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REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

O estupro e a violência herdada pelas mulheres: papo com Tatiana Salem Levy

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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

02/04/2021 09h25

Na 73ª edição do podcast da Página Cinco:

- Entrevista com Tatiana Salem Levy, que acaba de lançar o romance "Vista Chinesa" (Todavia).

- O feito de Ngugi wa Thiong'o no International Booker Prize.

- "Mimesis", de Erich Auerbach (Perspectiva), "Uma das Coisas", de Débora Gil Pantaleão (Escaleras), e "O Amor São Tontas Coisas", de Michel de Oliveira (Moinhos), nos lançamentos.

Alguns destaques da entrevista:

Prisões injustas

Fico muito angustiada quando alguém vai preso injustamente. Tenho pânico dessa ideia porque tenho pânico da ideia de prisão. Imaginar que alguém passou a vida numa cadeia, ainda por cima sem ter cometido nada, me fez pensar na angústia pela qual a minha amiga passou. Ela denunciou o crime, passou por todo o processo de investigação: ter que ir na delegacia várias vezes reconhecer possíveis suspeitos... Diante dos traumas é muito difícil recompor visualmente esse rosto.

Romance sensacionalista?

Quando comecei a escrever, pensei em não descrever o estupro para não correr um risco muito grande de tornar o romance sensacionalista. De fazer uma exposição de que eu não gosto como leitora, como escritora, de um horror, de uma coisa muito sanguinolenta, de expor a carne, a ferida, de uma forma que não é meu jeito de escrever. Prefiro aludir ao horror, à imaginação do leitor. Mas, na medida em que fui ouvindo o que ela dizia, comecei a entender e a me ver encurralada no sentido de que não poderia fugir dessa narração, dessa descrição. E em detalhes, porque são esses detalhes que estavam presos na garganta dela, no corpo inteiro. É isso que estava saltando. É isso que ninguém mais perguntava pra ela, mas que estava morrendo de vontade de dizer.

Desistir

Teve um momento em que pensei: não vou conseguir, vou desistir. Como vou narrar essas cenas sem fazer com que o leitor vire o rosto, feche o livro ou sem fazer com que ele ache banal?

Opção pela ficção

A ficção é o que me interessa. É o que eu faço: pesquisar e experimentar a linguagem em termos ficcionais. Em nenhum momento pensei em fazer um relato de não ficção. Eu queria justamente tentar responder esse desafio de escrever literariamente, enquanto ficção, esse inenarrável, esse indizível. Como a literatura poderia me fazer chegar perto desse horror? Essa era a questão.

Violência herdada

Tem uma coisa de violência contra mulher que é sofrida desde sempre e que passa de geração para geração. É uma violência que todas nós mulheres herdamos, de alguma forma, e que está na memória do nosso corpo.

Camadas de violência

Ela é uma violência física em primeiro lugar, brutal, mas ela é também uma violência moral, uma violência social, justamente porque ela carrega esse estigma. Por conta disso, muitas vezes as mulheres não fazem a denúncia [do estupro], porque elas têm medo de que pensem que ela é a culpada. São muitas camadas de violência.

Racismo policial

Tinha essa violência na procura pelo suspeito: a vontade da polícia de encontrar alguém para prender, para dizer que fez um serviço. Aí, nessa procura, havia a insistência por alguém que fosse negro.

Euforia carioca

Teve uma fase no Rio de Janeiro em que houve uma euforia, em que mesmo as pessoas muito informadas, que sabiam que a gente sempre maquiava tudo, em algum momento quiseram acreditar que haveria uma transformação.

O Brasil de fora

Quanto mais tempo fico fora do Brasil, mais brasileira eu me sinto. Até porque, estando fora do Brasil que sou vista como brasileira. Aqui [em Portugal] sou sempre encarada como brasileira, então mais brasileira eu sou.

Certas coisas apenas a morte salva?

Um tipo de morte: uma morte em vida. Uma morte simbólica, talvez.

O podcast do Página Cinco está disponível no Spotify, na Apple Podcasts, no Deezer, no SoundCloud e no Youtube.

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