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Leonardo Rodrigues

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Qual é o disco mais caro do Brasil? Ele nasceu de tragédia e vale R$ 10 mil

A capa integral de "Paêbirú", com Zé Ramalho e Lula Côrtes posando na Pedra do Ingá - Divulgação
A capa integral de "Paêbirú", com Zé Ramalho e Lula Côrtes posando na Pedra do Ingá
Imagem: Divulgação
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Leonardo Rodrigues

Leonardo Rodrigues é jornalista do UOL, com passagem pela Folha de S.Paulo. Também é colecionador de LPs e luta para que, um dia, toca-disco deixe de ser confundido com vitrola.

Colunista do UOL

01/06/2022 14h05

As chuvas que devastaram o estado de Pernambuco no fim de semana têm como triste paralelo a enchente do rio Capibaribe de 1975. Na época, a tragédia matou 107 pessoas, desalojou outras milhares e, inusitadamente, criou a lenda de um disco que há anos é rotulado como o mais caro do Brasil.

Você pensou em "Paêbirú" (1975)? Sim, só poderíamos estar falando dele

Já faz parte do nosso folclore musical: o primeiro álbum de Zé Ramalho, parceria com o artista recifense Lula Côrtes (1949-2011), uma expedição conceitual/psicodélica à Pedra do Ingá na Paraíba, é um sobrevivente. Assim como alguns de seus envolvidos.

Capa de "Paêbirú", de Lula Cortês e Zé Ramalho - Reprodução - Reprodução
Côrtes na capa do disco; Ramalho ficou na contracapa, o que teria alimentado rusgas
Imagem: Reprodução

Criado sem expectativa comercial, o álbum teve quase toda sua primeira prensagem de 1.000 exemplares perdida após um violento alagamento na Rozenblit, fábrica de LPs do Recife que já não vivia seus melhores dias e prensou o disco via selo Solar, que pertencia a Côrtes.

A cheia, uma das maiores da história da cidade, fez o pavimento inferior da sede da empresa —ironicamente localizada no bairro de Afogados— ser tomado por dois metros de água naquele trágico julho de 1975. E lá estavam os álbuns, tristemente submersos.

Meu auxiliar técnico, desesperado, tirava a água com um rodo. De repente, um barulho: o muro que circundava o córrego que passava ao lado desabou e uma onda de água veio sobre nós. Corremos para o primeiro andar para nos refugiar e, assim, ficamos nos alimentando de coco e farinha por dois dias até a água baixar.
Helio Rozenblit, filho do fundador da Rozenblit, que produziu o disco e viu a inundação, em entrevista ao jornal Estado de S. Paulo

Enchente do Rio Capibaribe, em 1975, matou mais de 100 pessoas no Recife - Sérgio Bernardo/JC Imagem - Sérgio Bernardo/JC Imagem
Enchente do Rio Capibaribe, em 1975, matou mais de 100 pessoas no Recife
Imagem: Sérgio Bernardo/JC Imagem

Mas nem tudo se perdeu

Longe do lamaçal, cerca de 300 cópias de acervo pessoal, destinadas aos músicos, sobreviveram na casa em que Lula Côrtes e a sua então companheira, a artista gráfica Kátia Mesel, dividiam no bairro de Beberibe, zona norte da cidade, menos afetada pelas águas.

Uma segunda parte desses cálices sagrados do colecionismo permaneceu encalhada em outra residência, a de Thelma Ramalho, prima de Zé, que testemunhou um tipo curioso de alquimia: vinil virou ouro.

Parece história de colecionador, mas, hoje, uma cópia original em bom estado de "Paebirú" pode ser negociada em termos de R$ 10.000. No maior banco de dados de discos do mundo, o site Discogs, não há nenhuma delas à venda.

Esse valor posiciona o álbum acima de "Tim Maia Racional" e o coloca em pé de igualdade com "Louco por Você" (1961), primeiro e renegado trabalho de Roberto Carlos, que teve tiragem única de mil cópias.

Nem todo colecionador sabe

Mesmo com enchente do Capibaribe tendo devastado a fábrica, danificando a matriz de "Paêbirú" —o "negativo" do vinil—, uma segunda edição foi produzida pela mesma Rozenblit no ano seguinte. A empresa criou um novo corte a partir de um backup da fita original.

