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OPINIÃO

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Game of Thrones segue como fenômeno que ninguém conseguiu repetir

Daenerys (Emilia Clarke) no polêmico último episódio da série - Divulgação
Daenerys (Emilia Clarke) no polêmico último episódio da série Imagem: Divulgação

Beatriz Amendola

De Splash, em São Paulo

17/04/2021 04h00

No aniversário de dez anos da estreia de "Game of Thrones", comemorado neste sábado, é difícil não pensar no final apressado e capenga que a série ganhou há apenas dois anos. Mas, no geral, o que importa mesmo é outra coisa: a produção permanece como um fenômeno cultural imbatível.

Seus momentos marcantes, como o Casamento Vermelho e a morte de Ned Stark, entraram para a história da TV e da cultura pop, transformaram-se em memes e ganharam incontáveis sátiras e homenagens em outras produções. Nomes tirados da saga, como Arya, tornaram-se febre entre bebês e pets. A série se sagrou recordista absoluta do Emmy, o Oscar da TV, e da pirataria.

A marca Game of Thrones também foi parar em toda sorte de produtos, de bonecos Funko a garrafas de uisque. Segundo a revista "Forbes", a série foi licenciada mais de cem vezes, o que deve ter movimentado cifras astronômicas.

Até hoje, nenhuma outra série conseguiu repetir o sucesso de "GoT" em toda a sua extensão. E continua extremamente improvável que isso aconteça.

Escrevi em 2019, antes de o último capítulo da saga de Jon Snow (Kit Harington), Daenerys (Emilia Clarke) e companhia ir ao ar, que ele representava o fim de uma era na TV. E isso segue verdade.

"Game of Thrones" era a série que fazia o mundo parar para assistir aos seus episódios. Ela cresceu vertiginosamente, mesmo com o fortalecimento do streaming e com a facilidade de ver TV onde e quando você quiser.

E rendia momentos assim, como visto nesse compilado de reações à morte de Jon:

Não é exagero.

Só nos Estados Unidos, a primeira temporada teve uma média de 2,2 milhões de espectadores por episódio. O último episódio da série, recordista de audiência, foi visto por 19,3 milhões de pessoas —cerca de nove vezes mais.

Esses dados se referem ao dia da exibição original, sem contar quem foi assistir nos dias seguintes. Somando tudo, os números se tornam ainda mais expressivos. Em média, 44,2 milhões de espectadores viram cada episódio da temporada final.

A concorrência até que tentou, mas não deu.

Mirando no nicho de "Game of Thrones", a Netflix fez uma primeira investida em uma trama épica com "Marco Polo", lá em 2014, mas ficou a ver navios, e a série foi cancelada após duas temporadas.

No fim de 2019, a plataforma se saiu melhor com "The Witcher". A atração estrelada por Henry Cavill chegou a 76 milhões de lares em suas quatro primeiras semanas, tornando-se uma das maiores estreias da Netflix.

Henry Cavill em 'The Witcher' - Reprodução - Reprodução
Henry Cavill em 'The Witcher'
Imagem: Reprodução

Mas a repercussão de uma série que divulga todos os seus episódios ao mesmo tempo é muito diferente do barulho que faz um programa que constrói sua história semanalmente.

Ainda que milhões de pessoas tenham se divertido com os grunhidos de Geralt de Rivia, não houve uma chance para uma catarse coletiva durante as aventuras do bruxo. Algo quase impossível, já que cada um assiste aos episódios em seu próprio ritmo.

Não que construir uma base fiel de fãs, semana a semana, seja fácil.

A própria HBO sabe disso. "Westworld", um de seus maiores investimentos pós-"GoT", chegou a bater 2,2 milhões de espectadores nos EUA em sua primeira temporada, mas ficou abaixo de 1 milhão na terceira, lançada no ano passado. A fantasia "His Dark Materials", embora elogiada, tampouco encontrou a mesma repercussão, apesar de também ser baseada em uma famosa saga literária: a trilogia "Fronteiras do Universo", de Philip Pullman.

A experiência mais bem-sucedida, até o momento, veio do Disney+, com "WandaVision". A série, lançada no início deste ano, tinha o bônus de ser centrada em dois personagens já conhecidos e parte de uma das maiores franquias do mundo: o Universo Cinematográfico Marvel, que já arrecadou mais de US$ 20 bilhões nas bilheterias de cinema.

Elizabeth Olsen como Wanda Maximoff em 'WandaVision' - Reprodução - Reprodução
Elizabeth Olsen como Wanda Maximoff em 'WandaVision'
Imagem: Reprodução

A trama intrigante e misteriosa fez com que, ao longo de oito semanas, os espectadores enchessem as redes sociais de teorias e comentários, o que levou "WandaVision" a se tornar a série mais popular do mundo em seu quinto episódio, de acordo com a consultoria Parrot Analytics. Ainda não há dados consolidados para a temporada completa, mas, de acordo com a consultoria Nielsen, os dois primeiros episódios tiveram 6,5 milhões de visualizações completas.

Como uma nova temporada ainda é incerta, no entanto, é pouco provável que a série da Marvel encontre espaço para crescer como "Game of Thrones", mas ela pode criar um bom precedente para as outras produções desse universo que estão vindo aí. Segundo a Disney, que não divulga números, "Falcão e o Soldado Invernal" se tornou a maior estreia da história do Disney+.

No fim das contas, a verdade é que caçar a próxima "Game of Thrones" é uma missão improdutiva.

A criação de David Benioff e D.B. Weiss, baseada nos livros de George R.R. Martin, conseguiu seduzir o público com uma boa história cheia de reviravoltas instigantes que subvertiam os clichês da TV, boas atuações e uma produção de alto nível. E chegou no momento certo.

A TV mudou fundamentalmente desde então, e os próximos fenômenos vão acontecer em cenários muito diferentes daqueles em que assistimos à série. E tudo bem. Goste ou não, o lugar de "Game of Thrones" na história está guardado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL