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Assassinatos de crianças: contos de Carrero contrastam com pasmaceira geral

Agatha Félix - Arquivo
Agatha Félix Imagem: Arquivo
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

12/01/2021 09h12

No final do ano passado, a Folha apontou em uma reportagem que policiais mataram pelo menos 2.215 crianças e adolescentes no país nos últimos três anos. Apesar do número espantoso, a indignação pareceu ficar restrita a certas bolhas nas redes sociais. A impressão é que os absurdos cotidianos são tantos que acabam anestesiando parte importante da população, que apenas bufa e lamenta por um instante, isso quando ainda demonstra alguma reação a tanta barbaridade.

Não é o que acontece com o escritor Raimundo Carrero. Em 2020 ele lançou "Estão Matando os Meninos" (Iluminuras), livro que soa como um punho levantado, uma recusa a normalizar a carnificina cotidiana. O livro traz 14 contos divididos em três capítulos (ou "Cartas ao Mundo", como o autor prefere chamar). Essas cartas pujantes com mensagens e alertas para a humanidade dão sequência ao que Carreiro iniciou em "As Sombrias Ruínas da Alma", título de 1999 que lhe valeu um Jabuti na categoria Contos e Crônicas.

"Estão Matando os Nosso Meninos" começa com a tristeza do pai que reluta em aceitar a morte do filho, "rasgado a balas de rifle". A revolta está na boca dos personagens. "A escola é como se fosse uma bandeira rasgada e esfarrapada balançando na entrada com a frase escrita no centro: 'É escola, tem menino, mate'", lemos num momento. "Morte de menino é samba na laje com churrasco e cachaça. Tem quem comemore, é? Com batucada e fé", lembramos em outro.

Essa normalidade festiva que segue cada assassinato contrasta com o desespero daqueles que conviviam com o garoto. A morte do jovem não representa somente seu próprio fim, mas elimina possibilidades de futuro para o país e apaga a vida daqueles ao seu redor, que seguirão pelo mundo apenas existindo. No conto, são marcantes imagens como cemitérios só de gavetas para meninos assassinados e a porrada que é a cena do pai recusando reconhecer o corpo do filho no necrotério.

Os contos de Carrero, um dos grandes mestres vivos de nossa literatura, ecoam algumas das histórias macabras que acompanhamos ao longo dos últimos meses. Encontramos, por exemplo, a garota morta após a aula de balé, que "foi ao chão, atingida por um tiro de rifle nas costas, bem no pulmão direito". É uma clara alusão a Agatha Félix, assassinada em mais uma ação policial desastrosa.

"Porque os meninos pobres do Brasil, minha amiga, ou morrem de bala ou morrem de fome", queixa-se outra personagem. A miséria do país, o racismo, os "homens de bem" que "só são homens de bem conforme as conveniências" também são elementos presentes ao longo dos contos de "Estão Matando os Meninos", bem como a milícia, o vírus, o isolamento social.

No fim do volume, os acenos são para as jovens que transformam a indignação em luta. Neste momento que pintam referências a símbolos como Malala Yousafzai, Greta Thunberg e Wynta-Amor Rogers, a garotinha que, nos Estados Unidos, marchou junto com companheiros de Black Lives Matter sublinhando uma mensagem bem clara: "Sem justiça, sem paz".

A literatura brasileira dos últimos anos tem refletido, repercutido e questionado de forma satisfatória alguns dos problemas mais urgentes do país. Ainda assim, "Estão Matando os Meninos" parece se colocar um tom acima. Seus contos são como berros que tentam abalar certa pasmaceira ou descrença paralisante que há na sociedade. Porque, num país em desmonte, se perdermos até a capacidade de expressar a indignação e a revolta (isso enquanto ainda podemos, de alguma maneira, expor nossa indignação e revolta), o que nos restará?

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL