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Pedro Antunes

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Djonga lança 'Nu' para reencontrar Gustavo

Djonga lança o disco "Nu" - Divulgação
Djonga lança o disco 'Nu' Imagem: Divulgação
Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

13/03/2021 12h36

O telefone acusa uma ligação de origem desconhecida. Atendo.

"Alô, Gustavo?", arrisco.

"Não, é o Djonga".

Gustavo Pereira Marques é o nome de batismo de Djonga, personagem mais brilhante do rap nacional dos últimos quatro anos. Mas não são, de fato, a mesma pessoa. Quem explica é o rapper, ao telefone.

"A gente se apega ao personagem, né, mano? Você precisa fugir do personagem para chegar em você de novo. O Gustavo também é um personagem, porque tudo vira um personagem. Você mostra para sua mulher quem você é, assim ou assado, você não quer mudar isso. Você tem que esquecer o personagem. Aí você se sente mais à vontade e mais confortável. O lance é fugir, mesmo, do personagem."

O papo pode soar confuso, mas vamos chegar à ideia de que existe um Djonga e um Gustavo, embora você reconheça ambos no mesmo rosto do mineiro.

Djonga lança hoje (13) às 12h, o novo álbum. "Nu" é o disco que segue a tradição do rapper de soltar um disco todo dia 13 de março. Se hoje é uma tradição, começou como uma brincadeira. Foi dando certo pro rapper desde "Heresia", o trabalho de 2017.

Seguiu assim em "O Menino Que Queria Ser Deus" (2018), "Ladrão" (2019), "Histórias da Minha Área" (2020). Uma das sequências de discos com fôlego impressionante, intercalada com shows cada vez maiores e a indicação ao prêmio gringo BET Hip Hop Awards, que entrou na história do rap.

"Nu", o quinto álbum, não existiria em 2021, confessa Djonga, mas aconteceu. Até por volta de dezembro de 2020, não teríamos disco neste ano. Mas tudo mudou, como tem mudado.

O curioso é que quando entrevistei Djonga, um ano atrás, para "Histórias da Minha Área", nos despedimos com um "até breve". Era março de 2020, a sensação esperançosa de que a pandemia do coronavírus não se estenderia tanto assim. Durou, ainda dura. Não há nenhuma previsão otimista do Brasil voltar a ter shows com muitas pessoas ainda em 2021.

Se isso mexeu comigo, aqui no meu privilégio de trabalhar de casa, bateu em Djonga ou em Gustavo como um soco de Mohamed Ali, desferido no queixo. Caído direto para a lona. Ele diz sentir saudade dos shows. Fala sobre isso com uma melancolia da ausência que é possível sentir do outro lado da linha, na fala pausada e cansada.

"Não aguento mais."

Foi em dezembro que Djonga fez uma apresentação ao vivo, diante de uma multidão no Baile da VJ, no complexo da Maré, no Rio. O rapper foi criticado nas redes sociais, chegou a se defender ao afirmar fazer uma performance para um pessoal que estava exposto "a um milhão de merdas o tempo todo".

Mas a reação na web, quando bate, é pesada também. "Nu" jamais existiria se não fosse a reação. Talvez até não teríamos um disco do Djonga para ouvir agora, a partir deste sábado. Mas o rapper sentiu o golpe, deixou as redes sociais, calou-se das mil entrevistas.

Traduziu as angústias de ser atacado em versos ferozes. "Nu" é o disco mais arisco do rapper desde "Heresia". Isso não significa que não traga uma ou outra lovesong, mas é um álbum de feridas abertas ainda.

Na capa, é a cabeça do Djonga entregue numa bandeja. O que tem alguns significados diferente, inclusive aquele do rapper caçado, capturado, morto e entregue.

"É uma capa que diz muita coisa ao mesmo tempo. Tem a ver com o fato de eu ter entregado de bandeja para todo mundo. Ter entregado minha vida, minha singularidade, flagra? Ao mesmo tempo, tem o julgamento, o dedo apontado."

Na entrevista que vem a seguir, Djonga revela estar cansado. Cansado de tudo, da vida como ela é, dos julgamentos de Twitter e Instagram e, principalmente, de estar longe dos palcos. Em março do ano passado, ele não previa que estaria assim, combalido, um ano depois.

"Histórias da Minha Área" era um disco de show. Tinha saltos rítmicos que moldariam apresentações do rapper nos palcos. Aqui em "Nu", Djonga convida a gente para dentro da própria cabeça.

Nestes fluxos de consciência transformados em versos, ele se assume humano, com erros, acertos, contradições, angústias e pequenas alegrias. Não é um "disco de show", como o antecessor. É um disco de clausura.

E, possivelmente, o último álbum de Djonga, como você acompanha na entrevista a seguir. "Tem horas que a gente só quer ser livre".

Djonga - Jef Delgado / Divulgação - Jef Delgado / Divulgação
Djonga lança o disco 'Nu'
Imagem: Jef Delgado / Divulgação

Tomei um susto com esse número "desconhecido" me ligando.
"Não é só com você, não. Coloquei essa função no meu celular para ficar assim."

Preparado para dar um monte de entrevistas sobre "Nu"?
"Queria dar poucas entrevistas, para falar a verdade. Acho que já falei demais. No fim das contas, o povo não deixa. A Carol [Pascoal, assessora de imprensa] me arruma um milhão de entrevistas, podcasts, tá ligado?"

E como você está?
"Acho que todo mundo tá vivendo uma coisa mais ou menos parecida. Tem uma galera saindo de casa, o que é uma saída. Eu fiz o show lá e não é a mesma sensação, flagra? Não adianta, mano. Tem que esperar passar o trem. Tem que buscar o que for. Mas a real é que não é a mesma coisa, não é o mesmo mundo. A gente não se acostumou. A gente tem que esperar, temos que esperar essa porra toda passar. Pode ser que a gente viva o resto da vida com máscara no rosto e álcool em gel na mão. Eu detesto máscara, dá claustrofobia. Mas a real é que você pode sair, pode ir ao bar, mas não será a mesma coisa."

Parece que tem alguma coisa quebrada no mundo, né?
"Sinto isso. Mudou. Você está lá, no bar, mas não se sente livre. Você diz que vai pegar na mão desse cara, não vou dar toquinho de cotovelo, mas fica com um trem na cabeça. Existe uma coisa rondando a gente e não sabemos onde está, o que é, só o que ela causa. Uma hora a gente dá uma relaxada, na outra a gente fica assustado de novo. Eu não aguento mais.

Esse disco, "Nu", não estava nos planos, não é?
"Eu não ia fazer esse álbum, não. Rolou um momento diferente, precisava experimentar novas músicas, novos flows, beats. Quis mexer com isso no disco. E retomar coisas que sempre fiz e estava fazendo pouco, aquela pegada do 'Heresia', mais potente e falei, vou fazer. A real é que esse deve ser meu último disco."

Último, último, mesmo?
"É, tá bom, já. Até aqui já está bom. Falei muita coisa que eu queria falar. Agora, eu preciso de um último tempo.

Você vê "Nu" como o seu último disco?
"O último disco. Talvez eu comece a trabalhar com mais singles, com participações."

O que cansou você nessa história?
"Olha, eu não quero ser o cara que reclama de barriga cheia, mas tenho minhas observações. É ótimo ter uma vida com um padrão melhor do que eu sempre tive, poder ajudar meus amigos e outros artistas. Mas eu gosto muito de ser Gustavo, flagra? De me sentir à vontade para falar, ter meu espaço. Ter meu espaço não é estar sozinho, porque não gosto de ficar sozinho, mas é estar com as pessoas que eu gosto e só. Sem ter que fazer média.

Eu gosto de ser o Gustavo e, às vezes, cansa, mas é um carma, também. Não é uma escolha.

Por que não é uma escolha?
Foi uma resposta que veio para mim. Se eu quiser virar surfista, posso ter esse mesmo carma no surfe. É uma personalidade de atrair um papel de liderança, de puxar o bonde até dar merda para galera me xingar. Isso desgasta, né, véi? Tem horas que a gente quer ser só livre, mesmo."

Djonga - Jef Delgado / Divulgação - Jef Delgado / Divulgação
Djonga lança o disco 'Nu'
Imagem: Jef Delgado / Divulgação

Isso tem relação com a repercussão daquele show?
"O pessoal acha que eu saída da internet por causa daquilo. Já queria parar de mexer na internet. A galera que me acompanha na internet já percebia que eu estava diminuindo. Não quero expor meus filhos, minha vida pessoal. Tem coisas que não to a fim de dividir. É louco o pessoal dizer que eu estava com saudade de me ver online. Como assim: 'me ver online?' Que bagulho é esse, saca? Estou buscando algo maior para mim."

O show em dezembro, então, foi só o gatilho para isso?
"O show foi em dezembro, né? Tinha essa ideia o ao passado inteiro. Tirei aquele período para representar, sacou? Não quero ser o cara que tem que aparecer nas redes sociais para concordar com o ponto de vista dos outros, se posicionar, também não quero ser o cara que fica discordando e fica sendo xingado."

"Não quero ser comparado com Bolsonaro. Não aceito isso."

"Fiz muito pela cena, pelas pessoas que estão próximas de mim. Pela cena da minha cidade e digo isso sem querer parecer ser o fodão, não estou tirando onda, mas eu tenho uma caminhada bonita. No seu primeiro deslize, na concepção das pessoas, você vira o Bolsonaro, tá ligado? Estava observando BBB e que loucura. O Lucas [Penteado] era chato, depois foi humilhado e passou a ser vítima. A Karol Conká era vilã, depois Karol saiu. E a galera que acolheu o Lucas na casa, agora virou do mal. Você começa a ver o bagulho e é louco. Como pode odiar e amar tão rápido a mesma pessoa?"

É tudo muito rápido, né?
"É a carência da galera. Na minha música, quero trazer essa reflexão. Tá carente, não tá praticando esporte, tá descontando tudo em cima das pessoas que elas nem conhecem. Eu sou mais complexo que o Djonga. Eu tenho várias questões. Sou muito mais complexo do que ser o artista que fala de política, de movimento negro e qualquer coisa que seja, que às vezes fala de amor.

Sou muito mais complexo que isso, sem querer ser pós-modernão, também, que não tem posição de nada.

"Existem, sim, coisas que são certas ou erradas. Existem escolhas que são melhores ou piores. Mas isso não acaba com a minha complexidade e com meu subjetivo. Isso importa para mim, flagra? E deixei isso de lado para satisfazer o meu ego e o ego de um monte de gente."

Qualquer um, na internet, se torna juiz e executor da pena, né? E é uma pena de morte.
"Não aguento mais esses termos, o 'cancelamento' ou 'passar o pano'. Essas expressões já cansaram. É foda porque, para mim, eu não fiz a melhor escolha, diante das coisas que tive no momento, foi a escolha que eu fiz. Eu sabia daria dar merda, não sou burro. Não me incomodou o que rolou comigo. Tá rolando alguma coisa com todas as pessoas com visibilidade, flagra? Às vezes, passa do limite. Ninguém sabe onde é o limite. A melhor coisa é o afastamento. Me incomoda demais ver as pessoas amando uma pessoa do dia para noite. Você nem conhece o cara, velho. Calma, calma. Ao mesmo tempo, me incomoda as pessoas odiando alguém que amaram ontem. Não são essas relações que quero construir para mim."

E, bom, chegamos então em "Nu".
"Esse álbum é o penta do Brasil ali. É um time jogando bonito. Todo mundo colocou o coração na parada. Estou falando sobre mim, sobre o que está aqui dentro, sobre as coisas que eu vejo lá fora e fazem ser aqui dentro. Tudo o que a gente construiu para criar é válido. Até quando a gente vai se arrepender das escolhas que estamos fazendo agora?"

