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"Tricô contribuiu para o sustento da minha infância e hoje virou meditação"

Patrícia Parenza compartilha algumas das peças criadas por ela em sua perfil no Instagram (@patriciaparenza) - Arquivo Pessoal
Patrícia Parenza compartilha algumas das peças criadas por ela em sua perfil no Instagram (@patriciaparenza) Imagem: Arquivo Pessoal

Marilia Marasciulo

Colaboração para Nossa

09/08/2021 04h00

Patrícia Parenza

Patrícia Parenza

Profissão

Jornalista

Minha roupa com história

Peças de tricô que fazem parte da trajetória da minha família

Quando eu era criança, minha mãe tricotava para fora para ajudar nas despesas da casa. Meu pai ganhava muito pouco, tenho três irmãos e só minha irmã mais velha trabalhava, os outros ainda estudavam. Então minha mãe resolveu começar a fazer blusões para vender para lojas do interior do Rio Grande do Sul, estado onde a gente mora.

Patricia, ainda jovem, modelando um dos casacos feito pela mãe - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Patricia, ainda jovem, modelando um dos casacos feito pela mãe
Imagem: Arquivo Pessoal

Eu ainda não tinha o domínio das agulhas, mas ajudava como podia. Naquela época, anos 1980, usava-se meadas de lã, não os novelos prontos como temos hoje. Minha tarefa era ficar segurando enquanto ela enrolava os novelos. Também recolhia os restos de lã do chão e limpava a casa no turno inverso da escola, para poder deixá-la focar no trabalho. Às vezes, costurava os blusões, que foi a primeira coisa que minha mãe me ensinou a fazer.

Lembro de ver ela virar noites para dar conta dos pedidos, que permitiam que ela comprasse as nossas roupas e alguns alimentos diferentes para ter na geladeira, algo que a gente gostasse mais.

Aquilo me marcou muito: passei a enxergar no tricô a força da mulher, uma maneira de ser independente e conquistar seu próprio dinheiro. Até hoje o trabalho manual é a força financeira de muitas mulheres".

Depois que fiquei um pouco mais velha, ali pelos dez anos, aprendi a tricotar. E não parei mais. Nunca fui tricoteira profissional, mas acredito que a experiência de ver minha mãe negociando o próprio trabalho me estimulou a ser um pouco negociante. Tanto que desde os 20 anos sou empreendedora.

Todas as peças que eu faço costumam ser mais retangulares, pois não tenho muita técnica para fazer grandes modelagens. O bom é que os novelos hoje já vêm prontos, então posso buscar lãs mais trabalhadas e com detalhes, que deixam até os pontos mais simples elaborados. Gosto de usar minhas criações de várias formas: tenho blusões, chales e um vestido, que fiz durante a gravidez do meu primeiro filho. O mais importante é ter cor. Acho que a cor traz mais alegria para o nosso dia a dia.

Patricia Parenza com tricô - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Patricia Parenza com tricô
Imagem: Arquivo Pessoal
Confecção das peças virou uma terapia - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Confecção das peças virou uma terapia
Imagem: Arquivo Pessoal

Quando eu tricoto, eu me acalmo, é quase uma meditação ativa. Fico totalmente focada, especialmente quando o trabalho envolve contar os pontos. É atenção plena, você larga a vida lá fora e foca naquilo. O tricô também exercita nossa paciência extrema, porque às vezes tem que desmanchar o que acabamos de fazer, porque deu errado, e refazer tudo de novo.

Meu filho não quis aprender a tricotar e não gosta de usar blusões de lã, porque se incomoda com o material. Se eu conseguir ensinar para alguém, vou ficar muito feliz. De todo modo, vou continuar tricotando para sempre porque, pelo menos para mim, essa história é eterna.

Como usar

Unissex

O atleta britânico Tom Daley chamou a atenção ao aparecer tricotando na arquibancada dos Jogos Olímpicos de Tóquio. As roupas de tricô, afinal, são universais, atemporais e sem gênero.

Sofisticado

O tricô branco ou em tom cru deixa até o visual mais basiquinho com um ar de sofisticação. Victoria Beckham que o diga: a eterna “Posh Spice” volta e meia é flagrada apostando no modelito em suas produções.