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Entre goles e golpes: rebeliões históricas que nasceram em mesas de bar

A Conspiração da Pólvora, que tentou matar o monarca Jaime 1° em 1605, e se reunia no pub The Olde Coach House - Getty Images
A Conspiração da Pólvora, que tentou matar o monarca Jaime 1° em 1605, e se reunia no pub The Olde Coach House Imagem: Getty Images

Felipe van Deursen

Colaboração para Nossa

10/12/2021 04h00

Quando pensamos na boemia dos bares e seu impacto na história, é comum lembrarmos de sua influência na sociedade. Exemplo famoso é a Rebelião de Stonewall, em 1969, que desencadeou a luta por direitos da comunidade LGBT a partir desse bar de Nova York.

Ao falar de influência na cultura, alguns endereços têm associação imediata. A literatura de língua inglesa deve muito ao pub londrino Ye Olde Cheshire Cheese, frequentado por Mark Twain, Arthur Conan Doyle e Charles Dickens, que se inspirou nesse bar para o clássico "Um Conto de Duas Cidades".

Ye Olde Cheshire Cheese Inn hoje - Getty Images - Getty Images
Ye Olde Cheshire Cheese Inn hoje
Imagem: Getty Images
Ye Olde Cheshire Cheese em gravura antiga - Getty Images - Getty Images
Ye Olde Cheshire Cheese em gravura antiga
Imagem: Getty Images

Outro exemplo é o Jacaranda, de Liverpool, que foi essencial no início da carreira dos Beatles. "Garota de Ipanema" nasceu no carioca Veloso, bar que foi rebatizado com o nome da música. O Tortoni, em Buenos Aires, a Bodeguita del Medio e o Floridita, em Havana, e o Florian, em Veneza. A lista é longa.

Cafe Tortoni, em Buenos Aires, Argentina - Getty Images - Getty Images
Cafe Tortoni, em Buenos Aires, Argentina
Imagem: Getty Images

Mas e se falarmos de política? Ao longo da história, bares, tavernas, cervejarias e afins serviram de ponto de encontro de grupos que queriam mudar o estado das coisas. Às vezes dava certo, o que nem sempre significava que a vida das pessoas melhoraria, muito pelo contrário. Veja a seguir.

Putsch da cervejaria

Hofbrauhaus am Platzl, em Munique - Getty Images - Getty Images
Hofbrauhaus am Platzl, em Munique
Imagem: Getty Images

Em 1923, o Partido Nazista era uma agremiação emergente e raivosa na política da Alemanha. Eram os idos da República de Weimar, período que ficou marcado pelo caos econômico após a derrota alemã na Primeira Guerra Mundial. A frágil democracia era ameaçada por todos os lados, de comunistas a fascistas, além de monarquistas.

Adolf Hitler, um ex-cabo que participou da guerra, conseguiu pela primeira vez na vida se destacar em alguma coisa ao fazer discursos cativantes e nostálgicos de uma Alemanha poderosa. Em 1920, ele falou aos então pouco afiliados do partido, cerca de 2 mil, na Hofbräuhaus am Platzl, cervejaria do século 16 localizada no centro histórico de Munique.

Três anos depois, Hitler já comandava a legenda, que tinha 100 mil membros e muita disposição para implodir o cenário político alemão. Inspirado na Marcha de Roma, que levou Benito Mussolini ao poder na Itália, no ano anterior, Hitler quis tentar algo parecido.

Gravura mostra a Hofbrauhaus am Platzl em 1897 - Getty Images - Getty Images
Gravura mostra a Hofbrauhaus am Platzl em 1897
Imagem: Getty Images

O primeiro passo seria conquistar Munique. Até então, não havia um líder claro que representasse a direita e a extrema-direita, então os nazistas propuseram um golpe em conjunto.

No dia 8 de novembro, Gustav von Kahr, um desses medalhões da política da Baviera, faria um discurso na Bürgerbräukeller, uma das maiores cervejarias de Munique, aberta no século 19. Só que então os nazistas, ignorando o combinado, invadiram o recinto e trancafiaram Von Kahr e outros dois líderes políticos em uma sala para iniciar o golpe sem os supostos aliados.

Em outra cervejaria, a Löwenbräukeller, mais nazistas se preparavam para se juntar a Hitler enquanto bebiam e ouviam música. Eles saíram em marcha rumo à Bürgerbräukeller, conquistaram alguns pontos da cidade e só. O golpe tinha diversos buracos de planejamento, os líderes aprisionados acabaram soltos por um dos próprios aliados de Hitler, a polícia entrou em ação.

Houve confusão, pancadaria e troca de tiros. "Boa parte dos golpistas conseguiu revidar os tiros para matar quatro policiais do estado. O resto deles fugiu como ratos, deixando 14 companheiros de golpe mortos na rua", escreveram os historiadores americanos Ed Strosser e Michael Prince no livro "Guerras Estúpidas" (Record, 2013).

O golpe já era, terminando desonrosamente menos de um dia após ter começado."

Löwenbräukeller, em Munique, na Alemanha - Getty Images - Getty Images
Löwenbräukeller, em Munique, na Alemanha
Imagem: Getty Images

Beba história

Hofbräuhaus am Platzl - A cervejaria que teve entre seus frequentadores personagens tão diversos como Mozart e Lenin foi bombardeada na Segunda Guerra, restaurada e hoje é um dos pontos turísticos mais importantes de Munique. Casa da famosa Hofbräu.

Bürgerbräukeller - Foi palco de um atentado frustrado contra Hitler em 1939. Foi demolida em 1979 para dar lugar a um hotel e a um centro cultural.

Löwenbräukeller - Durante o período nazista, sediou as celebrações de aniversário do golpe frustrado de 1923. Aberta até hoje, é a casa da Löwenbräu.

Festa do chá em Boston

Gravura reproduz a Boston Tea Party - Getty Images - Getty Images
Gravura reproduz a Boston Tea Party
Imagem: Getty Images

Chá era um produto em ascensão no século 18, e não era diferente nas Treze Colônias britânicas na América do Norte. Uma dessas colônias, Massachusetts, onde fica Boston, se revoltou em 1773 com uma medida do governo em Londres, que concedeu monopólio da venda de chá à Companhia Britânica das Índias Orientais. Isso fez o preço do produto disparar.

Membros de uma organização política clandestina chamada Sons of Liberty se reuniam com frequência em uma taverna de Boston chamada Green Dragon. Foi lá que eles resolveram invadir três navios que chegaram carregados de chá no porto e despejá-lo no mar.

Green Dragon Tavern, em Boston, EUA - Getty Images - Getty Images
Green Dragon Tavern, em Boston, EUA
Imagem: Getty Images

Massachusetts foi reprimida e entrou em lei marcial. A reação inglesa serviu para unir as colônias em direção à guerra que levaria à independência dos Estados Unidos, três anos mais tarde.

Outros grupos políticos que tramavam pelo fim da colonização britânica também se encontravam no Green Dragon. Segundo o historiador americano Steven D. Barleen no livro "The Tavern: A Social History of Drinking and Conviviality" ("A taverna: uma história social de bebida e convivência", sem edição no Brasil), "nenhum bar dessa época era tão famoso ou importante para a história americana". Os ingleses o chamavam de "ninho da traição".

Beba história

Green Dragon - O bar, que era frequentado por líderes da independência como Samuel Adams (que por sua vez inspirou o nome da cerveja mais famosa de Boston), foi demolido em 1832, dando lugar a um depósito. Há uma placa em memória. Hoje, um novo Green Dragon fica no mesmo bairro, North End, e celebra a história da taverna.

Conspiração da pólvora

Era difícil ser católico na Inglaterra do começo do século 17. O rei Jaime 1° havia prometido mais liberdades e direitos quando foi coroado, em 1603, mas um grupo de conspiradores, impacientes com a situação, achou que a melhor maneira de ter mais direitos e liberdades seria afastá-lo do trono.

Robert Catesby viu em casa como as coisas eram. Seu pai, um nobre perseguido no reinado de Elizabeth 1ª por não se converter ao anglicanismo, chegou a ser preso por esconder e proteger padres em sua propriedade, no centro da Inglaterra. Robert tornou-se um agitador experiente que chegou a ser preso por promover uma invasão da Espanha às Ilhas Britânicas.

Guy Fawkes e o grupo de conspiradores contra a monarquia britânica - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Guy Fawkes e o grupo de conspiradores contra a monarquia britânica
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Em 1604, ele começou a se reunir com outros católicos que tinham ideias semelhantes no The Olde Coach House, em Ashby St Ledgers. O grupo logo incluiu Guy Fawkes, soldado com fama de aventureiro, e ganhou outros conspiradores, que se reuniam na casa de Robert para tratar os detalhes do plano.

A ideia era explodir o prédio do Parlamento, em Londres, em 5 de novembro de 1605. Seria o dia de abertura do Parlamento e contaria com a presença do rei, da rainha e do príncipe herdeiro.

Em maio, tudo estava pronto, cerca de 1.500 quilos de pólvora estavam alojados, prontos para mandar tudo pelos ares. Os líderes se espalharam pela Europa a fim de buscar aliados para trazer a Inglaterra de volta para o guarda-chuva católico. Um deles foi a Roma para garantir que o papa apoiaria a sua causa quando soubesse da morte do monarca inglês.

Gravura mostra a execução dos conspiradores liderados por Robert Catesby - Getty Images - Getty Images
Gravura mostra a execução dos conspiradores liderados por Robert Catesby
Imagem: Getty Images

Mas o plano do atentado terrorista vazou antes da data. Uma carta, escrita provavelmente por um primo de Robert que fazia parte do complô, revelou tudo. Na véspera do ataque, Guy Fawkes foi flagrado no local, preso e torturado até entregar os comparsas. Muitos fugiram, outros, como Fawkes, foram executados, e Robert acabou morto em uma troca de tiros.

O fracasso levou ainda mais repressão aos católicos pelos séculos seguintes. O episódio é bastante lembrado até hoje no Reino Unido. Na cultura pop ele é comumente associado, especialmente nas últimas décadas, à série em quadrinhos "V de Vingança". O autor, Alan Moore, se inspirou parcialmente na história para criar sua obra distópica, que adaptada ao cinema em 2005.

The Olde Coach House hoje em dia - Reprodução/Tripadvisor - Reprodução/Tripadvisor
The Olde Coach House hoje em dia
Imagem: Reprodução/Tripadvisor

Beba história

The Olde Coach House - a histórica propriedade dos Catesby, na vila de Ashby St Ledgers, em Northamptonshire, hoje é uma bela pousada que conta com um típico country pub inglês.