Acreditava-se até então que a master havia se perdido para sempre na enchente, mas anos depois o tesouro acabou reencontrado, intacto, repousando no alto de estantes de aço do arquivo da fábrica.

A segunda edição de 1976 é igualmente histórica, embora ligeiramente menos valiosa no mercado de discos. Sucesso comercial? O disco nunca desfrutou em nenhum momento.

O álbum "Paebirú" - Carlos Murauskas, Luiz/TBA/Luiz Carlos Murauskas/11 de out.2006 - Carlos Murauskas, Luiz/TBA/Luiz Carlos Murauskas/11 de out.2006
Imagem: Carlos Murauskas, Luiz/TBA/Luiz Carlos Murauskas/11 de out.2006

Mas a verdade é que só conhecemos esta história cinematográfica por um motivo

A magia de 'Paebirú' foi redescoberta fora do Brasil durante os anos 2000, em um movimento típico do hype colecionista, como ocorrera com diversas outras obras tão importantes quanto eclipsadas na música brasileira.

A corrida pelo disco movimentou colecionadores principalmente na Europa e Japão. Diversas versões piratas em CD e LP pipocaram editadas por selos como Shadoks Music e Mr Bongo. E nunca nenhum artista envolvido viu a cor desse dinheiro.

Somente em 2019 o álbum ganhou relançamento oficial no Brasil pela Polysom, em vinil de 180 gramas, feito com masters originais. O preço do álbum duplo? R$ 250 sugeridos na época. Hoje, ele é encontrado a partir de R$ 320. Impossível falar de "pechincha". Mas é como se fosse.

Zé Ramalho e Lula Côrtes na Pedra do Ingá, na Paraíba - Fred Mesel - Fred Mesel
Zé Ramalho e Lula Côrtes na Pedra do Ingá, na Paraíba
Imagem: Fred Mesel

10 curiosidades sobre este clássico

  • O título "Paêbirú" é inspirado no famoso Caminho do Peabiru, antiga rota indígena que ligava regiões do interior e litoral do Brasil ao Peru.
  • A grafia correta é como você leu acima, "Peabiru", sem acentos e com a letra "e" à frente da "a". Eram tempos pré-internet. Muito mais difícil checar informações.
  • Antes das gravações, Ramalho e Côrtes fizeram expedições à Pedra do Ingá, sítio arqueológico rochoso na Paraíba que conta com misteriosas inscrições rupestres entalhadas.
  • Lá, movidos a cogumelos e viagens lisérgicas, a dupla começou a se interessar pelo sincretismo religioso dos povos indígenas locais e pela na crença da entidade Sumé, mito criado antes da colonização portuguesa.
  • As histórias e mitologias que circundam a pedra inspiraram Zé Ramalho e Lula Côrtes, que posaram para as fotos em filme infravermelho que estão na capa e na arte do disco.
  • Cada um dos quatro lados de "Paêbirú" é baseado em um elemento: terra, ar, fogo e água.
  • Considerado um dos projetos mais livres e experimentais da nossa música, o álbum tem barulhos de pássaros, rios, sons de tricórdio (cítara marroquina) e até um pente tocado em folha de celofane por Alceu Valença.
  • Essa estética acabaria virando uma das marcas do movimento "udigrudi", a psicodelia nordestina, de grupos como Ave Sangria e O Bando do Sol, Vários músicos da cena, e não só Alceu Valença, participaram do disco.
  • Apesar das qualidades artísticas das músicas, Zé Ramalho evita falar sobre o disco em entrevistas. Especula-se que a razão seja a má relação que ele manteve por anos com Lula e o fato de, na época, a imprensa não der dado atenção à obra. E nesse ponto ele está certo.
  • Tudo isso e muitos outros detalhes foram dissecados em um documentário imperdível, "Nas Paredes da Pedra Encantada" (2011), de Cristiano Barros, que refez o caminho da dupla e radiografou a gênese de "Paêbirú". Veja abaixo.

Você já viu o filme? Ouviu o disco? O que você acha dele? Escreva nos comentários ou mande uma mensagem para mim no Instagram (@hrleo) ou Twitter (@hrleo_). Quer ler mais textos do colunista? Clique aqui.

E até a próxima datilografada!