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Pedro Antunes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Não quer sofrer por amor? Fuja da session de Ludmilla e Gloria Groove

Prepare o coração, porque Ludmilla e Gloria Groove vão machucá-lo - Montagem: Pedro Antunes
Prepare o coração, porque Ludmilla e Gloria Groove vão machucá-lo Imagem: Montagem: Pedro Antunes
Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

20/07/2021 14h10

"Dá pra perceber que os nossos planos não têm nada a ver", canta Ludmilla em "Modo Avião", música lançada por ela no álbum "A Danada Sou Eu", de 2016. Machuca, não é?

Desta vez, é Gloria Groove quem segue nos próximos versos: "Melhor você parar de sonhar. Eu não sou assim do tipo que quer um final feliz. Melhor você parar pra pensar."

Rapaz de quase 30 anos, Carlinhos já ouviu estas frases algumas vezes, mas não consegue evitar. É o que chamam hoje de "boy emocionado".

Alguns dates, encontrinhos, amassos, beijos e pronto, está apaixonadaço. Ouve o aviso dos amigos, mas não consegue se segurar. Começa a enviar mensagens de "bom dia" e "boa noite", dá detalhes desnecessários da sua rotina, reage a todos os stories no Instagram e convida para assistir a algum filme na Netflix com pipoca no sábado a tarde.

Aliás, convites para as tardes de sábado são sinônimos de quem quer coisa séria. Na pandemia, então, é quase um pedido de casamento.

Carlinhos é um sofredor profissional. Sem terapia, ele vai seguir machucando o sentimento dele e de outros por aí.

Outra solução é gastar a vontade pela sofrência com a nova edição do "Lud Session", com Ludmilla e Gloria Groove rasgando corações com cinco músicas (duas de cada e uma do Luiz Lins) cantadas em sequência.

O medley pode ser ouvido aqui. Mas, aviso, é uma pancada atrás da outra, como um ataque de boxeador.

Escolhidas para este petardo de quase dez minutos de duração são: "Modo Avião" e "700 Por Hora", de Ludmilla; "A Tua Voz e "Radar", de Gloria; e "A Música Mais Triste do Ano", de Luis Lins. A produção musical é assinada por Rafael Castilhol e a banda, meus amigos, é espetacular.

Só os sofredores realmente podem entender as nuances deste medley. Em cada canção, um tipo de dor de amor ganha protagonismo.

"Modo Avião" traz o caso de Carlinhos, o "boy emocionado", que tenta brincar de amor com alguém que já avisou que não quer nada disso.

"A Tua Voz", devastadora, reverbera naquele desespero de estar sozinho em uma madrugada na qual você precisava de uma companhia específica - e essa pessoa já está acompanhada, obviamente.

Doeu aí? Se ainda não, espere que faltam mais três canções.

"700 Por Hora" é sensual. Sabe o tal "amor de transa"? Esse, quando bate, é difícil de escapar. "Reclama, mas gosta do meu estilo independente", cantam elas.

Com "Radar", Gloria Groove canta a superação de um pé na bunda, mas há um amargor em "olhar as fotos do passado", como ela mostra na faixa, e perceber que o amor do outro já não estava ali.

O flow de Gloria neste trecho é destruidor:

"Lucidamente vivia na nossa utopia, ahn
Mas 'cê me deixa sem graça
Brinca com o coração, isso é trapaça
Lembro a noite toda nós fazendo fumaça
Eu fico mal quando o efeito da cachaça passa"

Se o coração segue inteiro, "A Música Mais Triste do Ano", chega para criar aquele buraco. Aliás, fique atento ao Luis Lins, cuja poesia é certeira e afiada.

"Amor, quando nosso vinho amargar ou perder o sabor
Quando a maquiagem borrar e as fotos perderem a cor
Tu ainda vai querer me aquecer quando não me restar nem calor?"

Sabe?

"Ainda vai tentar me entender quando eu não fizer mais sentido
E ficar comigo quando tiver visto o pior lado de quem eu sou?"

Iniciado no mês passado, o "Lud Session" estreou com um medley de Ludmilla e Xamã, também bom. A ideia é criar versões ao vivo repaginadas de canções nestes encontros intimistas.

O vídeo lançado há uma semana, com Lud e GG, ressignifica a sofrência contemporânea. Tão ligada ao country/sertanejo, a sofrência ganha espaço no pop e no R&B. Com duas das melhores vozes que temos no mainstream cantando-a, a dor é invejável.

Há um conforto inexplicável quando algum verso consegue traduzir exatamente o que você sente ou sentiu, como se jogar em uma cama grande, cheia de travesseiros e cobertores, em uma tarde fria e chuvosa.

Até quem tem o coração preenchido e quentinho vai desejar tê-lo partido ao apertar o play. (Mas não faça isso, ok?)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL