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Pedro Antunes

Vai um stream aí? Revolução do SoundCloud afronta Spotify e outros gigantes

Para onde vai o dinheiro que você paga para ouvir música por streaming? - iStock
Para onde vai o dinheiro que você paga para ouvir música por streaming? Imagem: iStock
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Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

03/03/2021 17h43

Tiago é fã da banda Cachorros Carnívoros. Assinante do Spotify Premium, o rapaz ouve o álbum "Osso Duro de Roer" todos os dias, sem exceção, o que é até preocupante. Ele não quer saber das novidades do indie, não está nem aí para as músicas inéditas dos Barões da Pisadinha ou o single de Justin Bieber. Acontece que Tiago também é o único ouvinte da Cachorros Carnívoros - o que é uma pena, diga-se de passagem, porque eles são realmente bons. Com isso, a banda de post-punk tem apenas um ouvinte mensal na plataforma e o dinheiro pago por Tiago à plataforma de streaming não vai para o grupo.

Criei a situação acima (com personagens completamente fictícios e qualquer semelhança com a vida real será só uma coincidência danada) para explicar como o modelo atual do mercado da música por streaming, em plataformas como Spotify, Deezer, TIDAL, etc, vem criando um problema para artistas de pequeno e médio porte, e como esse formato pode estar com os dias contados.

Você já deve ter visto, por aí, um artista ou fã-clube pedindo para que as pessoas "deem stream" em determinada música ou álbum, certo?

Caso não saiba o que isso signifique "dar stream" - porque, assim como eu, você pode ter mais de 30 anos - é uma versão resumida de "ouvir as músicas de determinado artista nas plataformas digitais".

"Dar stream" atualmente é importantíssimo para a monetização de qualquer artista em tempos de música por streaming, mas somente se isso ocorrer em grande escala. Quanto mais vezes determinada música for tocada, mais dinheiro entra para a conta do artista, gravadora e os outros agentes responsáveis pela faixa.

De maneira simples, a ideia é que montante de dinheiro que entra das assinaturas desses serviços mensalmente seja distribuído para todas as partes atuantes na cadeia da música, que inclui as grandes gravadoras, selos, artistas, compositores.

Quem tem uma fatia maior do mercado global no número de streamings naquele mês ganhava um pedaço maior de bolo. Quem tem um único ouvinte, no caso a fictícia Cachorros Carnívoros e o fã Tiago, recebem uma fatiazinha insignificante desse montante.

Esse atual modelo de mercado, chamado de "pro rata", praticamente extingue os artistas menores porque é como se eles trabalhassem (criando músicas) de graça.

Não é por acaso que muita gente da turma mais indie está abandonando as grandes plataformas de streaming. Elas não enxergam a cor do dinheiro, mesmo, então é melhor se mandar de lá.

O valor pago pelas plataformas, aliás, é tão irrisório que só vale a pena, realmente, se determinado artista tem milhões de plays na plataforma. Veja o valor da execução de cada música, em dólar, segundo um levantamento do site SoundCharts:

  • TIDAL paga US$ 0,098 por play
  • Apple Music paga US$ 0,0056 por play
  • Google Play Music paga US$ 0,0055 por play
  • Deezer paga US$ 0.00436 por play
  • Spotify paga US$ 0,0032 por play

*Dados de 2019

Esses são todos cálculos aproximados porque existem mais fatores envolvidos na conta. Ainda assim, nessa média, para determinada música render US$ 1 com o serviço de streaming, ela precisa que a música ser ouvida mais de 300 vezes - e a grana é distribuída para toda a cadeia de produção do som, que vai do distribuidor digital ao compositor da música.

Ou seja, estamos falando de pouca grana, mesmo.

Davi conta Golias

Quem lidera essa revolução contra o atual sistema, no melhor esquema Davi contra Golias da indústria, é a plataforma SoundCloud, queridinha da turma independente.

A empresa anunciou a adoção de um novo sistema de monetização cujo cerne é o comportamento do usuário na plataforma.

Parece confuso, mas não é. A ideia é que o dinheiro pago mensalmente por um assinante seja distribuído para aqueles artistas ouvidos por ele e só. Não teria mais a ideia de fatia do bolo geral.

No caso imaginario citado no início da matéria, o dinheiro do Tiago seria destinado à banda Cachorros Carnívoros, entende?

Essa é uma das mudanças mais drástica do music business, como bem apontou o espertíssimo site Hits Perdidos, porque ela passa a ser mais sustentável para os artistas de pequeno e médio porte.

Claro, são exceções os casos de quem escuta somente um mesmo artista no mês todo, mas mesmo que sejam 30, 300 artistas, parece fazer sentido que sejam esses os artistas a receber a proporção dessa grana.

"Muitos da indústria queriam isso há anos. Estamos animados de sermos os primeiros a trazer essa iniciativa para o mercado para mostrar nosso apoio aos artistas independentes. O SoundCloud quer oferecer um modelo transformador baseado na poderosa conexão entre artistas e fãs dentro da nossa plataforma."
Michael Weissman, CEO do SoundCloud

A proposta quebra um novo comportamento da indústria, que não era dito abertamente, mas completamente irritante: o encurtamento das músicas.

Sim, acredite, músicas mais curtas passaram a ser priorizadas na indústria porque são mais rentáveis. A mesma pessoa pode ouvir 30 músicas de dois minutos de duração em uma hora ou 10 músicas de seis minutos. O que gera mais dinheiro neste sistema? A menor que pode ser ouvida mais vezes.

A iniciativa do SoundCloud também é uma alternativa contra as "fábricas de stream", que são mais ou menos como aquelas fábricas de likes e seguidores no Instagram, que colocam robôs e bots para dar play em determinado artista para aumentar a fatia do bolo.

Sem pagar pela quantidade de stream e, sim, pelo número de ouvintes, a proposta freia também uma estratégia de artistas do pop, como Justin Bieber, de ensinar fãs a aumentarem descaradamente o número de plays de uma música - ele fez isso com o lançamento de "Yummy", como revelou o site Genius (em inglês).

Ainda há buracos no formato, claro. Entender melhor como é feita a distribuição da grana, quanto chegará ao artista, de fato, e qual seria a tecnologia necessária para fazer essa conta são questionamentos fundamentais para que o projeto seja realmente colocado em prática.

Mas, de qualquer maneira, isso abre um caminho para uma divisão mais justa do dinheiro pago às plataformas de streaming e favorece os pequenos que, mesmo que tenham um único fã, caso da imaginária Cachorros Carnívoros, recebam mais propriamente e não precisem disputar com gigantes como Justin Bieber para ter o seu pedaço do bolo.