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Aline Ramos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Ao boicotar Prêmio Multishow, Ludmilla se consolida como a cantora do ano

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Aline Ramos

Aline Ramos é jornalista, mas tá mais pra palpiteira, por isso cria conteúdo na internet desde 2014. Você com certeza já fez algum teste dela no BuzzFeed, onde foi redatora por dois anos. É especialista em diversidade e dá consultoria para marcas em temas como raça e gênero. Mas o que ama mesmo é escrever sobre entretenimento e dar opinião sobre tudo, se bobear até sobre a sua vida.

Colunista do UOL

19/10/2021 16h23

Você pode até não gostar da Ludmilla, mas não pode negar que a artista é um sucesso na música pop nacional. Quando surgiu para o mundo como MC Beyoncé, não era óbvio vislumbrar a trajetória que percorreu e o sucesso que conquistou. Pelas condições e oportunidades que um país como o Brasil oferece a pessoas como Lud - mulher, negra, periférica e bissexual -, ela foi longe, e fez por merecer isso.

Ludmilla traçou um caminho bastante próprio na carreira. Primeiro, foi relevante dentro do segmento em que se lançou, o funk, e fez parte do movimento que levou o ritmo para além das nossas fronteiras. Depois, se jogou no pop e emplacou hit atrás de hit. Quando o sucesso já era rotina, se reinventou como uma excelente cantora de pagode, gênero que conta com raras mulheres como vocalistas.

Posicionamento estratégico

Ela sabe muito bem quem é como artista. E é por isso que decidiu boicotar o Prêmio Multishow após não ser indicada para a categoria "Cantora do Ano". Ludmilla foi impecável em sua justificativa e apresentou números e dados que provam que está mais do que habilitada para concorrer na categoria, tanto por algoritmos quanto por relevância musical.

O posicionamento de Ludmilla foi arriscado e ousado por diversos motivos, e ficam algumas perguntas: Como o público vai assimilar o boicote da cantora? Como o mercado vai receber esse tipo de postura? E os colegas artistas, como irão lidar? Haverá algum impacto na presença de Lud como jurada do The Voice+ na Globo, empresa do mesmo grupo que o Multishow?

Só quem confia muito no próprio trabalho e está segura do que defende consegue assumir todos esses riscos. A atitude de Ludmilla foi, acima de tudo, estratégica. Ao boicotar o Prêmio Multishow, ela atrai os olhares para o seu desconforto, gera reflexão sobre a sua obra e força a organização do prêmio a pensar em alguma postura.

Pelo fim das diferenças

Em seu posicionamento, Ludmilla não reivindica nenhum privilégio por ser negra. O que ela quer é justamente acabar com qualquer diferença de tratamento. Num país com tantas cantoras negras excelentes, é um escândalo que elas sejam minoria na principal categoria de um prêmio como o do Multishow. Isso para não falar do pouco reconhecimento aos ritmos musicais que nasceram no seio da cultura negra.

A luta por reconhecimento de Ludmilla também esbarra na invisibilização do pagode como música pop. O gênero figura como um dos principais e mais relevantes do país há décadas. Porém, apesar do sucesso de público, a crítica costuma relegar o ritmo a um segundo plano. E foi nesse cenário que Lud lançou o excelente "Numanice", álbum bem-sucedido do ponto de vista popular, mas esquecido pela premiação. Nesta edição do Prêmio Multishow, o pagode até ganhou algumas indicações - todas elas de homens -, mas ainda assim está aquém da relevância do gênero.

Cantora do ano

Ludmilla está acostumada a estar na vanguarda e está fazendo isso mais uma vez. Seu posicionamento vai gerar alguma reação. Ainda não sabemos qual, mas as coisas não devem ficar iguais. Ninguém mexe com uma estrutura sem gerar incômodos. Lud se consolida como artista do ano antes mesmo do Prêmio Multishow começar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL