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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A maravilha que é ser um leitor fracassado

"Stanczyk", de Jan Matejko - Reprodução
"Stanczyk", de Jan Matejko Imagem: Reprodução
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

10/05/2021 10h01

Um leitor sugeriu que escrevesse sobre meus fracassos com os livros. De cara lembrei de "Fracassinho". Caminhava bem com as ácidas memórias de Gary Shteyngart até ser atropelado pela vida e acabar por abandoná-las. Fracassei na leitura de "Fracassinho".

Mas não só. Alguém já deve ter escrito isso por aí: o fracasso é amigo íntimo de qualquer leitor assíduo. Ser leitor é estar sempre tateando algum caminho possível dentro de um labirinto infinito. É descobrir a cada livro, a cada novo autor, que outras trocentas estradas, trilhas e picadas podem ser traçadas, e que estas também se desdobrarão em infinitas possibilidades. Talvez Borges tenha criado histórias sobre a multiplicidade de livros e bibliotecas justamente para afagar seus inevitáveis fracassos.

Ao tocar no assunto, creio que há um fracasso que vem imediatamente à cabeça dos colegas: o de não se entender com um grande livro. "Ulysses", do Joyce, é exemplo banal. Acompanham o irlandês colossos como "Mrs. Dalloway", de Virginia Woolf, e "Grande Sertão: Veredas", de Guimarães Rosa, este muitas vezes mantido em segredo na lista de fracassos de leitores brasileiros. Acontece. No começo da pandemia, escrevi sobre ter me encontrado com "Cem Anos da Solidão", do Gabo, só na quarta ou quinta tentativa de lê-lo.

Não há como falarmos de fracassos sem levarmos em conta o fator tempo. Se não cheguei ao fim de "O Vermelho e o Negro", de Stendhal, de "Um Conto de Duas Cidades", do Dickens, ou se só li o "Inferno" de "A Divina Comédia", do Dante, juro que foi mais por falta de horas no dia do que por qualquer outra coisa. Mas é uma derrota, certamente.

Também é uma frustração virar a cabeça e trombar com "Tempos Ásperos", no novo de Vargas Llosa, e "Preço de Noiva", da Buchi Emecheta. Quero ler? Claro. Mas também tenho a mesma vontade de ler pelo menos 30 livros que estão no meu campo de visão. Escolher um implica automaticamente decepcionar outros 29.

O bom é que sempre podemos inverter a relação com o tempo e colocá-lo a nosso favor. Olhar para um fracasso de momento e pensar: esse eu vou deixar para quando for mais velho. "Graça Infinita", do David Foster Wallace, provavelmente ficará para depois da Copa de 2030. A badalada Rachel Cusk, talvez o maior hype dos últimos meses, terá que aguardar as Olimpíadas de 2024.

Começar a ler e não curtir o livro. Começar a ler e não entender absolutamente nada do livro. Começar a ler, engrenar na leitura e descobrir que tudo aquilo é uma tranqueira lá pela página 134. Começar a ler e ser tragado pela necessidade ou vontade de outras leituras. Olhar para pilhas de livros e lembrar que só é possível, de fato, ler um por vez (mesmo quando você lê 7 títulos ao mesmo tempo, precisa escolher em qual livro seus olhos e sua cabeça estarão fixados, sabichão).

E há mais. Um autor leva a outro autor. Uma literatura leva a outra literatura. E daí você quer mergulhar nos japoneses, compreender a multiplicidade dos africanos, decifrar tudo de fabuloso que já foi produzido pelos latinos e também dar aquela boa atenção para a literatura italiana. Um romance puxa um conto, que puxa um poema. O ensaio leva a biografias, a relatos de viagem. A grande-reportagem escrita pela Nobel também entra na mira. E nem abri a caixa dos quadrinhos.

Isso para não falar de uma questão central: afinal, o que é ler um livro? Mandar Dostoiévski com 20 anos, imagino, é algo bem diferente de lê-lo com 40. Parafraseando Heráclito, um leitor nunca se esbalda duas vezes no mesmo livro, porque, quando encara a obra pela segunda, terceira, quarta vez, já não é mais o mesmo. Então, se a releitura é fundamental e os grandes têm algo de novo a apresentar a cada empreitada, o fracasso do leitor se torna uma constante.

Bom mesmo é olhar para esse fracasso, abraçá-lo e saber que seguimos em frente não apesar dele, mas sobretudo por conta dele. Podemos passar as 24 horas do dia mergulhados em livros e, paradoxalmente, a relação do que queremos ler apenas aumentará. O momento para que consigamos dar conta de certos monumentos uma hora chega (ou talvez não, vai saber). Conforta olhar para os livros e notar os infinitos caminhos para o fracasso que nos aguardam. Se perder nesse labirinto e seguir com a literatura como uma paixão é o que deixa tudo mais divertido.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL