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Pedro Antunes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Além dos memes, Supla lançou melhor álbum da carreira com 'Suplaego'

Supla - Divulgação
Supla Imagem: Divulgação
Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

26/03/2021 17h31

A internet descobriu que Supla é um cara legal - com respostas fora da caixinha, maneirismos em inglês e um jeitão de ídolo acessível mostrado recentemente nos stories do Instagram.

Não os culpo, ele é divertido, mesmo.

Não foram poucas as vezes que, neste 2021, o conhecido como Papito ou Charada Brasileiro foi parar nos trending topics porque uma geração inteira não tinha ideia de quem era essa figura de cabelos platinadíssimos e meticulosamente espetados.

Ainda bem que estão descobrindo esta figura interessantíssima da música brasileira surgida com a banda Tokyo, presente no imaginário durante os anos 80, e em carreira solo, iniciada em 1989, com um álbum de nome "Supla".

Rever essas datas me fez pensar que faz sentido que essa galera não tenha ideia quem seja o Supla e suas peripécias nos anos 90 e 2000. Eles nasceram em depois de 2001, é claro.

Os responsáveis por colocar o nome do artista constantemente entre os termos mais buscados no Google é uma galera que genuinamente está buscando mais informações sobre o artista apelidado de Papito.

Obviamente, Supla é uma figura nova pra essa turma.

Assista ao clipe de "Motocicleta Endiabrada", single do primeiro álbum solo de Supla seja transportado pelos anos 80, com toda a pegada pós-punk, a bateria seca, os ecos estouradaços em voz e guitarras.

O Eduardinho, filho dos políticos Eduardo Suplicy (PT) e Marta Suplicy (atualmente sem partido), é uma figura única na música brasileira. Pelo sobrenome pomposo e com histórico de ser endinheirado, há que suponha que Supla é daqueles artistas que pagam seu caminho na música.

E, até onde apurei, não é bem assim. Supla sequer tem assessor de imprensa atualmente. Ele mesmo telefona (e insiste caso você não atenda) para os jornalistas a cada novo lançamento. Manda as fotos de divulgação, esboça os releases, enfim.

Ele realmente faz tudo.

É importante que meu jovem leitor saiba que Supla participou do segundo melhor reality show da TV brasileira, a primeira temporada de Casa dos Artistas (o primeiro lugar está com No Limite).

Nos anos 80, ele era o punk rocker filho de dois políticos do PT. Nos anos 1990, ele foi galã e estrelou "Uma Escola Atrapalhada", ao lado de Os Trabalhões, Angélica, Selton Mello, entre outros.

A fala com a mistura em inglês e português não é barra forçada, não. Ele foi alfabetizado em inglês., mesmo, e voltou a morar no Estados Unidos nos anos 90 quando a popularidade dele estava passando dos limites.

Acredite, portanto, que ele "não se perdeu no personagem", como dizem, porque até nas mensagens de texto ele mistura as duas línguas.

Supla já tocou no Rock in Rio (em 2001), compôs com o Cazuza e conheceu Bob Gruen, fotógrafo da bonita exposição "John Lennon em Nova York por Bob Gruen", que estava em exibição no MIS, em São Paulo, antes da pausa por conta da pandemia do covid.

Aliás, disse ele que Gruen ficou emotivo ao ouvir uma versão recente de "Jealous Guy", de John Lennon, publicada em abril de 2020/

Além da participação em Casa dos Artistas, é importante lembrar também das citações na MTV brasileira, durante o programa "Piores Clipes do Mundo", apresentado por Marcos Mion, que fizeram de Supla um ícone torto e trash.

Mas, com o combo, o álbum "Charada Brasileiro" se tornou icônico. Mesmo sem a distribuição de uma grande gravadora e apoio de lojas de discos, o "Charada" vendeu uma quantidade estimada de 300 mil cópias em bancas de jornal, amparado por hits "O Charada Brasileiro", "Green Hair (Japa Girl)", "Humanos" e "Garota de Berlim" (as duas últimas são regravações de outra banda do Papito, Tokyo.

Nova fama

Nos anos 1990 não existia Twitter, nos anos 2000 não havia a caixinha de perguntas e respostas no Instagram. O que o público está vendo agora é o que o Supla já mostrava pra imprensa e, também, nos discos. "Suplaego" é um dos melhor (se não for o melhor) álbum do Papito.

O trabalho saiu no ano passado e foi o que motivou Supla, aliás, a tentar uma comunicação direta com o público. Nos stories, ele pede "vamos falar sobre o álbum", e anarquicamente, o pessoal interage com dúvidas de sexo, pergunta sobre relacionamentos, faz convites curiosos e tudo mais.

A popularidade do Supla foi tanta que criaram um movimento para que ele gravasse com a Anitta. Peguei o telefone e liguei na hora quando soube dessa história. Ele garante que, quando puder ou tiver informações concretas, vai me chamar no WhatsApp. E suponho que ele vá, mesmo.

"Suplaego" é esse disco honesto de um cara que chegou aos 54 anos sem encaretar como o rock and roll. Envolvente, Supla cria os próprios memes para surfar (foi gravar o clipe do single "Kung Fu On You" em Cubatão, em São Paulo, e rendeu esse vídeo abaixo), e faz bom uso dessa obsessão da internet por essas figuras de respostas rápidas e divertidas.

No álbum, Supla gravou com Karol Conká (antes do nome dela bombar com a participação tumultuada no BBB 21), na divertida música "Sangue Vermelho", e fez uma homenagem às origens punk com "Fall to the Ground".

As melhores do álbum são também as mais vagarosas delas, contudo. Preste atenção na latina "Petals & Flowers" e "Delírio Tropical".

"Suplaego" talvez seja a melhor forma de entrar na cabeça de Supla.

Tem altos, tem baixos, tem maluquices como o vídeo de "Met By Silence" (na qual ele termina usando um estetoscópio pelo centro da cidade), tem momentos trash que fariam Marcos Mion enlouquecer (caso de "Meu Próprio Mundo"), tem versos políticos e outros introspectivos.

É um disco que representa esse cara que, aos 54 anos, mantém há mais de três décadas o cabelo espetado, a atitude punk e segue razoavelmente o conceito do "faça você mesmo". Alguém que liga para contar sobre um novo clipe e, lá pelas tantas, está contando que corre nas madrugadas pelo centro de São Paulo disfarçado para sentir a cidade pulsar.

Um cara gente boa, no fim das contas. Que a internet descobriu agora. E deveria ouvi-lo além de rir dos memes.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL