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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Entre a crueldade, o desamparo e a bestialidade dos machões

María Fernanda Ampuero - Divulgação
María Fernanda Ampuero Imagem: Divulgação
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

12/05/2021 09h41

"Eu lhes dizia: adeus, galinho, seja feliz no céu onde há milhares de minhocas e campo e milho e famílias que amam os galinhos. No caminho, algum criador de galo sempre me dava uma bala ou uma moeda para que eu o deixasse me tocar ou beijar, ou que eu o tocasse e beijasse. Eu tinha medo de que, se dissesse isso ao meu pai, ele voltasse a me chamar de 'mulherzinha'".

Após um acaso e cansada de ser importunada, a garotinha começa a dar outro fim aos galinhos mortos nas rinhas. Banha-se com o sangue, as vísceras e as fezes dos animais trucidados para entretenimento dos homens. Estes, então, evitam a pequena. "Sua filha é um monstro", queixam-se ao pai da criança protegida por dejetos.

Simbólico que os pedófilos chamem de monstruosa a garota que arrumou uma forma para se proteger das investidas daqueles homens de bem do campo, orgulhosos de sua própria monstruosidade. E aquela não será a única vez em que a garota, num lance que nos remete ao incontornável "Holocausto Brasileiro", de Daniela Arbex (Intrínseca), recorrerá ao asco para sobreviver a machões com certo poder.

É essa a história de "Leilão", conto que abre "Rinha de Galos", livro de María Fernanda Ampuero que acaba de sair no Brasil pela Moinhos (tradução de Silvia Massimini Felix). Equatoriana, a escritora já figurou em algumas listas de grandes vozes de sua geração (esse clichê ainda na moda). Lançada originalmente em 2018, a coletânea de contos foi muito bem recebida por leitores. O crítico Jorge Carrión, um dos que mais respeito, a listou como um dos livros do ano da versão em espanhol do The New York Times.

Uma pergunta de Clarice Lispector aparece na epígrafe do livro: "Sou um monstro ou isso é ser uma pessoa?". Os limites e as intersecções entre a humanidade e a bestialidade estão presentes nas 13 breves narrativas. A infância corrompida, o amadurecimento forçado e a destruição da inocência são elementos corriqueiros nas histórias quase sempre protagonizadas por crianças, garotas e mulheres aterrorizadas pela brutalidade masculina.

O lar como espaço de horror, antro de segredos e de atrocidades indizíveis, e as vidas marcadas pelas agressões físicas, sexuais e psicológicas se destacam. São temas que aparecem em parte do que há de melhor na literatura latino-americana contemporânea, aliás, como "Garotas Mortas", da argentina Selva Almada (Todavia), e "Temporada de Furacões", da mexicana Fernanda Melchor (Mundaréu).

Rinha de Galos - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Pelas páginas de Ampuero, uma garota descobre que a vida real é mais pavorosa do que os filmes de horror, uma jovem busca por um lugar ou companhia que a faça esquecer do cotidiano na própria casa, uma mulher acha melhor viver num muquifo empesteado por baratas do que dividir o teto com um homem, uma boleira faz doces dignos de programa de televisão vivendo num ambiente que cheira a coisa velha, guardada, embolorada…

Fernanda recorre, com frequência, a elementos degradantes para provocar desconforto no leitor. Pais e mães que devoram suas crias não só no sentido figurado e episódios em que a autora lida com tabus como o incesto também merecem destaque nessa coleção bárbara construída por Ampuero, que, é verdade, oscila em alguns momentos e vez ou outra resvala em clichês.

Na segunda metade de "Rinha de Galos", encontramos contos que dialogam abertamente com o misticismo cristão. Na tríade "Cristo", "Paixão" e "Luto", o segundo merece atenção especial. Numa história sobre crueldade, vingança, sobrevivência e fé, acompanhamos uma criança "catarrenta, magra e nua" que, abandonada pela progenitora na porta da casa dos avós, apanhava para que "não fosse igual à mãe enquanto gritavam você é igual à sua mãe".

Alternando tempos e espaços, o conjunto de contos de Ampuero nos fala sobre um primitivismo que segue presente. Fala também sobre uma espécie de herança maldita que esmaga as mulheres, para resgatar uma expressão usada por Tatiana Salem Levy no papo que tivemos por conta do lançamento de "Vista Chinesa" (Todavia).

"A crueldade sempre triunfa diante do desamparo", lemos no conto "Luto". Impossível não pensar em como o desamparo e crueldade são duas das principais marcas da América Latina. Em "A Outra", no entanto, narrativa que fecha o volume, temos uma mulher que se rebela no que há de mais ordinário. Não se conformar segue como alternativa possível.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL