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REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Maria Flor: A literatura me salvou na pandemia

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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

07/05/2021 08h43

Na 78ª edição do podcast da Página Cinco:

- Entrevista com Maria Flor, que acaba de lançar o romance "Já Não Me Sinto Só" (Planeta).

- Notícias do Jabuti e do Oceanos. Aqui o caminho para a entrevista com o Ignácio.

- Série sobre escritores no GreatCast.

- Livros digitais de Myriam Fraga, "A História da Filosofia", de Will Durant (Faro Editorial), e Beatles em cordel nos lançamentos.

Alguns destaques da entrevista:

Literatura na pandemia

A literatura me salvou. Não só por conta da escrita do "Já Não Me Sinto Só", mas, na pandemia, ler também foi essencial para conseguir sair da nossa realidade e entrar em outros universos, que, por mais que não sejam fáceis de lidar, abrem outras coisas na nossa cabeça.

"Torto Arado"

Gostei muito do "Torto Arado". É um livro muito sobre o Brasil. Você realmente entra um pouco dentro dessa estrutura social do Brasil, que é muito louca. E às vezes muito distante da gente que vive nas cidades. E é tão bonito o jeito como ele [Itamar Vieira Junior, o autor] escreve, tão poético, tão sensível. Você vai indo na história daquelas irmãs, mas na verdade é um panorama sobre essa luta pela terra no Brasil.

Ian McEwan

O Ian McEwan é realmente um autor que adoro... Acho que ele tem a capacidade de construir universos muito diferentes. Ele escreve um livro sobre uma mulher que é uma espiã, depois escreve um sobre como o aquecimento global impacta na nossa vida. Ao mesmo tempo sempre tem um drama ali, uma narrativa que te pega.

Clarice

Eu sempre vou falar da Clarice Lispector, apesar de saber que é um lugar-comum. Não tenho como não dizer que a Clarice me formou não só como leitora, mas também como mulher. Foi uma escritora com quem me reencontrei na pandemia... O "Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres" é um livro que leio, releio e sempre aprendo alguma coisa com ele, sobre o lugar da mulher na sociedade.

Escrever cena de sexo

O livro poderia ser um roteiro. Aí eu usei um pouco da minha experiência como atriz que lê muito roteiro, que é: às vezes o filme não vai mostrar. Comédia romântica: chega na hora do vamos ver, você não vê o sexo... Foi uma crise pra mim. Eu tentei escrever e não achei bom, para ser sincera.

Real x ficção

Achei que não ia conseguir muito fugir disso, que as pessoas iriam de qualquer maneira achar que aquilo aconteceu ou não, que aquela história é real ou não. Então resolvi assumir e me utilizar disso: fazer com que o leitor fique nessa curiosidade... Achei que seria honesto e justo da minha parte falar sobre um universo que conheço. E queria falar um pouco sobre como é fazer cinema, o que acontece no set de filmagem.

Bastidores do cinema

Queria falar sobre como o set depende muito de pessoas que você não vê na tela. Na verdade, você vê na tela a minoria, que são os atores. É importante falar sobre isso, também por conta da forma como os atores, os artistas, a cultura, o cinema, estão sendo tratados no Brasil.

Machismo no audiovisual

Caminhamos pra frente nas relações dentro do set de filmagem. Mas o cinema, o audiovisual, é totalmente masculino. Estou gravando uma novela agora, cheguei nos set na segunda-feira e tinha duas mulheres: a câmera e uma assistente.

Os limites no set

Acho que o trabalho das atrizes é tentar questionar esse lugar de objeto, de musa, de pessoa que está ali sem poder ser sujeito do seu próprio discurso, sujeito que pensa sobre aquilo que está sendo feito.

Essa é uma coisa que demorei muito para conquistar: dizer meus limites dentro do set, meus limites numa cena de sexo, numa cena de romance... O quanto você se permite colocar sendo uma mulher dentro do set e se sentindo oprimida com todos aqueles homens olhando pra mim...

As estruturas hierárquicas estão sempre privilegiando os homens. Esse desequilíbrio das forças, de certa forma, incentiva um pouco para que abusos ocorram e sejam meio que aceitos. Por isso são tão importantes todas as denúncias, se colocar, falar. Mas muitas vezes é difícil falar. Muitas vezes é difícil ser ouvida.

A foto de Maria Flor é de autoria de Jorge Bispo.

O podcast do Página Cinco está disponível no Spotify, na Apple Podcasts, no Deezer, no SoundCloud e no Youtube.

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