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Assédio e preconceito: mulheres encaram dificuldades para virar pro players

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Imagem: Divulgação

Théo Azevedo

Do UOL, em São Paulo

23/08/2016 10h00

Seja no "League of Legends" ou "Counter-Strike", dentre tantos outros jogos, o Brasil mostra cada vez mais paixão pelo eSport – torneios de "LoL" atraem milhares de espectadores, enquanto no "CS" os brasileiros, milionários, estão no topo do mundo.

Para as mulheres que tentam trilhar uma carreira profissional no eSport, contudo, a situação é bem diferente, e envolve vencer não apenas as partidas, mas também adversários como o preconceito, o assédio etc.

O UOL Jogos conversou com algumas pro players brasileiras sobre como é jogar (ou tentar jogar) competitivamente por aqui:

"O cenário exclui muitas meninas, fazendo-as se esconder atrás de nicks masculinos"

Nichole Merhy - Pro player de Rainbow 6 - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Nicolle "Cherrygumms" Merhy, jogadora profissional de "Rainbow Six Siege"
Imagem: Acervo pessoal

Sou a única mulher da América Latina a jogar "Rainbow Six Siege" profissionalmente. Sempre fui muito competitiva, querendo o 1º lugar em todas as modalidades que já competi. Fico honrada por representar o nome feminino nesse cenário tão masculino, mas me entristece saber que vários talentos entre as meninas não estão sendo vistos simplesmente por serem mulheres.

O cenário exclui muitas meninas, fazendo-as se esconder atrás de nicks masculinos, justamente para não sofrer assédio ou preconceito. Meu desejo para o futuro é que esse pequeno joguinho vire um grande esporte, com respeito e dignidade.

Nicolle “Cherrygumms“ Merhy, 19 anos, jogadora profissional de "Rainbow Six Siege" e estudante de Direito

“Não é novidade que a comunidade gamer é um ambiente bem hostil para mulheres”

Luana "Ludarc" Felix - Pro player de "Smite" - Acervo Pessoal - Acervo Pessoal
Luana "Ludarc" Felix, jogadora profissional de "Smite"
Imagem: Acervo Pessoal

Passei a me considerar uma jogadora profissional de “Smite” quando meu time se classificou para a Brazil Gaming League (BGL). Meu sonho desde criança é ser pro player, mas não posso me dedicar 100% ao jogo por causa da faculdade e do estágio, onde já estou bem encaminhada e com uma excelente perspectiva de carreira.

Tento conciliar ao máximo e dou o melhor de mim em ambos os caminhos em que estou envolvida. No “Smite”, patrocínio e premiação não mudam para as mulheres, já que os torneios não levam em consideração o sexo da pessoa- e eu acho isso muito válido, já que se usa os dedos para jogar e não outra coisa. Não é novidade que a comunidade gamer é um ambiente bem hostil para mulheres.

Se eu dissesse que nunca sofri nada seria a mentira do século, pois enfrento o machismo constantemente, desde piadas feitas por pessoas querendo chamar atenção até perseguição no jogo e na vida real. Só que nada disso é forte o suficiente para me abalar e me fazer desistir do sonho. Podem chorar, “gamers machistinhas”: só estou começando nesse novo mundo.

Luana “Ludarc” Felix, 20 anos, jogadora profissional de "Smite" e estudante de Matemática Aplicada e Computacional

“Há empresas que se interessam em patrocinar times femininos, nem que seja pelo marketing positivo”

Claudia Santini - pro player de "Conter-Strike" - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Claudia "santininha" Santini, jogadora profissional de "Counter-Strike: Global Offensive"
Imagem: Acervo pessoal

Comecei a jogar "Counter-Strike" aos 14 anos, influenciada pelo meu irmão, na febre das lan houses. Naquela época as pessoas não entendiam como isso podia dar em algo, mas continuei jogando e estudando. Demorou até engrenar, mas viajei para França e Canadá para disputar o campeonato feminino da ESWC (Electronic Sports World Cup), e depois para os Estados Unidos, Alemanha e Portugal.

Ser mulher no jogo é como ser mulher em qualquer situação na qual se tenha um pouco de atenção e poder com algo que você faz: existe preconceito e machismo e as mulheres são, sim, desvalorizadas. Mesmo assim, hoje em dia já há empresas que se interessam em patrocinar times femininos nem que seja pelo marketing positivo.

Claudia “santininha” Santini, 28 anos, jogadora profissional de "Counter-Strike: Global Offensive" e estudante de Direito

“Gostaria muito de levar o eSport como profissão, mas estamos muito distantes disso”

Camila "cAmyy" Natale, pro player de "Counter-Strike: Global Offensive" - Acervo Pessoal - Acervo Pessoal
Camila "cAmyy" Natale, jogadora profissional de "Counter-Strike: Global Offensive"
Imagem: Acervo Pessoal

Minha vida é bem normal: tenho amigos, namorado, saio para me divertir, trabalho e estudo. Não sei se posso ser considerada pro player, pois infelizmente eu não consigo viver do jogo. Jogo desde 2002 mas só uns dois anos atrás é que eu passei a me dedicar ao competitivo. Foi quando vi o quanto queria me esforçar e me dedicar a isso, mesmo já sendo mais velha que a maioria das meninas, chegando a dividir meu trabalho e estudos com os treinos diários em equipe.

