precisou ser intubado, já que tinha saturação abaixo de 30%. Era tarde demais. Ele morreu naquele mesmo dia.

"Nós estamos sofrendo muito", desabafa Nelsa, sem conseguir segurar as lágrimas. "Todo dia eu choro. Sinto falta do meu filho. É uma tristeza só no meu coração, eu não durmo direito, eu não como direito".

Sua morte causou enorme repercussão na comunidade de DotA 2. Muitos colegas e fãs lembraram sua personalidade, sempre atencioso e preocupado com o próximo.

É assim que a mãe também o descreve. "Meu filho se preocupava não só com a família aqui de casa, mas com todas as famílias e com os amigos. O Anderson era uma pessoa bondosa, carismática. Ele era um anjo", exalta Nelsa. "Eu sempre sonhei que meu filho pudesse ser reconhecido, mas não desta forma, por meio da morte trágica dele".

Responsável pelo Hospital e Pronto-Socorro Platão Araújo, a Secretaria de Estado da Saúde do Amazonas disse que "lamenta o falecimento do paciente e ressalta que todos os esforços foram realizados durante a internação".

"A direção [do hospital] destaca que, durante todo o período que permaneceu internado, o paciente recebeu atenção da equipe multiprofissional da unidade, assim como as medicações necessárias conforme a evolução do quadro clínico, não havendo tratamento diferenciado daqueles indicados pelo médico responsável", sustentou a secretaria, em nota ao START.

Outros casos

444 paiN Gaming - Divulgação/paiN Gaming - Divulgação/paiN Gaming
Imagem: Divulgação/paiN Gaming

Na LOUD, houve nove infectados entre os mais de 140 funcionários administrativos. Um jogador de emulador no Free Fire e quatro atletas do time B de LoL também foram infectados. Parte deles apresentou dores pelo corpo e tosse leves e outra parte nem sequer teve sintomas.

Os jogadores de LoL testaram positivo para a doença ao chegarem ao centro de treinamento para dar início à preparação para a temporada 2021, em dezembro passado.

Por meio da assessoria de imprensa, a LOUD informou que alugou imóveis para que as pessoas infectadas fossem isoladas dos companheiros e realizou testes semanais até que os resultados dessem negativo duas vezes.

Em 11 de março, a INTZ anunciou no Twitter que jogadores de Free Fire e Rainbow Six haviam sido diagnosticados com covid-19, sem informar a quantidade e o estado de saúde deles.

No comunicado, a INTZ alegou que estava à disposição da imprensa para qualquer esclarecimento. Contudo, a organização não respondeu aos reiterados pedidos de informações do START.

B4 Valorant First Strike 2020 - Divulgação/Riot Games Brasil - Divulgação/Riot Games Brasil
Uso de máscara é uma das medidas para prevenção de infecção
Imagem: Divulgação/Riot Games Brasil

KaBuM, Cruzeiro Esports, Team Vikings, Santos e-Sports, Ninjas in Pyjamas, Fluxo e GODSENT informaram não terem tido casos confirmados de covid-19.

Confira a lista de clubes e números de casos reportados (dados fechados em 25 de março de 2021):

  • B4: 4 jogadores e 3 administrativos
  • Black Dragons: 2 jogadores e 1 administrativo
  • Corinthians: 1 administrativo
  • Havan Liberty: 2 administrativos
  • Imperial: 1 jogador
  • INTZ: número não informado
  • LOUD: 5 jogadores e 9 administrativos
  • MiBR: 1 administrativo
  • RED Canids: 1 treinador
  • Rensga: 2 administrativos
  • SG: 1 jogador e 1 administrativo
  • Sharks: 1 administrativo
  • Team One: 1 administrativo
  • Vivo Keyd: 1 administrativo
  • Vorax: 9 jogadores e técnicos e 5 administrativos
  • W7M: 1 administrativo

Sem respostas

Gamelanders First Strike 2020 Riot Games Brasil - Divulgação/Riot Games Brasil - Divulgação/Riot Games Brasil
Imagem: Divulgação/Riot Games Brasil

No total, sete clubes não responderam aos questionamentos do START. Além da INTZ, FaZe Clan, Flamengo Esports, FURIA, Gamelanders, GOD e Team Liquid não deram retorno.

Uma das principais organizações de eSports do Brasil, a paiN Gaming se negou a informar os dados solicitados.

O clube, que possui representantes em diversas modalidades, se limitou a dizer que segue as recomendações da OMS e que todos os jogadores e funcionários estão trabalhando de maneira remota.

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