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Ismael Ivo começou dançando nas ruas: 'Necessidade de dizer alguma coisa'

O bailarino e coreógrafo Ismael Ivo - Reprodução/Instagram
O bailarino e coreógrafo Ismael Ivo Imagem: Reprodução/Instagram

De Splash, no Rio

09/04/2021 12h39

O bailarino e coreógrafo Ismael Ivo, que morreu na noite de ontem, aos 66 anos, por complicações da covid-19, assumiu a direção do Balé da Cidade do Teatro Municipal de São Paulo em 2017, atuou durante mais de 30 no exterior e tinha uma história de superação.

Nascido na zona leste de São Paulo, ele encontrou na dança, ainda menino, um caminho de vida e uma forma de lutar contra o preconceito racial e se comunicar com as pessoas. Começou a dançar na rua Treze de Maio, no Bixiga, em São Paulo. Como menino negro, Ismael disse que não tinha representatividade, modelos em que poderia se espelhar para alcançar.

"Tinha necessidade de dizer alguma coisa enquanto um adolescente negro. Muito jovem decidi que tinha que conquistar um espaço, tinha uma voz que eu queria que fosse ouvida e valorizada enquanto homem negro, como um produtor de novas ideias. Se eu não me valorizasse eu não ia conquistar os espaços. Fui contruindo essas oportunidades", disse no "Roda Viva" em 2018.

Ismael contou em depoimento à Trip TV que encontrou originalidade para em seguida ter capacidade de se inovar na arte.

Encontrei na dança uma forma de eu me expressar enquanto pessoa, como um bailarino negro. Resolvi ser artista por pura pretensão porque historicamente eu não estava relegado a isso, tive que fazer o meu próprio caminho e as pessoas então me aceitarem, tive que me empurrar.

O coreográfo conquistou espaços no mundo por mérito próprio, graças ao seu talento e autoconfiança.

"O melhor de mim é o acreditar sem garantias, tomado de um objetivo. Alguma coisa tinha que acontecer na minha vida, não sabia o que. Vejo que tive possibilidade de criar 75 balés, como consegui isso? Eu não sei, ainda estou me descobrindo, tendo novas idade".

Quando perguntado uma vez por um jornalista qual legado deixaria, Ismael respondeu:

Digam a todo mundo que eu tentei, tentei mesmo. Parti da teoria da revindicação para ação, para me construir, para adentrar. Não foi me dado nada de mãos beijadas. A cultura para mim é um veículo de transformação.

O bailarino reforçava a importância da inclusão na cultura, no investimento na economia criativa e a valorização da cultura negra como enriquecedora para uma nação.

"Não estou interessado em rótulo em uma caixinha separada onde se da uma oportunidade. Prego uma política de inclusão e visibilidade".

'Não precisei virar estrangeiro'

O coreógrafo foi trabalhar no exterior nos anos 80 após ganhar uma bolsa de estudos para estudar em Nova York. Atuou nos EUA, Áustria e Itália. dirigiu por oito anos o festival de dança da Bienal de Veneza. Foi o primeiro negro a comandar o o Teatro Nacional Alemão, em Weimar.

"Fui para fora, mas não precisei me tornar um estrangeiro, para todo sempre Macunaína, foi essa a minha base e com esta base comecei a me abrir e me acercar do que era o mundo em arte, estética e tendências", disse em entrevista ao "Jornal da Gazeta" em 2017.

Ismael destacou a importância da cultura como um agente transformador. "A economia criativa é muito importante, criar todo tipo de oportunidade. Se não quer discutir sobre o preconceito, sobre racismo, você tem que apostar na criatividade dessas pessoas, dar visibilidade, condições de transformar a economia desse país".