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Autores premiados em 2020 indicam grandes leituras do ano

Itamar Vieira Jr. e Cida Pedrosa - Divulgação
Itamar Vieira Jr. e Cida Pedrosa Imagem: Divulgação
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

28/12/2020 11h38

Pedi para que vencedores deste ano de parte dos nossos principais prêmios literários dividissem com os leitores algum grande livro lido em 2020. A ideia era exatamente essa: compartilhar uma leitura de destaque. Não precisava ser um livro lançado em 2020. Não precisava ser um livro recente. Não precisava ser o melhor livro. Não precisava ser de algum gênero específico. Nada disso. Bastava ter lido neste ano e gostado.

A série de dicas tem uma diversidade que vai de romances muito comentados neste ano, passa pela poesia e alcança um achado do século 18. Os livros estão elencados conforme a ordem alfabética dos autores indicados. Vejam só:

Itamar Vieira Junior, vencedor do Oceanos e da categoria Romance Literário do Jabuti por "Torto Arado" (Todavia), indica "Garota, Mulheres e Outras", de Bernardine Evaristo (Companhia das Letras):

"É um romance de trama e estética transgressoras. Uma narrativa híbrida que mescla influências da poesia, do teatro e do que há de melhor da prosa contemporânea. Onze mulheres negras - e umx não-binarie negre - apresentando suas paixões, conflitos e esperanças no Reino Unido do século 21, mas que poderia muito bem se situar no Brasil ou em muitos outros lugares".

Tônio Caetano, vencedor da categoria Contos do Prêmio Sesc com "Terra nos Cabelos" (Record), indica "Reboco", de Karine Bassi (Venas Abiertas):

"Ler Karine Bassi é sempre um encontro. Encontro com a humanidade de pessoas reais, com nossas memórias e com as memórias dos nossos. Em 'Reboco', volume 8 da coleção II - Mulherio das Letras, a escrita conjuga a prosa e a poesia do dia a dia na periferia com delicadas ilustrações feitas pela própria autora. Sem literatices, durante as 114 páginas deste livro de bolsa, amamos, lutamos, ficamos com o coração apertado, choramos e também ouvimos aquela risada gostosa que vem lá de dentro da casa vizinha".

Leonardo Chalub, vencedor da categoria Juvenil do Jabuti com "Palmares de Zumbi" (Nemo), indica "O Desertor", de Manuel Inácio Silva Alvarenga (Hedra):

"'O Desertor', de Manuel Inácio Silva Alvarenga, é uma obra brasileira publicada em 1774. Para mim, ela é uma das obras mais engraçadas que já li. Ela aborda um problema mundial e secular, que é a vontade dos jovens de não frequentarem a escola. Além da diversão de dedicar algumas horas para entender o que raios Alvarenga quis dizer com este texto tão rebuscado, ainda dá pra passar algumas horas estudando sobre a relevância deste texto em sua época, no período Pombalino".

Susana Ramos ventura, vencedora do Prêmio Glória Pondé da Biblioteca Nacional com "Um Lençol de Infinitos Fios" (Gaivota), indica "Maria Altamira", de Maria José Silveira (Instante):

"Um romance que atravessa territórios latino-americanos em duas temporalidades que se espraiam: a narrativa começa em 1970 no Peru, quando um terremoto seguido de aluvião soterrou a cidade de Yungay, e chega aos anos 2010 no Brasil. Alelí, a jovem protagonista peruana, é uma sobrevivente que perdeu toda a família em 1970 e passa a vagar sem rumo, mergulhada em dor e sofrimento. Sua deambulação atravessa países e anos, conduzindo-a e nos levando a testemunhar a redenção possível: o encontro de sua voz desaparecida, a arte que desenvolve e pela qual é descoberta e que a leva para a possibilidade de uma nova etapa. Nesta, ela será novamente mãe, desta vez de Maria Altamira, batizada em homenagem à cidade brasileira em que nasce. Narrativa conduzida com maestria, e que não foge das complexidades nem humanas nem sociais de nossos países em sua particular e difícil História. Uma grande e espetacular viagem de descoberta e reflexão.

Cida Pedrosa, vencedora das categorias Poesia e Livro do Ano do Jabuti com "Solo Para Vialejo" (CEPE), indica dois livros:

"2020 foi o ano da pandemia, de tristes perdas e de muitos medos. Foi também o ano de muitas leituras. Na solidão das suas casas as pessoas se agarraram com as palavras. Comigo, apesar da campanha eleitoral intensa [Cida foi eleita vereadora de Recife pelo PCdoB], não foi diferente. Li muito, especialmente de abril a julho, e cheguei a escrever o livro de poemas 'Estesia'. Me deleitei especialmente ao ler 'Hai-Quintal', de Maria Valeria Rezende (Autêntica), e 'Das Muitas Formas de Dizer o Tempo', de Adri Aleixo e fotografias de Lori Figueiró (Ramalhete). Poesia injetada diretamente na veia. Pequenas pílulas buriladas com maestria por estas duas magas da versificAÇÃO. Entre as duas, muito chão de distância. Uma na Paraíba, fazendo do quintal o templo para contemplações e laboratório para inspiradas metáforas. A outra, nas terras de Minas, a criar novos sertões bordados com a intimidade das que sabem tecer o segredo das coisas miúdas e que bebem nas águas de Diadorim".

