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Ricardo Feltrin

Opinião: MTV virou abrigo perpétuo dos piores reality shows

Cena de "Rio Shore"  - Reprodução / Internet
Cena de "Rio Shore" Imagem: Reprodução / Internet
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

09/01/2022 00h09

Para quem, como este colunista, viu a MTV chegar ao Brasil há cerca de três décadas, mudar a linguagem da TV e atrair um público órfão de atrações (os jovens), é com enorme desgosto que faço esta crítica.

Sempre tive uma relação de respeito e até de afeto pela MTV. Afinal ela fez parte da minha vida e até me fez ter interesse em escrever sobre TV. Era uma emissora que nasceu e durante muitos e muitos anos foi sinônimo de inteligência e criatividade.

Por isso é angustiante ver no que esse veículo revolucionário se transformou: num amontoado de asneiras e de participantes ocos de seus infindáveis "programas de pegação".

Para se ter uma ideia, de segunda a segunda a MTV exibe de 13 a 16 horas diárias apenas desse tipo de programa. "Rio Shore", "Floribama Shore", "Geordie Shore", "Estúdio Shore", além das indefectíveis e infindáveis reprises de "De Férias com o Ex".

Vejam bem, longe de mim fazer qualquer juízo de valor moral sobre o conteúdo. Quem quer se pegar, que se pegue. Quer fazer suruba, que faça. O problema é o "emburrecimento" que a emissora se submete com tudo isso.

E se vocês, leitores e leitoras, acham que esse tipo de atração dá ibope, estão redondamente enganados: a emissora é mais um traço de audiência.

A MTV padrão (graças a Deus existe uma outra MTV que ainda não abandonou a música) se idiotizou voluntariamente. Baixou seu nível porque quis ou por preguiça.

Os participantes de seus reality shows parecem os mesmos, seja em qual programa for: não falam nada de útil, nada que preste, e não pronunciam nem sequer uma frase destacável e tampouco iniciam uma discussão de nível, digamos, médio.

Parecem um bando de metidos a machos ou fêmeas "alfa" disputando quem fala mais sandices e frases vazias. Isso quando não há ameaças literais de agressão e até mesmo chegam às vias de fato (um participante chegou a dar uma cabeçada em outro, mas a direção pelo jeito se fingiu de morta).

Se fingiu, não. A MTV, como a conhecíamos, já morreu há anos e o que está sendo veiculado na TV paga hoje é o espectro insepulto de um veículo que já fez diferença na mídia e no mercado.

Desperdiçar 13, 14, 15, 16 horas de programação com gente oca, desagradável, arrogante e sem freios —e que parece estar falando mascando chiclete o tempo todo— é uma tragédia não só para a TV, mas para uma marca que fez história.

É só bate-boca, barraco, xingamentos e egocentrismo exacerbado de gente cascuda (e, repito, oca). Um se acha melhor que o outro.

Na opinião desta coluna, a aposta nos "shores" é apenas preguiça mental ou acomodação pura dos executivos.

No fim das contas, e para não ser injusto, os diálogos e discussões dentro dos reality shows da MTV até conseguiram realizar um milagre: fazem o "BBB" parecer um encontro de físicos nucleares ou de poetas ibéricos.

Que triste fim, hein, dona MTV?

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