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Denúncias contra Melhem reforçam erros da Globo e coragem de Dani Calabresa

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Fernando Oliveira, conhecido como Fefito, é formado em jornalismo e pós-graduado em direção editorial. Teve passagens pela IstoÉ Gente, Diário de S. Paulo, iG, R7. Atuou como apresentador do Estação Plural, da TV Brasil, Mulheres, da TV Gazeta, e Morning Show, da Jovem Pan.

Colunista do UOL

04/12/2020 10h42

Resumo da notícia

  • Reportagem da revista "Piauí" detalha investigação das acusações de assédio contra ex-diretor do departamento de humor
  • Ao contrário do que ocorreu no caso de José Mayer, emissora ainda celebrou feitos do ator e roteirista e não citou o assunto
  • Mais do que falar sobre Melhem, é preciso enaltecer a coragem de Dani Calabresa, que fez a primeira denúncia

O estarrecedor detalhamento das denúncias contra Marcius Melhem, ex-diretor do departamento de humor da Globo, publicado pela revista "Piauí" nesta sexta-feira (4), reforça o que a coluna e muita gente já desconfiava: faltou transparência na emissora para lidar com o caso. Segundo o texto escrito por João Batista Jr., o ator e roteirista chegou a mostrar o pênis para algumas atrizes e promoveu uma verdadeira perseguição a Dani Calabresa, a quem tentava beijar, agarrar, forçar uma relação e ainda chamava de "gostosa".

A reportagem, que ouviu 43 pessoas, retrata o processo de encaminhamento do caso dentro da Globo. Em dado momento, alguns dos que procuraram a direção artística para relatar abusos chegaram a ouvir conselho para separar "festinhas" das questões de trabalho. O resultado da investigação do "compliance" nunca foi divulgado. Uma das diretoras chegou a sugerir que Melhem fizesse terapia —praticamente o premiou—, já que, até então, havia apenas um caso noticiado.

É muito curioso que a quantidade de casos possa servir como justificativa para um comportamento inaceitável. Quando o assédio cometido por José Mayer, em 2017, contra a figurinista Su Tonani veio a público, a emissora fez questão de pedir desculpas à profissional publicamente e deixar claro o rompimento do contrato com o ex-galã.

É, no mínimo, estranho que a empresa tenha decidido seguir um caminho oposto no caso de Marcius Melhem e, ao anunciar sua saída, não fazer a mínima menção às acusações que ele sofreu e motivaram grande crise em seus bastidores. E pior: é terrível celebrar seus feitos como se nada tivesse ocorrido.

Mais do que falar do ex-diretor, é preciso enaltecer a coragem de Dani Calabresa, a primeira mulher a denunciá-lo. Embora em situação delicada, já que lidava com o chefe direto, a atriz teve a coragem não só de levar o caso adiante como pediu para deixar o "Zorra", programa do qual era protagonista.

É muito difícil dar este passo em um ambiente tóxico, em que prevalece o silêncio por medo de represálias. A humorista, no entanto, entendeu que isso era maior que ela. Tanto que mais de uma dezena de outras mulheres decidiu contar que sofreu assédio moral e/ou sexual por parte de Melhem, que segue negando as acusações.

Mais do que ver seu agressor punido, as vítimas necessitam de reparação pública. E mais: precisam da garantia de que esse comportamento não voltará a se repetir no ambiente de trabalho.

Na época em que a coluna escreveu um texto falando da gritante falta de transparência no caso de Marcius Melhem, a Globo enviou um comunicado, aqui novamente colocado:

"Como você sabe, a Globo não comenta assuntos da área de compliance, mas reafirma que todo relato de assédio, moral ou sexual, é apurado criteriosamente assim que a empresa toma conhecimento. A Globo não tolera comportamentos abusivos em suas equipes e, neste sentido, mantém um canal aberto para denúncias de violação às regras do Código de Ética do Grupo Globo. Por esse Código, assumimos o compromisso de sigilo do processo, assim como o de investigar, não fazer comentários sobre as apurações e tomar as medidas cabíveis, que podem ir de uma advertência até o desligamento do colaborador. Mesmo nas hipóteses de desligamento, as razões de compliance não são tornadas públicas.

Somos muito criteriosos para que os estilos de gestão estejam adequados aos comportamentos e posturas que a Globo quer incentivar e para que as medidas adotadas estejam de acordo com o que foi apurado. Não foi diferente nesse caso.

Isso não quer dizer que os processos de compliance sejam estáticos. Ao contrário. Eles evoluem constantemente para acompanhar as discussões da sociedade. As práticas e as avaliações são revistas o tempo inteiro, assim como são propostas e acolhidas sugestões de melhoria nos mecanismos de comunicação interna. A própria sociedade está se transformando e a empresa acompanha esse processo".

Mais do que encontrar justificativas para situações estarrecedoras como esta, é preciso entender que tais comportamentos como os de Marcius Melhem não têm mais espaço no mundo de hoje. Nunca deveriam ter tido. Não passarão.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL