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Rafael Leick

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Confisco e prisão: o que pode acontecer com o torcedor gay na Copa do Qatar

A área externa iluminada do Khalifa International Stadium, em Doha, no Catar - emson/Getty Images
A área externa iluminada do Khalifa International Stadium, em Doha, no Catar Imagem: emson/Getty Images

Colunista do UOL

27/09/2022 04h00

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Com a aproximação da Copa do Mundo de futebol, os olhos começam a se voltar para o Qatar, sede do mundial em 2022. Mas, para viajantes gays que gostam de futebol - sim, existem e não são poucos - nem toda torcida pode ser diversão.

É ilegal ser homossexual no país, em que vigora a Sharia, a lei do direito islâmico, e onde não há separação entre instituições governamentais e religiosas. A sentença para os "criminosos" pode ser até prisão de sete anos ou apedrejamento, mesmo para turistas.

E é uma pena "branda". Afinal, para muçulmanos residentes, a pena de morte pode ser aplicada. A sharia prevê essa punição por sexo extraconjugal, independentemente do gênero dos participantes, e sexo sem ser no casamento não é necessariamente super legal por lá. Mas, olha que alívio, nenhuma pena de morte foi de fato aplicada até hoje por homossexualidade.

Agora sim dá para ficar supertranquilo, né?

(pausa para respirar)

Bandeirinha de futebol com as cores do arco-íris, símbolo LGBTQIA+ - imagean/Getty Images/iStockphoto - imagean/Getty Images/iStockphoto
Bandeirinha de futebol com as cores do arco-íris, símbolo LGBTQIA+
Imagem: imagean/Getty Images/iStockphoto

E o que a Fifa, organizadora da Copa do Mundo e dita defensora da inclusão, diz sobre isso? Colocaram, com orgulho, a bandeira do arco-íris em sua sede e nas redes sociais em junho (salve o pink washing) e afirmaram estar tomando medidas para proteção de todas as pessoas:

  • Treinando o pessoal envolvido na competição, incluindo forças de segurança públicas e privadas, em como cumprir suas tarefas de maneira não-discriminatória;
  • Insistindo que hotéis e outros estabelecimentos envolvidos recebam fãs LGBTQIA+ no Qatar de maneira a respeitar direitos e privacidade de todas as pessoas;
  • Implementando sistemas para identificar e endereçar práticas discriminatórias dentro e fora dos estádios;
  • Operando um sistema de reclamações à Fifa para serem endereçados aos times competentes.
Em junho, Fifa postou nas redes imagens da bandeira hasteada em sua sede - Site Oficial/Reprodução - Site Oficial/Reprodução
Em junho, Fifa postou nas redes imagens da bandeira hasteada em sua sede
Imagem: Site Oficial/Reprodução

Lindo, né? É importante só situarmos que isso tudo é dito depois de ter selecionado, na sequência, dois países que discriminam abertamente a diversidade afetiva e sexual. Ou já esquecemos que a última sede foi a Rússia, que proíbe o que eles chamam de "propaganda gay", incluindo portar bandeira do arco-íris? Em 2022, não será diferente.

Quando o Qatar foi selecionado como sede da Copa do Mundo, em 2010, o presidente da Fifa foi questionado sobre a realidade de pessoas LGBTQIA+ no país. Ele respondeu, em tom de piada, que os fãs gays de futebol "deveriam evitar qualquer atividade sexual". Cobrado pela fala, abaixou o tom, dizendo não quererem discriminação.

Em dezembro de 2020, seguindo as políticas de inclusão da Fifa, os representantes do país concordaram em não restringir, durante os jogos, a exibição de imagética pró-LGBTQIA+, como a bandeira do arco-íris.

Mas, em abril deste ano, o discurso mudou e o plano agora é confiscar bandeiras do orgulho de torcedores "como medida para proteger essas pessoas de outros torcedores que são anti-LGBT". Esse discurso "estou te restringindo, mas é para o seu bem" não é novo e é bastante usado como desculpa para não fazer o que é correto.

Depois de críticas óbvias alegando que o alvo das ações deveria ser quem discrimina e não quem é discriminado, um oficial fez uma declaração para os turistas da comunidade: "Reservem um quarto juntos, durmam juntos, isso não é da nossa conta".

Região da Corniche, em Doha, no Qatar, onde foi instalado relógio que faz contagem regressiva para a Copa - Gabriel Carneiro/UOL - Gabriel Carneiro/UOL
Região da Corniche, em Doha, no Qatar, onde foi instalado relógio que faz contagem regressiva para a Copa
Imagem: Gabriel Carneiro/UOL

Todo mundo é bem-vindo, desde que não haja demonstração pública de afeto. Isso, eu até consigo entender pois é parte da cultura do país para qualquer pessoa, não só para casais homoafetivos. Mas as ações e falas preconceituosas do país-sede da Copa do Mundo e seus representantes foram diversas e notórias ao longo destes anos.

E, apesar dos ditos esforços da Fifa, alguns hotéis oficiais da sua lista oficial de recomendações têm se recusado a oferecer acomodação a casais do mesmo gênero, enquanto outros aceitam, desde que o casal esconda seu relacionamento em público.

A Fifa declarou estar reforçando essa orientação. Mas não era só escolher outra sede? É o que também me questiono.

O Relatório de Homofobia do Estado da ILGA (Associação Internacional LGBTQIA+), de dezembro de 2020, traz um resumo mais completo sobre os direitos da comunidade no Qatar. E não é nada positivo. De qualquer maneira, vale a reflexão - e a decisão individual - se vale a pena gays viajarem para países homofóbicos.

Jogadores contra a homofobia

A pressão sobre a Fifa para promover um ambiente realmente inclusivo vem aumentando. Agora, além de organizações internacionais de proteção aos Direitos Humanos, atletas e oito seleções europeias também estão se preparando para protestar contra a homofobia institucionalizada no Qatar.

Os times da Inglaterra, Alemanha, Bélgica, Dinamarca, França, Holanda, País de Gales e Suíça fecharam um acordo para estampar um coração com as cores do arco-íris nas braçadeiras de seus capitães. Essa medida ainda não foi aprovada pela Fifa e pode nem ser, mesmo a federação hasteando uma bandeira colorida em sua sede (só no mês de junho, claro). Seu regulamento diz que as braçadeiras devem ser padronizadas para os 32 times. Isso, sabemos, não é uma unanimidade.

Defendendo a Inglaterra, o atacante Harry Kane já usou braçadeira de capitão com as cores do arco-íris - James Williamson - AMA/Getty Images - James Williamson - AMA/Getty Images
Defendendo a Inglaterra, o atacante Harry Kane já usou braçadeira de capitão com as cores do arco-íris
Imagem: James Williamson - AMA/Getty Images

Estou curioso para saber qual vai ser a posição do Brasil nessa, e você? Mas já estou pronto para anotar os times que torcem pela gente para saber para quem vale torcer.

A ideia da Copa do Mundo é celebrar, não somente o esporte, mas as pessoas que fazem o esporte possível. E, quando falamos de turismo, as pessoas são a chave para tornar uma viagem inesquecível, seja para o lado positivo ou negativo.

Sobre o Qatar, faço um adendo importante aqui: o problema não é a religião islâmica. Este é o cenário de países que não separam a religião do Estado. A junção é catastrófica para muita gente. É bom lembrar desse "pequeno grande detalhe" no próximo domingo, ao votar para escolher o que se espera do Brasil.