Em 2015 conseguimos uma vaga para o mundial feminino de "CS: GO", a ESWC Montreal, no Canadá. Na época nosso patrocinador nos ajudou muito pouco, então tivemos que nos virar para conseguir dinheiro. Desde então as coisas melhoraram um pouco, o reconhecimento aumentou e, em abril deste ano, participamos da IEM 2016, na Polônia. Gostaria muito de levar o eSport como profissão, mas estamos muito distantes disso ainda.

Não dá nem pra comparar as oportunidades do masculino para o feminino, e não é só aqui no Brasil: lá fora mesmo vemos a grande diferença de premiações de um para outro. Os patrocinadores não vão investir em um cenário tão pequeno, com pouca visibilidade e premiações, ainda que existam aqueles que visam o marketing com as meninas.

Camila "cAmyy" Natale, 25 anos, jogadora profissional de "Counter-Strike: Global Offensive"

“Há oportunidades de sucesso se você tiver foco e dedicação”

Jessica Pellegrini, jogadora profissional de "Counter-Strike: Global Offensive" - Acervo Pessoal - Acervo Pessoal
Jessica "fly" Pellegrini, jogadora profissional de "Counter-Strike: Global Offensive"
Imagem: Acervo Pessoal

Minha carreira no eSport começou quando eu tinha 12 anos e meu pai me apresentou ao “CS”. Joguei meu primeiro campeonato em 2012, na época de "Counter-Strike 1.6" e no ano seguinte migrei para o "Global Offensive". Passei a levar a carreira a sério e joguei em diversos times, até disputar o campeonato mundial, a ESWC 2015.

Ser mulher no cenário e ao mesmo tempo profissional é muito difícil. Sempre houve preconceito em questão de a mulher ser inferior ao homem, mas hoje em dia estou acostumada e vejo que vários meninos do cenário já apoiam e torcem pela gente. Para mim, que começou do zero, acho que sempre há oportunidades de sucesso se você tiver foco e dedicação.

Jessica "fly" Pellegrini, 21 anos, jogadora profissional de "Counter-Strike: Global Offensive" e estudante de Engenharia Civil

“Preconceito só por ser garota todas nós, jogadoras, sofremos”

Bruna Guerreiro Becker Legey, editora do site Girls of the Storm - Acervo Pessoal - Acervo Pessoal
Bruna Guerreiro Becker Legey, editora do site Girls of the Storm
Imagem: Acervo Pessoal

Desde o início da minha história com jogos almejei fazer e ser o melhor que eu puder. Em "World of Warcraft", o primeiro jogo em que me empenhei, descobri que era capaz de jogar em altos níveis de desempenho se me esforçasse o suficiente. Com isso em mente, fui parar em uma das maiores guildas do meu servidor.

No "Heroes of the Storm", fui atrás de me tornar uma boa jogadora: conheci alguns dos jogadores do cenário competitivo e, eventualmente, descobri que jogar no nível mais alto é o que eu mais gostava de fazer no "Heroes" também. Foi questão de tempo até estar de fato em uma equipe e querer competir com os melhores da América Latina. Preconceito só por ser garota todas nós, jogadoras, sofremos, mas raramente esbarro com alguma situação abusiva. Já aconteceu de outras jogadoras comentarem que alguém do outro time me criticou, geralmente por motivos de “não acredito que eu estou perdendo para uma garota”. Não tem problema: passou a acreditar.

Bruna Guerreiro Becker Legey, 20 anos, estudante de Contabilidade, editora do site Girls of the Storm e jogadora competitiva de "Heroes of the Storm"

Nos games ou a garota joga 100% impecável ou ela tem que ‘voltar pra pia e lavar louça’”

Dayane Cris de Andrade, jogadora competitiva de "Hearthstone" - Acervo Pessoal - Acervo Pessoal
Dayane Cris de Andrade, jogadora competitiva de "Hearthstone"
Imagem: Acervo Pessoal

Minha relação com jogos é uma história de amor antiga: muito do que sou hoje foi moldado pelas experiências e novas amizades que fiz ao longo dos anos dentro dos jogos. Jogo desde criancinha, vício que seguiu pela adolescência e continua na minha vida adulta. Ser mulher e jogar "Hearthstone", por mais que a comunidade do jogo seja menos tóxica que o de costume, ainda é muito complicado.

A competência e a forma como muitas garotas são tratadas no cenário depende do “quão” bonitas elas são. Muito é exigido de nós. No universo dos games ou a garota joga 100% impecável ou ela tem que “voltar pra pia e lavar louça” e isso é cansativo e muito desestimulante. O espaço para "crescer" não existe, você já precisa aparecer com a bagagem completa. Enquanto as pessoas não entenderem que comentários do tipo “não te preocupe com SUA oponente, ela é uma garota” são ofensivos, as coisas não vão mudar.

Perder pra uma garota é motivo de piada e, se você vence, foi provavelmente por algum dos dois motivos: ela deu sorte ou você deu muito azar, NUNCA porque ela jogou melhor que você. Já recebi convite para integrar um time, mas o convite veio com “bônus” de segundas intenções. É difícil ser levada a sério. Eu não diria que seria possível vislumbrar uma carreira no eSport, visto que eu não teria tanto tato pra lidar com o cenário tóxico, mas não nego aquela pontinha de vontade de competir com os grandes, de mostrar minha capacidade. Mas o maior problema tem sido a motivação: pra que passar por tudo isso? Vale a pena?

Dayane Cris de Andrade, 25 anos, estudante de Biomedicina e jogadora competitiva de "Hearthstone"

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