Maria Fernanda Elias Maglio, vencedora do Prêmio Alphonsus de Guimaraens da Biblioteca Nacional com "179. Resistência" (Patuá), indica "Se Deus Me Chamar Não Vou", de Mariana Salomão Carrara (Nós):

"Um romance narrado por uma menina de onze anos que sonha em ser escritora e vive os dramas próprios da idade. Uma voz narrativa construída de forma impecável, com força e doçura. O livro tem beleza, dor, lirismo e, sobretudo, uma melancolia constante. O velho e o novo se fundem em um tempo próprio, como se essa personagem não tivesse sido criada pela autora, mas existisse desde sempre".

Menalton Braff, vencedor do Prêmio Machado de Assis da Biblioteca Nacional com "Além do Rio dos Sinos" (Reformatório), indica "Pontos de Fuga", de Milton Hatoum (Companhia das Letras):

"'Pontos de Fuga', do Milton Hatoum, é o segundo volume de uma trilogia abordando os anos de chumbo tendo como cenário a UnB, seus estudantes e adjacentes. Teatro, reuniões secretas, ministros, polícia, coragem e covardia. Um dos protagonistas procura a mãe, que há anos não vê, nem sabe ao certo onde vive. É um romance que empolga tanto na dimensão do conteúdo quanto na expressão".

Cláudia Lage, vencedora de Melhor Romance de Ficção do Prêmio São Paulo com "O Corpo Interminável" (Record), indica "Pré-história", de Paloma Vidal (7 Letras):

"É o terceiro romance da Paloma, escritora que admiro muito, lançado neste ano de 2020. É um livro lindo, sutil e intenso ao mesmo tempo, como se por trás de cada cena narrada tivesse algo maior e explosivo escondido ali. E há, o universo do livro gira em torno do ano de 1989, época da primeira eleição democrática pós-ditadura. Dentro desse contexto, a narradora, na primeira pessoa, escreve uma carta, tentando recompor uma história de amor iniciada em 1989 e que dura 30 anos. O amor e a política andam juntos, se entrelaçam, em suas expectativas e frustrações, num mosaico reconstituído palavra a palavra".

Marcelo Labes, vencedor de Melhor Romance de Ficção de Estreia do Prêmio São Paulo com "Paraízo-Paraguay" (Caiaponte), indica "A Pequena Mão da Criança Morta", de Samantha Abreu (Penalux):

"'A Pequena Mão da Criança Morta', de Samantha Abreu, não somente apresenta uma poeta imensa, como também choca-comove-intriga a partir das imagens que utiliza para falar sobre o fim irremediável. Um belíssimo livro de uma poeta imensa que está fora da metrópole, cuja obra precisa ser conhecida com urgência - a mesma urgência que Samantha utiliza para escrever".

Raphael Montes, vencedor da categoria Romance de Entretenimento do Jabuti com "A Mulher no Escuro" (Companhia das Letras), indica "Fé no Inferno", de Santiago Nazarian (Companhia das Letras):

"'Fé no Inferno' foi uma das minhas melhores leituras de 2020. Em capítulos curtos, Santiago Nazarian trata do genocídio armênio e da luta pela sobrevivência, com o humor ácido e o tom fantástico frequentes em sua obra. Domingos e o cuidador de idosos Cláudio são personagens interessantíssimos, tão palpáveis que parecem reais, e seus encontros têm diálogos afiados. Na paralela, os livros que Cláudio vai lendo na casa do velho - o livro dentro do livro - prendem a atenção e, além do resgate histórico, dão ritmo de thriller à narrativa. Sem dúvida, meu romance favorito do Nazarian desde 'Mastigando Humanos'".

Carla Bessa, vencedora da categoria Contos do Jabuti com "Urubus" (Confraria do Vento), indica "E Se Deus For Um de Nós", de Tadeu Sarmento (Confraria do Vento):

"Em 'E Se Deus For Um de Nós', Tadeu Sarmento parece ter se proposto utilizar todo um leque de possíveis encarnações do cômico, inclusive, a loucura, na tentativa de exorcizar os fantasmas dos nossos tempos. Porém, o seu humor mordaz é apenas a outra face do desespero diante de uma realidade que se torna intragável. Há aqui uma mistura sórdida de sátira, trocadilhos, caricaturismo, absurdo e, sobretudo, elementos do tragicômico e do macabro que, como uma lente de aumento, só faz expor ainda mais toda a labilidade do humano".

Wagner Willian, vencedor da categoria Histórias em Quadrinhos do Jabuti com "Silvestre" (Darkside), indica "O Alpinista", de Victor Bello (Escória Comix):

"Desculpem-me todos, mas vocês erraram. Entre as 3 melhores HQs de 2019 está 'O Alpinista' do Victor Bello. A tremenda arquitetura de seu roteiro, seus personagens impagáveis e reviravoltas geniais fazem deste quadrinho uma obra-prima. Os mais sensíveis torceram o pescoço para a escalada de porralouquices mortais. Eu adorei".

Caê Guimarães, vencedor da categoria Romance do Prêmio Sesc com "Encontro Você no Oitavo Round" (Record), indica "Os Herdeiros", de William Golding (Alfaguara, tradução de Sergio Flaksman):

"Ambientado nos primórdios da humanidade, Golding explora nesse romance vigoroso a forma de estar no mundo, os medos - conscientes e inconscientes - e a perda da inocência primitiva de um grupo de neandertais que acidentalmente encontra uma espécie mais avançada tecnologicamente. E sofisticadamente mais violenta e perversa: nós, os Homo sapiens".

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