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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Maluf estava certo: comida e cigarro não combinam (e nem fedor pós-bar)

Lei antifumo baniu o cigarro e dentro de bares e resturantes -- e evitou chegar em casa cheirando a fumaça - Getty Images/iStockphoto
Lei antifumo baniu o cigarro e dentro de bares e resturantes -- e evitou chegar em casa cheirando a fumaça Imagem: Getty Images/iStockphoto
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Miguel Icassati

Miguel Icassatti é jornalista e curador da Sociedade Paulista de Cultura de Boteco. Foi crítico de bares das revistas ?Playboy? (1998-2000) e ?Veja São Paulo? (2000), editor-assistente e um dos fundadores do ?Paladar/jornal O Estado de S. Paulo? (2004 a 2007), editor dos guias ?Veja Comer & Beber? em 18 regiões brasileiras (2007 a 2010), editor-chefe do Projeto Abril na Copa (Placar) e da revista ?Men?s Health Brasil? (2011 a 2014). É colunista de ?Cultura de Boteco? da rádio BandNews FM e correspondente no Brasil da ?Revista de Vinhos? (Portugal).

Colunista do UOL

26/01/2022 04h00

Em dezembro de 2020, uma edição do programa Roda Viva que foi ao ar em 1995 viralizou nas redes sociais. Graças ao entrevistado: Paulo Maluf. Então prefeito de São Paulo, Maluf havia assinado dois decretos municipais que deram o que falar: um tornava obrigatório o uso do cinto de segurança; o outro proibia o consumo de cigarros em bares e restaurantes.

A gritaria foi geral, a começar pelos jornalistas da banca de entrevistadores, majoritariamente contra as duas iniciativas. Um quarto de século depois, quem diria, nem um nem outro assuntos merecem questionamento nem de jornalistas, nem de gente mais inteligente.

Ainda ontem, eu e um grupo de amigos relembrávamos como era desagradável, naquele finzinho de anos 1990, chegar em casa na maior fedentina depois de uma noitada, fosse num bar, fosse numa balada ou num restaurante.

Alguns lugares, em geral baladas e dining clubs, até que conseguiram dar um jeito, ao instalar chiqueirinhos e área para fumantes, na tentativa separar fumantes e não-fumantes e de conciliar a comida e o fumacê. Mas no interior dos bares e restaurantes, felizmente, o cigarro foi mesmo banido, não só na cidade de São Paulo como em todo o estado, graças à lei antifumo, que segue em vigor.

Proibido fumar, bar , rua - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto

"É proibido fumar dentro de bares, restaurantes e lanchonetes paulistas nem são permitidas áreas para fumantes ou fumódromos. E em mesas na calçada o cigarro é permitido, desde que a área seja aberta e que haja algum tipo de barreira, como parede ou janela, que impeça a fumaça de entrar no estabelecimento", diz a lei 11.546 de 2011.

É permitido ainda nos bares-tabacarias, redutos de charuteiros, por assim dizer, como é o caso do Esch Café, marca de origem carioca que mantém unidades no Leblon e nos Jardins, em São Paulo, bairro onde está localizada a Ranieri Tabacaria. Comandada pelo empresário Beto Ranieri, um dos maiores experts em charutos no Brasil, a casa acolhe também fumantes de cachimbo e tem boa oferta de destilados e drinques clássicos.

Esch Café, em São Paulo - Reprodução Instagram - Reprodução Instagram
Esch Café, em São Paulo
Imagem: Reprodução Instagram

Mas... para um asmático como eu, locais como esses são territórios arriscadíssimos. Por isso, digo que a lei antifumo é uma bênção. Lembro-me dela e agradeço por ela, aliás, sempre que estou num bar em alguma cidade que não haja norma parecida, como é o caso do Porto, em Portugal, que proíbe o cigarro apenas em restaurantes, deixando os bares à vontade para os fumantes.

É o caso do The Gin House, um bar especializado em gim — são mais de 100 marcas disponíveis — que, lá pelo meio da noite, aumenta o som e se transforma numa balada movida a gim tônica e a muita nicotina.

Foi lá fora também que vi pela primeira vez pessoas aspirando cigarros eletrônicos, produtos que, segundo a British American Tobacco, maior empresa de tabaco do mundo e controladora da BAT Brasil, antiga Souza Cruz, "são substancialmente de menor risco à saúde do que os cigarros tradicionais".

The Gyn house, no Porto, em Portugal - Reprodução Instagram - Reprodução Instagram
The Gyn house, no Porto, em Portugal
Imagem: Reprodução Instagram

Mas o risco persiste e o consumo de cigarros, na pandemia, aumentou, de acordo com a ConVid - Pesquisa de Comportamentos da Fundação Oswaldo Cruz. E o uso dos DEFs (dispositivos eletrônicos para fumar), como são chamados os cigarros eletrônicos, vapes etc., alcança 3% da população acima de 18 anos. O curioso é que esses produtos podem ser comprados em tabacarias, lojas de conveniência, supermercados e sites, mesmo a venda sendo proibida no país desde 2009.

De férias na Praia do Rosa (SC) no início de janeiro, fiquei impressionado com a quantidade de jovens (ou mais jovens do que eu) tragando cigarros eletrônicos na areia, nos bares e restaurantes. Será modinha?

E por falar em modinha, não vi ninguém compartilhando narguilé, o que por certo é uma consequência da pandemia. Existe quem defenda, aliás, que narguilé e cigarro eletrônico não soltam fumaça mas, sim, um "aerossol". E há quem equilibre o corpo entre um drinque numa mão e um cigarrinho na outra.

À parte o que dizem a lei e os defensores do fumacê e do aerossol, eu pergunto: comida e cigarro combinam? Eu acho que não.

Fumaça por fumaça, prefiro a de uma churrasqueira. E aerossol por aerossol, sou mais o do limão sendo espremido na minha caipirinha.

Vai lá:

Esch Café: Rua Dias Ferreira, 78-A, Leblon, Rio de Janeiro; Alameda Lorena, 1899, Jardins, São Paulo.

Ranieri Tabacaria: Alameda Lorena, 1221, Jardins, São Paulo.

The Gin House: Rua de Cândido dos Reis, 70, região dos Clérigos, Porto, Portugal.