É o álbum mais pessoal, você acha?
"É um disco pessoal. Tem um tom sarcástico, claro, mas tem muitas coisas sérias sendo faladas. São faixas densas. Não me preocupei com punch line, rima de efeito. O disco começa com uma música chamada 'Nós' e termina com uma música chamada 'Eu'. Ele vai, de trás para frente, chegando cada vez mais em mim. É o disco que eu mais gosto, real. É o disco mais bem feito, produzido dentro da minha casa, no estúdio lá. Isso me permitiu mais liberdade e tempo para criar. Quem manda na minha casa sou eu. É o disco que eu mais gosto, mesmo. Quero divertir a galera também, então colocamos músicas da hora. Mas tem uma pitada de desespero, na escrita."

Djonga - Jef Delgado / Divulgação - Jef Delgado / Divulgação
Djonga
Imagem: Jef Delgado / Divulgação

E de quando é esse disco?
"Essas são músicas são do final do ano passado para agora. A previsão era ter o álbum em junho, mas quando achei que tinha falado o que eu queria com essas músicas, pensei em acelerar logo para soltar agora e eternizar na hora certa, sacou?

E esse "desespero" que você diz?
"Tem esse quê de desespero e pá. Eu estava desesperado. Ainda estou, um pouco, às vezes. Tem hora que fico mais calmo. O que eu gosto não é da fama, não é só do dinheiro, eu gosto do dinheiro, claro, mas eu gosto do show."

Eu gosto muito de fazer show. A minha escolha de vida ser cantar é por causa dos shows. É a troca, o momento. Não poder fazer o que eu mais gosto está me arregaçando por dentro. Me sito um inútil por dentro.

"Ao mesmo tempo, isso cria um espaço para eu tratar de novos projetos, fazer outros estourarem. O disco chega com uma pegada de desespero por causa disso."

O lance dos shows. É uma sensação de impotência, mesmo, né?
"É isso, a gente se sente impotente por não poder fazer show, impotente por ver no que o mundo está se transformando. Quanta bobeira que vira uma coisa séria de repente, coisas pequenas que viram coisas gigantes. É uma espécie de hipocrisia generalizada. Ver um cara na rua me abraçando e depois falando mal de mim. Um cara que nem me conhece vindo tirar foto comigo só porque eu sou famoso. Esse governo que não é um governo. Ver a gente de mãos atadas. As pessoas prejudicando as outras. Cada um no seu corre tendo que fazer acontecer. É a minha visão disso tudo."

Minha sensação é que o "Histórias da Minha Área" era um disco com nuances para shows, diferentes sonoridades e tal. Enquanto esse é um fluxo contínuo ali. Sem pensar tanto em como levá-lo para os palcos.
"Perfeita essa leitura. Desta vez, eu escrevi por escrever, mesmo."

A capa também é simbólica, como todas as suas capas são. Vocês querem o Djonga, aqui está. É meio isso, também, né?
"É uma capa que diz muita coisa ao mesmo tempo. Tem a ver co mo fato de eu ter me entregado de bandeja para todo mundo. A minha vida, a minha singularidade. E, ao mesmo tempo, tem o lance do julgamento, do dedo apontado."

Você falou de "experimentar coisas novas" neste disco também.
"É, eu estava pensando em trazer um flow mais descontraído, mais vozes, outras entonações. Arrisquei mais. O que é uma parada que eu gosto bastante. Trouxe uma galera diferente para participar, os beats do Nagalli e MDN Beatz. Eles deram um tchã especial nos beats. Acho que a música "Ricô" é uma música diferente que traz um Djonga antigo, tão antigo que nem a galera conhece, um Djonga que não era conhecido ainda, com storytelling e construção de uma narrativa, que eu gosto. Também acho que os interlúdios estão mais presentes aqui. Eu criei esse trabalho para parecer mais um disco, mesmo. Tem uma unidade conceitual nele."

Tinha anotado aqui a narrativa, de um álbum que começa com uma música chamada "Nós" e termina com outra chamada "Eu". Você também tocou levemente neste assunto. Qual é a jornada que você expõe aqui?
"É um questionamento que eu quero. Até quando quero viver com 'nós', até quando quero viver com 'eu'. Perdi muita coisa nestes últimos anos que eu não estava vendo, coisas mais próximas, com meu pai, lá da minha área. São coisas pesadas, sinistras, bagulho mil grau. Aconteceram muitas coisas comigo no ano passado, na minha carreira, na minha vida, coisas do passado que voltaram. É sobre isso que eu tô falando no disco. De um jeito sem ser muito direto e para tornar de uma forma mais divertida de se ouvir."

Ano passado, quando a gente terminou a entrevista do álbum, a gente encerrou o papo com um "até logo", "até breve". E até agora nada. Louco isso, né?
"A gente, na época, achava que em junho ou julho já tava tudo voltando. Vamos chegar em junho ou julho deste ano e nada vai ter voltado."

Djonga - Jef Delgado / Divulgação - Jef Delgado / Divulgação
Djonga
Imagem: Jef Delgado / Divulgação

É uma sensação de impotência.
"Sendo bem sincero, eu não aguento mais, mano. Não aguento mais não fazer a parada que eu gosto, sentir que eu não estou trabalhando. Não dá para fazer música e não cantar em show. É frustrante. Nesse sentido, o show na Vila João, eu vi a galera cantando as minhas músicas e me deu um alívio. Eu não sabia se o disco existia na cabeça das pessoas. Números são só números. Foda-se que tem 20 milhões de views. Mas ver se a galera consumiu, se tá gostando das letras. Eu pude ver tudo isso."

Preciso dizer que, de todas as entrevistas que a gente já fez, nesta eu tenho sentido você mais triste.
"Tenho oscilado entre feliz e triste. Estou procurando as coisas que eu gosto de fazer para seguir fazendo e não cair em uma espécie de depressão ou um fundo do poço. Mas eu sou da farra, da galera. Isso é o meu ímpeto. Não tem nada que vá mudar isso. Não sou do "fique em casa e vai ficar tudo bem". Eu fico parecendo que tô morto. Com isso tudo o que está rolando, a gente tem que se controlar. Mas a real é que isso tá me matando."

Faz falta.
"Essa é a diferença para playboyzada que não entende. É fácil questionar o trabalhador que anda fora da linha. O trabalhador que sempre esteve trabalhando para esse playboy, tá ligado? Esse playboy que tá em casa, que aluga uma ilha em Angra, que vai para a Europa e dá um jeito de curtir a vida dele. O cara que mora em uma casa com oito pessoas não tem opção. É boteco, onde for. Não estou incentivando nem falando ser certo, mas é foda, mano. A gente achar que essa galera tem que conseguir ficar em casa. Uma galera que nunca teve direito à felicidade, nunca teve direito ao lazer. Pode questionar, todo questionamento é válido, mas existe um abismo entre nós. Se questionar sem entender o outro lado, você se torna um fascista, entendeu? É o que eu penso."

E as lives não suprem essa necessidade de shows, imagino.
"Ah, live não tem jeito, né? É o cara cantando as mesmas músicas, a diferença dos shows são as experiências. Na live, a diferença é a roupa que o cara ta usando, o cenário. Show é show, não existe nada que se aproxime. A galera não conseguiu sustentar o modelo drive-in. A galera sai do carro, mano. Não tem como. De repente, ela tá vendo o artista que ela gosta e a única coisa que impede de descer do carro é a porta. É só abrir e descer e foda-se. É louco, no drive-in, lá estão todas as pessoas, os hipster, os tilelê, a playboyzada, todos para fora do carro, cantando. E depois é a mesma galera que xinga qualquer um todos os dias na internet. Essas coisas me arregaçam. Não é sobre mim, só. É o que eu tô vendo. Isso deixa as coisas mais sombrias."

Gustavo, obrigado por essa entrevista. Cuide-se e da sua família também.
"Eu que agradeço. Fica com Deus."